Publicado em 10/08/2026 - 08:36 / Clipado em 10/08/2026 - 08:36
Empresas jovens, criadas após 2021, receberam R$ 870 milhões do Master
Redação
- Parte tem características de negócios de fachada ou administradores na mira da PF; alguns pagamentos foram feitos meses após a fundação
- Procuradas, firmas dizem que seus contratos foram regulares; defesa de Vorcaro não quis comentar
Quase 30% das empresas que receberam os maiores valores do banco de Daniel Vorcaro em transações declaradas à Receita Federal como pagamentos por serviços prestados são firmas muito jovens, que só passaram a existir a partir de 2021, ano em que a instituição começou a operar como Master.
Entre as 117 firmas que receberam ao menos R$ 5 milhões do banco, 35 têm esse perfil, de acordo com levantamento feito pela Folha com base em documentos do Fisco enviados à CPI do Crime Organizado.
Somados, os pagamentos às empresas mais novas giram em torno de R$ 870 milhões entre 2022 e 2025. Ao menos uma dúzia delas recebeu do Master meses após serem constituídas.
Vorcaro assumiu o controle do Banco Máxima em 2019, mas a instituição só foi rebatizada e passou a operar como Master em 2021. A assessoria dele não quis comentar.
Algumas empresas foram alvo de operações da Polícia Federal ou estão ligadas a pessoas investigadas no escândalo financeiro. Outras abrangem beneficiários de programas de transferência de renda do governo, conforme a Folha revelou. Há casos de firmas com dados falsos nos cadastros da Receita.
Não é possível afirmar se parte dessas empresas foi criada apenas para receber recursos do banco, por meio de transferências que a instituição financeira classificou ao Fisco como pagamentos por serviços prestados. Mas, em certos casos, suas características são indicadores de negócios de fachada, segundo especialistas.
Um exemplo que chama a atenção é o da Telure, fundada em 2023, que recebeu mais de R$ 110 milhões do Master. Segundo seu próprio cadastro, a diretora dessa empresa é Fabia Franca. Ela ganhou R$ 5.000 de auxílio emergencial do governo na pandemia, situação que não condiz com o perfil de diretora de um negócio de tamanho faturamento.
A mesma Fabia é diretora da Nanook, fundada dois meses antes, que levou outros R$ 93 milhões. É também diretora da Utter (de julho de 2022), que levou R$ 48 milhões (veja na tabela).
No total, são mais de R$ 250 milhões pagos às três firmas que têm Fabia como diretora —todas com dados inválidos no cadastro de CNPJ, como telefone 1111-1111. A reportagem não conseguiu contato com tais empresas.
Na opinião de Rafael Alcadipani, professor da FGV e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, alguns casos de empresas jovens podem ter justificativa, mas o alto volume chama a atenção e deveria gerar alerta nos órgãos de controle, assim como os cadastros falsos.
"Já existe inteligência artificial para checar volumes gigantes de dados. Dá para evitar situações tão escancaradas. Telefone com número repetido é escárnio. Deveria haver algum alerta no sistema da Receita para impedir isso. É um expediente típico de empresa de fachada usado pelo crime organizado até para lavar dinheiro", diz o professor.

Pequeno edifício branco, em São Caetano do Sul (SP), abriga a empresa Telure, que foi aberta em 2023 e recebeu mais de R$ 110 milhões do Master - Rafaela Araújo/Folhapress
Outro exemplo é o da Metanoein, fundada em 2021, que hoje é alvo de investigação por suposto esquema de lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa. Como a Folha revelou, a Metanoein recebeu R$ 102 milhões do Master.
Neste ano, em abril, a firma foi alvo de uma medida da 8ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, que impediu a transferência de valores ligados à empresa. Isso ocorreu após pedido do Ministério Público Federal para o sequestro de contas e aplicações financeiras de sua sócia, Rose Evelyn Coité, e seus filhos, apontados como reais proprietários de postos de gasolina mantidos em nome de terceiros.
Coité não respondeu às tentativas de contato da reportagem desde 27 de abril por email e WhatsApp.
Entre os negócios recém-constituídos está a Copenhagen, firma com capital de R$ 40, que recebeu R$ 58 milhões do Master. Seu diretor era Artur Figueiredo, mas ele deixou a empresa em julho de 2025. No mês seguinte, foi citado na operação Carbono Oculto da PF sobre crime organizado no setor financeiro. O nome da Copenhagen entrou no noticiário neste mês após a revelação de que o senador e candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL-RJ) emitiu e depois cancelou notas fiscais para a firma.
Procurado pela reportagem, Figueiredo diz que seus atos na administração foram lícitos. Afirma também que repudia a associação de sua imagem a organizações criminosas e que jamais participou de grupos dessa natureza.
Veículo: Online -> Site -> Site Folha de S. Paulo
Seção: São Caetano