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Portal Folha de S. Paulo

Publicado em 21/07/2026 - 21:40 / Clipado em 21/07/2026 - 21:40

Quadrilha do RJ, com apoio do TCP, roubava remédios e revendia para hospitais e rede pública



    Isca eletrônica escondida em carga roubada levou polícia até comerciante no aeroporto de Brasília
    Quadrilha contava com apoio armado do Terceiro Comando Puro para executar os crimes

  

Bruna Fantti
Rio de Janeiro

Uma isca eletrônica escondida entre os medicamentos roubados no Rio de Janeiro indicou à polícia, dias após o crime, que a carga de R$ 575.675 estava no Aeroporto Internacional de Brasília. Imagens apontaram o comerciante Umberto Xavier de Lima, 70, como responsável por enviar a mercadoria ao Distrito Federal —carga destinada à Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro e roubada em 2 de abril de 2026 por homens armados.

Entre os itens levados estavam caixas de Rinvoq, remédio indicado a pacientes adultos com artrite psoriásica ativa e grave quando outras drogas antirreumáticas deixam de fazer efeito. O medicamento é de alto custo, cerca de R$ 8.000 a caixa com 30 comprimidos.

O episódio, que parecia um caso pontual de receptação, acabou revelando parte de um esquema muito maior, segundo a polícia. Xavier de Lima foi preso nesta terça-feira (21), um dos cinco alvos detidos na Operação Metástase, deflagrada pela Polícia Civil do Rio contra uma organização interestadual especializada em roubar medicamentos oncológicos e imunossupressores.

Segundo a investigação, as cargas eram roubadas por criminosos com armas de uso restrito e levadas para áreas do Complexo da Maré, na zona norte do Rio, onde os medicamentos eram separados e redistribuídos, segundo a polícia.

Um segundo núcleo era responsável por armazenar, dividir e destinar os medicamentos roubados. Para disfarçar a origem dos produtos e enviá-los aos receptadores em diversos estados, os suspeitos usavam empresas de fachada, transportadoras, entregadores e "laranjas".

Conforme a investigação, os remédios eram revendidos tanto a hospitais privados quanto, em parte dos casos, à própria rede pública de saúde. O esquema contava com o apoio armado do TCP (Terceiro Comando Puro) e movimentou R$ 33 milhões em 2025 e 2026, com cerca de 40 roubos no período.

"Os criminosos roubam medicamentos que, muitas vezes, têm como destino o abastecimento da rede pública de saúde. E roubam de forma extremamente violenta, com fuzis e batedores", descreveu o delegado André Prates. Para ele, "não é só um crime contra o patrimônio ou contra a paz pública. Afeta diretamente pacientes que dependem desses medicamentos para o seu tratamento."

De acordo com a polícia, Xavier de Lima chegou a prometer, por telefone, que se apresentaria na delegacia, mas não compareceu. Seu advogado, Edmilson Silva Pereira, pediu habeas corpus preventivo em favor do cliente, negado em 6 de julho pela Justiça. Procurado nesta terça, o defensor afirmou que enviaria posicionamento, o que não ocorreu.

Outro preso foi identificado como Carlos Roberto Fernandes, detido em São Paulo, alvo de busca em sua casa, onde a polícia encontrou armas sem registro. Já Fernanda Rodrigues França, apontada como integrante do núcleo de receptadores, tinha mandado de prisão em aberto; o companheiro dela, Guilherme Silva Lopes de Sena, era alvo apenas de busca, mas acabou preso em flagrante por manter medicamentos de uso controlado sem autorização legal.

Já Stefano Montovani Fernandes é apontado pela polícia como o chefe do esquema, responsável por encomendar os roubos de carga. A reportagem tenta contato com os advogados dos suspeitos.

Segundo a polícia, parte do grupo também se dedicava a cooptar funcionários de transportadoras, de quem obtinha, de forma irregular, informações internas sobre rotas e cargas.

Para cumprir a ordem, agentes saíram às ruas com cinco mandados de prisão preventiva e 97 de busca e apreensão, expedidos pela 1ª Vara Especializada em Organização Criminosa do TJRJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro), em quatro estados: além do Rio —onde as equipes foram ao Complexo da Maré, palco de tiroteio e barricadas em chamas, e a endereços da Baixada Fluminense—, houve diligências em São Paulo (capital, Santo André e São Caetano do Sul), Goiás (Goiânia) e Pará (Belém).

A Justiça também determinou o bloqueio de R$ 30 milhões em contas bancárias e o sequestro de imóveis, veículos de luxo e outros bens usados pelo grupo para ocultar patrimônio. Em Santo André, na casa de um dos presos, agentes apreenderam um Jaguar carregado de medicamentos contra o câncer.

Ao todo, 25 empresas de fachada —distribuídas por Rio, São Paulo, Goiás e Pará — serviam para disfarçar a origem dos produtos antes de chegarem aos receptadores finais, usando transportadoras, entregadores e laranjas.

O cerco policial ao Complexo da Maré teve reflexos na comunidade. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, duas unidades de atenção primária suspenderam o funcionamento e avaliavam se reabririam ainda no dia, enquanto outras duas mantiveram o atendimento, mas cancelaram visitas domiciliares.

 

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/07/quadrilha-do-rj-com-apoio-do-tcp-roubava-remedios-e-revendia-para-hospitais-e-rede-publica.shtml

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Seção: Cotidiano