Publicado em 05/04/2026 - 07:56 / Clipado em 05/04/2026 - 07:56
ABC registra mais de 220 denúncias de violência contra a mulher em 2026
Amanda Lemos
O Brasil já soma 17,4 mil denúncias de violência contra a mulher apenas em 2026, sendo 11.036 por agressões físicas, segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. No ABC, o cenário não é diferente: a alta nas ocorrências alerta sobre a eficácia da rede de proteção às mulheres. Para se ter ideia, juntas, as cidades acumulam ao menos 225 denúncias neste início de ano.
Dentre as cidades da região, São Bernardo lidera o ranking regional, com 76 registros, sendo 39 de violência física. Em seguida aparecem Santo André, com 58 denúncias (40 físicas), e Mauá, com 33 (17 físicas). Diadema contabiliza 23 casos (16 físicos), enquanto Ribeirão Pires registra 22 (10 físicos). Já São Caetano soma 11 denúncias, sendo três por agressão física, e Rio Grande da Serra apresenta dois registros, sem casos físicos até o momento.
O número de denúncias reforça uma percepção cada vez mais crescente na população: o aumento da violência contra a mulher, o que na visão da delegada Renata Cruppi, titular da Delegacia de Defesa da Mulher de Diadema, tem fundamento, mas que não pode ser explicada por um único fator. “Na prática, as duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo. Houve melhora na conscientização e maior procura pelos canais de denúncia, mas isso não explica tudo. Os dados também indicam aumento real da violência”, afirma a delegada.
Ainda de acordo com a especialista, levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam crescimento consistente em crimes como ameaça, perseguição, violência psicológica e lesão corporal. Em 2025, o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio – alta de 4,7% em relação ao ano anterior.
Violência física é só parte do problema
De acordo com a delegada, a violência física costuma ser apenas a face mais visível de um ciclo mais amplo de abusos. “A agressão quase sempre vem acompanhada de violência psicológica, moral ou patrimonial. É um contexto de controle, humilhação e dependência”, explica.
Dados do Ligue 180 mostram que a violência física esteve presente em 41,4% das denúncias em 2025, enquanto a psicológica apareceu em 27,9% – muitas vezes de forma simultânea.
Dentro de casa e com alguém próximo
Os dados sobre violência contra a mulher no país expõem um padrão que se repete há anos: o agressor, na maioria das vezes, não é um desconhecido e o crime acontece dentro de casa. “Em regra, o agressor não é um estranho. É companheiro, ex-companheiro ou alguém do convívio familiar”, afirma a delegada Renata Cruppi.
Levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, entre 2021 e 2024, 59,4% dos feminicídios foram cometidos por companheiros e 21,3% por ex-companheiros, ou seja, mais de 80% dos casos envolvem relações afetivas. Além disso, 66,3% das mortes ocorreram dentro da residência da vítima, evidenciando o ambiente doméstico como principal cenário da violência.
O contexto também ajuda a explicar o motivo que muitos casos demoram a ser denunciados. A proximidade com o agressor, a dependência emocional ou financeira e o medo de represálias acabam mantendo a vítima em um ciclo contínuo de violência.
Cruppi alerta que, antes de casos mais graves, como tentativa de feminicídio, há quase sempre uma escalada de comportamentos abusivos. “Ameaças constantes, ciúme excessivo, controle da rotina, perseguição, isolamento e descumprimento de medidas protetivas são sinais claros de risco”, destaca.
Segundo a delegada, o enfrentamento ainda esbarra na dificuldade de agir de forma preventiva e integrada. “O problema não é só punir depois. Falta integração real entre polícia, saúde, assistência social e Justiça, com fluxo rápido e acompanhamento contínuo da vítima”, afirma.
Apesar de avanços como delegacias especializadas e canais digitais, a delegada ressalta que a resposta ainda precisa ir além. “É fundamental investir em prevenção, autonomia econômica da mulher e também em políticas voltadas aos homens. Sem mudança cultural, os números tendem a continuar crescendo”.
Como denunciar?
Casos de violência contra a mulher podem ser denunciados de forma gratuita e, em alguns casos, anônima:
Ligue 180: atendimento 24 horas por dia, todos os dias da semana
190: para situações de emergência, quando a violência está em curso
Delegacias da Mulher (DDM): para registro de ocorrência e solicitação de medidas protetivas
Delegacia Eletrônica: disponível em alguns estados para registro online
A denúncia pode ser feita pela própria vítima ou por qualquer pessoa que tenha conhecimento da situação. Especialistas reforçam que buscar ajuda ao identificar os primeiros sinais pode evitar a escalada da violência e salvar vidas.
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Seção: Cidades