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Portal Estadão

Publicado em 20/03/2026 - 08:08 / Clipado em 20/03/2026 - 08:08

Tarcísio quer romper contrato de corredor até o ABC após seguidos atrasos na obra: o que aconteceu?


Ligação entre São Bernardo e a capital paulista deveria ter sido entregue em 2023; concessionária diz que 60% dos trabalhos foram finalizados

 

Por Dante Grecco

 

Prevista para ser entregue em 2023, a obra do corredor BRT-ABC está 60% finalizada, segundo a concessionária responsável pela construção. Diante do atraso, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) fez nova cobrança pública e ameaça de rompimento do contrato.

“Devemos tomar medidas mais firmes. Encaminhar para a decretação de caducidade. Temos um acordo que não está sendo cumprido”, declarou Tarcísio. “O BRT não está andando, está muito aquém do esperado. Estamos vendo mais uma postergação de prazo. Então, não nos resta outra alternativa.”

A promessa agora é de que o corredor que ligará o ABC à cidade de São Paulo seja entregue em outubro. A concessionária Next Mobilidade diz que “trabalha incansavelmente” (veja mais abaixo).

Em nota, a Artesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo) informou que “acompanha e fiscaliza a execução das obras do BRT-ABC desde o início de 2025”. A agência “identificou atrasos na execução das obras e dos investimentos previstos e já iniciou as providências cabíveis, que incluem notificações, aplicação de penalidades e outras medidas previstas em contrato.”

A Next Mobilidade diz que custeia 100% da obra (investimento estimado de R$ 1,2 bilhão) e “tem total interesse em sua finalização”. Entre os principais motivos alegados pela concessionária para os atrasos estão:

  • A obra só pôde ser iniciada, de fato, após a licença da Cetesb, que ocorreu em 31/01/2024. Assim, são pouco mais de dois anos de obra efetivamente. A diferença de prazo se dá porque, em 28/10/2022, a Cetesb concedeu a primeira licença para um trecho inicial, do Shopping Metrópole à Avenida Aldino Pinotti;
  • A licença para a fase 2, que permitia o avanço da obra para os demais trechos, ocorreu em 31/01/2024;
  • A obra é grande e complexa e passa por áreas altamente adensadas, com tráfego intenso, tubulações subterrâneas, redes de água, esgoto e drenagem e fiações aéreas de energia. Situações que exigem de antemão a execução de serviços por parte dessas empresas (como Sabesp, SP Águas, Enel, Petrobras, entre outras) para que a obra possa progredir dentro dos prazos. O mesmo se aplica às licenças ambientais, que têm prazo para tramitar;
  • Exemplo foi o que ocorreu com a Enel e causou uma correção no cronograma. Na Praça dos Andarilhos, no bairro de Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo, próximo à divisa com São Caetano, a remoção de rede necessária para a construção do Viaduto Mauá levou cerca de 510 dias. O serviço só foi concluído em 9 de março. A obra ficou parada desde outubro de 2025;
  • Outros exemplos. Atraso na remoção de redes aéreas que afetou as obras da Rua Abrahão Braga, na Vila Liviero, em São Paulo, onde o serviço da Enel levou 503 dias para ser realizado. Na Rua do Grito, no Ipiranga, o atraso foi 499 dias.

Segundo a Enel, “a empresa vem se reunindo semanalmente com a área técnica do BRT-ABC e realizando as entregas conforme prioridades definidas pelo cliente”.

 

Como é o projeto

O BRT é uma sigla em inglês para Bus Rapid Transit, ou seja, sistema de transporte com ônibus rápidos. Nele, os veículos trafegam por uma via exclusiva.

O BRT-ABC é um corredor de ônibus elétrico de 17,3 km de extensão com 16 paradas e três terminais, que liga São Bernardo ao Sacomã, em São Paulo, com conexões com a Linha 2-Verde e 10-Turquesa. O BRT-ABC corre pela margem esquerda do Córrego Ribeirão dos Meninos e atende também Santo André e São Caetano do Sul. A estimativa é transportar 173 mil passageiros por dia.


Segundo a Next Mobilidade, esta é a situação das obras:

Corredor:

  • Dos 17,3 km de extensão, 7 km estão concretados até a estação Vila Império;
  • Nos demais trechos, as obras de arte compõem a maioria do trajeto. O último trecho tem 800 metros concretados.
  • A obra conta com cerca de 1.000 trabalhadores em dois turnos e nos finais de semana.

 

Paradas:

Nove delas estão com obras mais adiantadas

  • Metrópole, Aldino Pinotti e Senador Vergueiro estão semiprontas;
  • Winston Churchill falta acabamento interno;
  • Fundações do ABC, Afonsina, Rudge Ramos, Instituto Mauá e Vila Império estão com estrutura pronta e uma já com vidros (Vila Império).

 

Como serão os ônibus e o tempo de viagem

De acordo com a Next Mobilidade, a frota do BRT-ABC deverá contar com 92 ônibus: 20 totalmente elétricos e 72 do modelo E-Trol, que combinam operação por bateria e alimentação por rede aérea. No trajeto de São Bernardo do Campo a São Paulo, os veículos devem operar conectados à rede elétrica. No retorno utilizarão energia armazenada nas baterias.

Os ônibus têm 21,5 metros de comprimento, capacidade para 170 passageiros, tecnologia da Eletra, carroceria Caio e chassi Mercedes-Benz.

Três deles, diz a empresa, começaram a circular no corredor no sábado, 14 de março, para os primeiros testes operacionais e treinamento de motoristas.

A cobrança da passagem será feita nas paradas e nos terminais, o que torna o embarque mais rápido e reduz o tempo das viagens.

 

Haverá três tipos de trajeto:

Expresso: 40 minutos de viagem do centro de São Bernardo ao terminal Sacomã;

Semiexpresso: 43 minutos. Paradas apenas nas estações Winston Churchill, Afonsina, Instituto Mauá, Cerâmica, Goiás e nos terminais São Bernardo do Campo; Tamanduateí e Sacomã;

Parador: 52 minutos, com paradas em todas as estações

 

O que dizem os especialistas

Rafael Castelo, professor de engenharia civil do Centro Universitário FEI, lembra que o sistema é uma importante solução para a região do ABC, mas corre o risco de ser funcional no curto e médio prazo. “O BRT é muito bem-vindo, mas estudos urbanos recentes apontam que substituição de projetos ferroviários por BRT pode representar a perda de capacidade futura, menor indução de desenvolvimento urbano e de qualidade sistêmica. O BRT pode ser uma solução válida do ponto de vista operacional e de custo. Mas, em eixos metropolitanos estruturais como o ABC, deve-se avaliar com cautela a substituição de sistemas de maior capacidade, sob pena de comprometer a eficiência de longo prazo da rede e o potencial de transformação urbana.”

Já Flamínio Fichmann, arquiteto e assessor do Instituto de Engenharia que participou da concepção do projeto do BRT-ABC como consultor, defende que o corredor de ônibus elétrico foi a melhor solução que poderia ser dada, após o fim do projeto do monotrilho da Linha 18-Bronze, cancelado em julho de 2019.

“No Brasil, o transporte coletivo vem perdendo espaço para o transporte individual, especialmente com o aumento da frota de motocicletas. São mais congestionamentos, mais acidentes e uma desestruturação do sistema do transporte público. É necessária uma correção de rota com investimentos no sistema de média e alta capacidade para melhorar a qualidade e gerar uma atratividade pelo desempenho. O BRT-ABC proporcionará uma melhoria do transporte e terá um papel no desenvolvimento na região pela confiabilidade, qualidade e rapidez.”

 

https://www.estadao.com.br/sao-paulo/tarcisio-quer-romper-contrato-de-corredor-ate-o-abc-apos-seguidos-atrasos-na-obra-o-que-aconteceu/

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Seção: São Caetano