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Publicado em 11/04/2026 - 08:18 / Clipado em 11/04/2026 - 08:18

Sucateamento do Tarifa Zero agrava crise no transporte público de São Caetano


Fernanda Bertoncini 

Segundo a administração municipal, quando a política pública foi implantada, a expectativa era um aumento de 50% na demanda de passageiros (Foto: Eric Romero/PMSCS)

 

O programa Tarifa Zero, iniciado em novembro de 2023 em São Caetano, que permite aos usuários do transporte público no município se deslocarem de forma gratuita, vai deixar de ser universal e, em breve, será restrito aos moradores da cidade.

A decisão da gestão do prefeito Tite Campanella se baseia no mau serviço prestado à população, que se queixa constantemente da superlotação dos veículos, do prolongado tempo de espera pelos ônibus nos pontos, além da má conservação.

Segundo a administração municipal, quando a política pública foi implantada, a expectativa era de um aumento de 50% na demanda de passageiros nos ônibus que circulam pela cidade. Hoje, esse acréscimo é de 300%: saltou de 20 mil para 80 mil passageiros transportados diariamente.

Ainda segundo a Prefeitura, o mau dimensionamento do programa em sua fase de implementação resultou na queda da qualidade do serviço, com ônibus lotados e reclamações dos usuários – razões que, de acordo com a Secretaria de Mobilidade Urbana, embasam a decisão.

Contudo, a justificativa para o fim da universalidade do programa é alvo de questionamentos por parte dos passageiros que utilizam as linhas da cidade para se deslocar.

Mudanças nos itinerários e frota não confortável

Para Camilo Sousa, 28 anos, o transporte público piorou desde que houve mudanças nos itinerários dos ônibus, estratégia adotada pela administração municipal para reduzir os custos do programa. “Essas alterações foram feitas de maneira desorganizada. Da noite para o dia, mudaram o trajeto dos ônibus e não comunicaram a população. A gente teve, e ainda tem até hoje, que se virar para utilizar o transporte público da cidade”, afirma.

Segundo o auxiliar educacional, o que afeta o Tarifa Zero é a falta de investimentos para evitar as superlotações e oferecer ao usuário ônibus mais modernos e confortáveis.

“Eu pego ônibus sempre por volta das 18h20, no terminal, e as filas estão sempre gigantescas. São pessoas que estão voltando para suas casas após o expediente de trabalho, no horário de pico. Portanto, são moradores da cidade, e não passageiros de fora, como diz a Prefeitura. Acabar com a universalização do Tarifa Zero não me parece ser a solução para os problemas com o transporte na nossa cidade”, acredita Sousa.

Segundo levantamento realizado pela VIPE, empresa que faz a gestão do transporte público em São Caetano, divulgado em outubro de 2024, mais de 90% dos passageiros que utilizam os ônibus da cidade moram em São Caetano ou têm relação com o município.

Ainda de acordo com o estudo, mais de 60% do total corresponde a moradores que utilizam o Tarifa Zero, seja para se deslocar dentro do município ou para iniciar seu trajeto em São Caetano com destino a São Paulo. Portanto, o número de pessoas que não são originárias da cidade e que se beneficiam do programa é muito pequeno.

Prejudicial às micro e pequenas empresas

Para a vereadora Bruna Biondi (PSOL), acabar com o Tarifa Zero para não residentes na cidade não vai solucionar o problema de lotação dos ônibus. “Ainda que as pessoas que trabalham em São Caetano, mas não moram aqui, deixem de usar o ônibus, o empresário que contrata essas pessoas terá de voltar a pagar o vale-transporte, o que é prejudicial, sobretudo, para os pequenos e microempresários. Com acesso ao vale-transporte, os usuários continuarão a utilizar os ônibus municipais”, contextualiza.

Bruna destaca que o crescimento do programa se deve, em grande parte, aos munícipes que deixaram de se deslocar a pé ou de carro e passaram a utilizar o transporte público gratuito. “Portanto, essa narrativa serve como cortina de fumaça, em vez de lidar com o verdadeiro problema do sucateamento do Tarifa Zero hoje. Nós compreendemos que, se hoje as pessoas enfrentam grandes filas, demora para entrar nos ônibus e veículos lotados, é em razão da falta de financiamento para a política pública.”

De acordo com a Lei Orçamentária Municipal (LOA), em 2024 foram destinados ao programa R$ 35 milhões. Em 2025, o repasse somou R$ 37 milhões, reduzindo para R$ 32 milhões neste ano.

“Levantamos que, dos R$ 55 milhões arrecadados para utilização no Tarifa Zero, apenas R$ 38 milhões foram efetivamente gastos com o programa. Ou seja, há um sucateamento do serviço. Com isso, há menos veículos circulando, menos linhas e essa readequação que a gestão Tite Campanella fez, alterando o itinerário dos ônibus, com o intuito de reduzir os gastos por quilômetro rodado e pela quantidade de ônibus nas ruas”, destaca a parlamentar.

“Um verdadeiro caos”

Lucas Giordano, que utiliza o transporte público da cidade, destaca que, no início do programa, a qualidade dos ônibus e das linhas era boa. No entanto, com o passar do tempo, o serviço caiu significativamente. “Chegamos em 2025 e a gestão do prefeito Tite Campanella passou a sucatear os ônibus. Quando se tira ônibus de circulação para arrecadar mais do que se gasta com o programa, isso resulta no sucateamento do Tarifa Zero. Com menos ônibus rodando, é óbvio que teremos mais superlotação e mais espera nos pontos. Um exemplo é o ponto do Fórum, em horário de pico, ou o próprio Terminal Rodoviário. Um verdadeiro caos”, indigna-se.

Em nota, a Prefeitura de São Caetano justifica que restringir o programa apenas aos moradores da cidade é uma tentativa de qualificar significativamente o serviço prestado.

 

https://www.reporterdiario.com.br/noticia/3809125/sucateamento-do-tarifa-zero-agrava-crise-no-transporte-publico-de-sao-caetano/

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Seção: Cidades