Publicado em 25/05/2026 - 08:05 / Clipado em 25/05/2026 - 08:05
Rede pública do ABC registra 53% de partos normais; na privada, 90% são cesarianas
Jessica Fernandes
Levantamento obtido pelo RD mostra que enquanto a rede pública de saúde do ABC registrou maioria de partos normais em 2025, parte da rede privada apresenta cenário oposto, com predominância absoluta de cesarianas. Nos hospitais públicos de São Bernardo, Diadema, Ribeirão Pires e Santo André, 53,36% dos nascimentos ocorreram por parto normal neste ano, como recomenda a Medicina. Já em hospitais privados, o percentual de partos normais ficou, em média, abaixo de 10%.
Na rede pública, foram 8.412 partos realizados em 2025, sendo do 4.489 normais, o equivalente a 53,36%, enquanto 3.923 ocorreram por cesariana, o que representa 46,64%.
Já em 2024, os hospitais públicos das quatro cidades citadas registraram 9.328 partos. Do total, 5.238 foram normais, ou 56,15%, contra 4.090 cesarianas, que corresponderam a 43,85%.
Em Diadema, 756 partos ocorreram em 2025, com 357 normais e 399 cesarianas. No ano anterior, o município registrou 702 nascimentos, com 335 partos normais e 367 cesarianas.
São Bernardo concentrou o maior volume de nascimentos entre as quatro cidades. Em 2025, foram realizados 4.081 partos, dos quais 2.155 ocorreram por via vaginal e 1.926 por cesariana. Em 2024, o município contabilizou 5.038 partos, com 2.918 normais e 2.120 cesarianas.
Ribeirão Pires apresentou um dos maiores percentuais proporcionais de parto normal na rede pública. Em 2024, a cidade registrou 581 partos, com 324 normais e 257 cesarianas. Já em 2025, foram 476 nascimentos, dos quais 288 ocorreram por parto normal e 188 por cesarianas.
Em Santo André, 3.007 partos foram realizados em 2024, com 1.661 normais e 1.346 cesarianas. Em 2025, o município registrou 3.099 nascimentos, com 1.689 partos normais e 1.410 cesarianas.
Hospitais particulares têm quase 90% dos partos realizados por cesárea
O cenário muda drasticamente na rede privada. Na Santa Casa de Mauá, os índices de cesárea ultrapassaram 90% nos dois últimos anos. Em 2024, o hospital contabilizou 632 partos, com 576 cesarianas, o equivalente a 91,14%. Os partos normais somaram apenas 56 casos, ou 8,86%. Já em 2025, a unidade registrou 486 nascimentos. Desses, 438 ocorreram por cesariana, o que corresponde a 90,12%, enquanto apenas 48 foram partos normais, o equivalente a 9,88%.
No Hospital NotreCare ABC, da Hapvida, foram realizados 4.025 partos em 2025. Apenas 969 ocorreram por via vaginal, o equivalente a 24,07%. Já as cesarianas chegaram a 3.056 procedimentos, representando 75,93% do total. A rede tem ampliado iniciativas voltadas à orientação de gestantes e ao acompanhamento da jornada da maternidade, com foco na segurança de mães e bebês. Atualmente, 32% dos nascimentos realizados na rede acontecem por parto normal, índice superior à média da saúde suplementar privada no país, estimada em cerca de 22%.
Orientação especializada impacta escolha do tipo de parto
A enfermeira obstetra Penélope Lara, coordenadora da Linha Materna no Hospital NotreCare ABC, afirma que o parto normal, do ponto de vista fisiológico, pode trazer benefícios para a mãe e para o bebê, mas reforça que cada caso deve ser avaliado individualmente. Segundo a especialista, um dos fatores que mais influenciam a decisão é o medo da dor. “Inicialmente, são utilizados métodos não farmacológicos, como banho morno, bola terapêutica e estímulo à movimentação”, explica. Caso necessário, a equipe pode recorrer a métodos farmacológicos ou à analgesia de parto, conforme indicação clínica.
“Indicadores internacionais de saúde materno-infantil consideram taxas adequadas de parto normal como um dos parâmetros associados à qualidade assistencial. Após o nascimento, a recuperação costuma ser mais rápida e menos complexa do que em um procedimento cirúrgico”, pontua Penélope.
A auxiliar de atendimento hospitalar Rebeca de Lira Nicolussi, de 23 anos, deu à luz sua filha Liz no Hospital NotreCare, em São Bernardo, após acompanhamento durante a gestação. No início, acreditava que não conseguiria passar por um parto normal e chegou a considerar a cesárea como única alternativa, influenciada por outras pessoas. “Diziam que eu não aguentaria, que era para eu marcar logo a cesárea. Mas eu descobri que eu tenho uma força maior do que eu imaginava”, afirma.
A gestante participou de um tour pela unidade e afirma que a clareza nas orientações recebidas foi determinante para sua decisão. “Eu ainda tinha um pouco de medo, mas a equipe foi honesta em relação a como tudo funcionava. Me senti segura e mudei meu pensamento”, compartilha.
De acordo com especialistas, a presença de acompanhante e de uma equipe multidisciplinar ajuda a reduzir o estresse, melhora a sensação de segurança e pode contribuir para menores taxas de cesariana e intervenções.
Excesso de cesarianas traz riscos à mãe e ao bebê
Eduardo Fama, ginecologista, obstetra e professor do Centro Universitário FMABC, explica que a escolha entre o parto normal e a cesariana envolve diversos fatores clínicos, emocionais e estruturais. “Do ponto de vista médico, o que mais pesa são as condições maternas e fetais, além da evolução do trabalho de parto. Situações como sofrimento fetal, doenças maternas ou alterações na dinâmica do parto podem indicar a necessidade de cesariana. Ao mesmo tempo, a preferência da gestante, suas experiências anteriores e seus medos também influenciam essa decisão”, afirma.
Sobre o parto humanizado, o especialista destaca a importância de uma assistência que respeite a fisiologia e o protagonismo da mulher. “Esse modelo valoriza o tempo do corpo, evita intervenções desnecessárias e garante à gestante maior autonomia durante o processo, com liberdade de posição, presença de acompanhante e participação ativa nas decisões. Os principais benefícios incluem uma experiência mais positiva, menor taxa de intervenções e redução do risco de traumas emocionais relacionados ao parto”, pontua.
Fama também ressalta que o parto normal costuma proporcionar recuperação mais rápida para a mulher, além de reduzir riscos de infecção, complicações cirúrgicas e impactos em futuras gestações. Segundo o médico, o procedimento também favorece o vínculo entre mãe e bebê e auxilia no processo de amamentação.
“No entanto, como qualquer processo biológico, não é isento de riscos. Podem ocorrer lacerações perineais, dor durante o trabalho de parto e, mais raramente, complicações como hemorragia. Para o bebê, o principal risco é o sofrimento fetal durante o trabalho de parto e traumas físicos, especialmente se não houver monitorização adequada”, explica.
Salvar vidas
Já sobre as cesarianas, o obstetra reforça que o procedimento é importante e pode salvar vidas quando há indicação clínica adequada. Segundo Fama, a cirurgia é necessária em situações como sofrimento fetal agudo, desproporção céfalo-pélvica, placenta prévia, descolamento prematuro de placenta ou falha na progressão do trabalho de parto. “Nesses casos, a cirurgia reduz significativamente os riscos para mãe e bebê e se torna uma intervenção rápida e eficaz em cenários de emergência”, destaca.
O ginecologista alerta ainda que o excesso de cesarianas sem necessidade clínica pode trazer riscos importantes para mãe e bebê. A mulher fica mais suscetível a infecções, trombose, hemorragias e complicações em futuras gestações, como placenta acreta. Já para o recém-nascido, aumenta o risco de prematuridade iatrogênica, principalmente quando a idade gestacional não é estabelecida corretamente. “Esses riscos tendem a se acumular com o aumento do número de cesáreas ao longo da vida reprodutiva”, afirma.
A informação e acolhimento ajudam a reduzir o medo da dor durante a gestação. O obstetra explica que a insegurança é comum nesse período e destaca a importância de um pré-natal bem conduzido, com orientações claras sobre o processo do parto. “O uso de estratégias com analgesia, quando indicada, e suporte psicológico contribui para que a gestante se sinta mais segura e confiante”, ressalta.
Veículo: Online -> Site -> Site Repórter Diário
Seção: Cidades