Publicado em 25/04/2026 - 08:01 / Clipado em 25/04/2026 - 08:01
Médicos do ABC enfrentam falta de suporte à saúde mental na rede pública
Amanda Lemos
Aos 46 anos, um médico clínico geral que atuava na rede pública de Diadema decidiu se desligar do trabalho após a pandemia da covid-19, depois de desenvolver um quadro de esgotamento emocional. Sem querer se identificar, o profissional conta que, diante do agravamento da saúde, se mudou para o interior em busca de qualidade de vida. “A gente lida com vida o tempo todo, mas não tem espaço para cuidar da própria saúde. Chega uma hora em que o corpo e a mente não aguentam”, afirma.
Rotinas exaustivas, cobrança por metas, decisões rápidas e exposição constante ao sofrimento fazem parte do dia a dia de médicos que atuam em hospitais públicos. Mesmo assim, o acesso ao acompanhamento psicológico segue desigual entre os municípios e, em muitos casos, insuficiente, um cenário preocupante principalmente para quem atua na linha de frente dos equipamentos de saúde.
O médico ouvido pelo RD relata que, durante a pandemia, a prioridade absoluta era o atendimento aos pacientes, enquanto a saúde dos próprios profissionais ficou em segundo plano. “Entendemos que o paciente é o foco, mas como ficam os médicos que trabalhavam em jornadas duplas, até triplas, para dar conta da demanda? Muitos chegaram a morar em outra casa para evitar contaminar a família, ficaram isolados. E teve gente que não aguentou a pressão”, afirma.
Ansiedade, depressão e burnout afastam médicos do atendimento
Levantamento da Prefeitura de Diadema mostra que, somente entre janeiro de 2025 e abril de 2026, ao menos 18 médicos precisaram se afastar por questões relacionadas à saúde mental, sendo cinco por períodos prolongados e 13 por afastamentos mais curtos. Os diagnósticos estão majoritariamente ligados a transtornos mentais e comportamentais, como ansiedade, depressão e burnout.
Na cidade, parte dos profissionais tem acesso a suporte emocional por meio de plataformas digitais oferecidas por Organizações Sociais (OSs) e atendimento presencial via Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT), que realiza acolhimento psicossocial e acompanhamento dos casos. Ainda assim, não há ações preventivas estruturadas, como rodas de conversa ou programas contínuos de qualidade de vida.
Em Ribeirão Pires, a prefeitura afirma estar estruturando um programa específico voltado à saúde mental dos profissionais, mas ainda em fase de implementação. O monitoramento do desgaste emocional ocorre de forma indireta, por indicadores como absenteísmo e carga horária. Já em Rio Grande da Serra, não há registro de procura por atendimento psicológico por parte de médicos na rede municipal, nem dados consolidados sobre adoecimento ou afastamentos da categoria.
As prefeituras de Mauá, Santo André, São Bernardo e São Caetano foram contatadas, mas não se manifestaram até o fechamento da reportagem.
Falta de cuidado preocupa
Para o presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo, Augusto Ribeiro Silva, as queixas recebidas pela entidade apontam para um cenário preocupante. “É muito comum recebermos denúncias de sobrecarga, condições precárias e assédio moral. Esses relatos quase sempre vêm acompanhados de sinais de adoecimento mental”, afirma.
Segundo ele, metas excessivas, pouco tempo de descanso e pressão por produtividade estão entre os principais fatores. “Muitos profissionais trabalham sob ameaça de demissão ou sob cobrança desrespeitosa. Isso é extremamente adoecedor”, completa.
O sindicato aponta que a sobrecarga é um dos principais gatilhos, mas não o único. A falta de autonomia e a ausência de condições adequadas de trabalho também pesam. “Há casos em que o médico não consegue oferecer o atendimento que considera adequado, seja por falta de tempo ou de recursos. Isso gera frustração e impacto direto na saúde mental”, explica.
Outro problema é a falta de suporte institucional. “Não existe, de forma estruturada, atendimento psicológico dentro das unidades. Diferente de grandes empresas, o médico não tem esse respaldo no ambiente de trabalho”, diz.
Realidade mais crítica entre residentes
A situação é ainda mais grave entre médicos residentes, que chegam a cumprir jornadas de até 80 ou 120 horas semanais, apesar do limite legal de 60 horas. Na atenção básica, o subdimensionamento de equipes faz com que profissionais atendam até o dobro de pacientes previsto, ampliando o desgaste.
O cenário contribui para a alta rotatividade na rede pública. Estudos citados pelo sindicato indicam que, em regiões periféricas, médicos permanecem, em média, menos de um ano nas unidades. A dificuldade de fixação está diretamente ligada às condições de trabalho e ao impacto na saúde dos profissionais.
Apesar do avanço das discussões no pós-pandemia, especialistas apontam que ainda falta uma política estruturada de cuidado com quem cuida. “Hoje, o foco das gestões está no cumprimento de metas. A saúde mental dos médicos não é prioridade”, critica.
Entre as medidas apontadas estão a ampliação de vínculos formais, melhoria das condições de trabalho, equipes completas e metas mais realistas. “Sem isso, o sistema continuará adoecendo seus próprios profissionais”, conclui.
O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) foi procurado, mas não se manifestou até o fechamento da reportagem.
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Seção: Cidades