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Publicado em 12/04/2026 - 08:05 / Clipado em 12/04/2026 - 08:05

ABC avança na reciclagem, mas ainda reaproveita menos de 5% dos resíduos


Amanda Lemos 

 

Mesmo com o avanço da coleta seletiva em todas as cidades da região, o ABC ainda desperdiça a maior parte dos resíduos que produz. Estimativa da bióloga Marta Marcondes, professora da USCS e coordenadora do projeto IPH/USCS (Índice de Poluentes Hídricos da Universidade Municipal de São Caetano do Sul), aponta que a região pode reciclar apenas cerca de 5% do lixo gerado, o que revela a falta de políticas públicas, falhas estruturais e de engajamento coletivo.

Apesar da ampliação de programas de coleta seletiva nos municípios, os dados mais recentes das prefeituras mostram um cenário de avanços pontuais, mas ainda insuficientes para mudar o destino da maior parte dos resíduos recolhidos. Na prática, o grande volume de materiais recicláveis ainda é descartado em aterros sanitários e sem o tratamento devido.

Levantamento realizado pelo RD mostra que, apesar da reciclagem ter crescido nos últimos anos, o cenário segue distante do ideal. Mesmo nas cidades com estrutura mais consolidada, o reaproveitamento ainda esbarra em entraves, como a separação incorreta do lixo e a baixa participação da população.

Em Santo André, por exemplo, embora o município tenha um dos sistemas mais estruturados da região, os limites da reciclagem também são claros. A cidade realiza coleta seletiva porta a porta em todos os bairros há quase 30 anos e registrou 13,1 mil toneladas recicladas em 2024, número que subiu para 13,3 mil em 2025 e já são 2,3 mil toneladas em 2026. Ainda assim, cerca de 40% dos materiais recolhidos não são reaproveitados, o que reforça um dos principais gargalos do sistema: a separação inadequada dos resíduos pela população.

Desistência

A analista de sistemas Kátia Fonseca, moradora da Vila Bastos, conta que chegou a adotar a separação do lixo em casa entre os anos de 2016 e 2018, mas desistiu após perceber falhas no processo. “Eu fazia tudo certinho, separava, lavava as embalagens. Mas comecei a ver que, na coleta, misturavam tudo de novo. Aí desanima, parece que não faz diferença”, relata. Ainda segundo a moradora, a falta de adesão dos vizinhos também contribuiu para desistência da prática. “Até tentei fazer mais pessoas participarem, mas alguns diziam não saber como funcionava e outros, por preguiça, não se envolviam”, afirma.

Esse problema, segundo especialistas, se repete em toda a região. Para a bióloga Marta Marcondes, professora da USCS e coordenadora do projeto IPH, o avanço da reciclagem esbarra na falta de integração entre poder público, empresas e sociedade. “A gente avançou sim na questão da reciclagem, mas ainda temos muitos desafios. A Política Nacional de Resíduos Sólidos fala em responsabilidade compartilhada, e isso ainda não acontece na prática. Cada setor precisa cumprir o seu papel”, afirma.

Queda em São Caetano

Enquanto alguns municípios apresentam estabilidade, outros registram queda nos índices. Em São Caetano, o volume reciclado caiu de 2,1 mil toneladas em 2024 para 1,4 mil em 2025. Em 2026, até fevereiro, foram cerca de 295 toneladas. Apesar da redução, a cidade ampliou recentemente a capacidade de triagem, o que pode refletir em melhora nos próximos meses.

Morador do bairro Fundação, em São Caetano, o motorista de aplicativo João Carlos Pereira Moraes diz que mantém a separação do lixo em casa, junto com a esposa, mas não percebe incentivo por parte do poder público para ampliar a prática na cidade. “Eu e minha esposa fazemos nossa parte. Desde que viemos da Capital, em 2012, já tínhamos esse costume de separar tudo para reciclar. Mas aqui não vejo campanha, orientação… parece que a cidade não se movimenta muito pra incentivar isso”, afirma.

Em Diadema o cenário também é de retração. O município reciclou 538 toneladas em 2024 e 452 em 2025. No primeiro trimestre de 2026, foram 128 toneladas – volume que deixou de ser encaminhado aos aterros sanitários. A cidade conta com três cooperativas, mas ainda enfrenta dificuldades para ampliar a adesão à coleta seletiva.

Já em Rio Grande da Serra, a coleta seletiva ainda é incipiente. Sem registros em 2024, o município reciclou 39,4 toneladas em 2025 e estima atingir cerca de 11 toneladas no primeiro trimestre de 2026. O volume representa apenas 0,6% dos resíduos que deixaram de ser destinados a aterros, com taxa de reciclagem projetada em 1,5% neste ano.

Faltam estrutura e comunicação

Para Marta, os dados mostram que, apesar dos avanços, a região ainda está distante de um modelo eficiente de gestão de resíduos. “Hoje, no Brasil, reciclamos no máximo 10% dos resíduos. No ABC, esse índice pode chegar a apenas 5%, ou seja, ainda se perde muito material que poderia ser reaproveitado”, diz.

Entre os principais entraves, na visão da especialista, estão a falta de investimento em centrais de triagem, o fortalecimento ainda insuficiente das cooperativas de catadores e a baixa efetividade da logística reversa, que responsabiliza empresas pelo destino final dos produtos. “Faltam estruturas adequadas, mas também falta comunicação. Muitas vezes, a população não sabe como separar corretamente ou não tem acesso fácil à coleta seletiva. Isso compromete todo o processo”, explica.

Apesar dos desafios, a reciclagem também se consolida como uma importante fonte de renda. Em Santo André, por exemplo, as cooperativas recebem, em média, R$ 120 mil por mês com a comercialização dos materiais, e os cooperados conseguem retirar cerca de um salário mínimo.

Em outras cidades da região, no entanto, a dinâmica da coleta envolve também iniciativas informais. Em Ribeirão Pires, moradores da região central relatam que, além do serviço oferecido pela Prefeitura, catadores independentes costumam recolher materiais recicláveis antes mesmo da passagem do caminhão oficial.

Participação da população

“Não é raro a gente separar o lixo para o caminhão do ‘Gente Boa’, como conhecemos, mas outros catadores passam antes e levam para revender. Mesmo sendo um trabalho para ganho próprio, há quem se preocupe com a coleta”, afirma uma moradora que prefere não se identificar. Segundo ela, iniciativas que incentivam a participação da população podem ampliar o alcance da reciclagem. “Programas que trocam recicláveis por ração ou alimentos ajudam a engajar mais pessoas. É uma medida que deu certo em Santo André e que começou a funcionar em outras cidades também”, diz.

Na avaliação de Marta, para além de ações pontuais, ampliar esse potencial depende de investimento contínuo e mudança de comportamento. “É preciso educação ambiental permanente, além de estimular as cooperativas e investir em pesquisa para reaproveitamento de materiais. A reciclagem não é só uma questão ambiental, mas também social e econômica”, afirma. Sem avanços mais estruturais e maior engajamento coletivo, a bióloga diz que a tendência é que a maior parte dos resíduos continue tendo como destino final os aterros, mesmo quando poderiam ser reaproveitados.

Questionada sobre o assunto, as prefeituras de Mauá e São Bernardo não se manifestaram até o fechamento da reportagem.

 

https://www.reporterdiario.com.br/noticia/3809098/abc-avanca-na-reciclagem-mas-ainda-reaproveita-menos-de-5-dos-residuos/

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Seção: Cidades