Publicado em 15/03/2026 - 08:02 / Clipado em 15/03/2026 - 08:02
ABC ainda enfrenta alagamentos enquanto Estado investe R$ 25 bilhões em drenagem
Amanda Lemos
As chuvas de verão que atingiram o ABC neste mês voltaram a expor um problema antigo, a falta de estrutura capaz de reduzir os impactos dos temporais. Mesmo com ações voltadas à resiliência hídrica, diversas casas, carros e estabelecimentos comerciais ficaram quase submersos em diferentes cidades. Em um dos episódios mais graves, uma pessoa morreu em decorrência das enchentes.
Diante da recorrência dos alagamentos, o governo do Estado de São Paulo mantém um plano de investimento de R$ 25 bilhões em obras de drenagem. Entre as medidas previstas estão a construção e manutenção de piscinões, barragens e intervenções de saneamento, obras de macrodrenagem, limpeza e desassoreamento de rios e córregos, todas alternativas para conter os efeitos das chuvas mais intensas.
Apesar das obras de grande porte, especialistas ambientais que atuam na região apontam que o modelo adotado no ABC ainda é fortemente dependente de reservatórios, o que não é uma medida eficaz para resolver a questão. Reportagem publicada anteriormente pelo RD mostra que a maior parte dos investimentos públicos segue concentrada em piscinões e estruturas tradicionais de contenção de água, enquanto soluções urbanas mais sustentáveis – capazes de combinar drenagem, qualidade ambiental e uso público dos espaços – ainda são pouco adotadas pelas cidades da região.
Para o arquiteto e urbanista Enio Moro, professor da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), os piscinões cumprem papel importante no controle das cheias, mas não podem ser a única estratégia no planejamento urbano. Segundo o urbanista, o enfrentamento das enchentes exige um conjunto de medidas capazes de ampliar a infiltração da água da chuva no solo e reduzir o escoamento superficial.
Entre as alternativas apontadas por Moro estão os jardins de chuva, áreas verdes projetadas para absorver e reter parte da água durante os temporais, além dos parques esponja, que são espaços públicos em áreas de retenção temporária de água em períodos de chuva intensa. Esse tipo de solução, já adotado em algumas cidades, a exemplo de Santo André, ajuda a reduzir o volume que chega às galerias pluviais e ainda cria áreas de convivência urbana.
Na avaliação de Moro, ampliar o uso dessas estratégias pode tornar as cidades mais resilientes às mudanças climáticas, que têm intensificado a frequência e a intensidade das chuvas nos últimos anos.
Piscinões armazenam 4,8 milhões de m³ de água
Na região, a SP Águas é responsável pelo monitoramento e manutenção de 27 piscinões, que juntos têm capacidade para armazenar cerca de 4,8 milhões de metros cúbicos de água – volume equivalente a quase duas mil piscinas olímpicas.
Um dos principais exemplos dessa estratégia é o Piscinão Jaboticabal, localizado na divisa entre São Bernardo e a Capital. Durante os temporais mais recentes, o reservatório chegou a reter cerca de 900 mil metros cúbicos de água e evitou que o volume avançasse para áreas urbanas mais críticas.
Apesar de contribuir para reduzir o risco de enchentes, a estrutura não resolveu completamente os problemas enfrentados pelos moradores da região. Nas últimas chuvas, bairros de São Bernardo, como Pauliceia, Galileia e Independência, voltaram a registrar pontos de alagamento, com água invadindo ruas e residências em algumas áreas.
Desde 2023, mais de R$ 1 bilhão foram investidos na construção de novos reservatórios no Estado. Três estruturas já foram entregues e outras duas estão em fase final de obras.
Transtornos
Mesmo com essas intervenções, as chuvas que atingiram a região este mês provocaram acúmulo de água em ruas e avenidas de cidades como Santo André, São Bernardo e Diadema. Também houve registros de queda de árvores e dificuldades no trânsito, especialmente em regiões onde os sistemas de drenagem já operam no limite.
Em Diadema, alguns dos pontos mais críticos ficaram na avenida Casa Grande com a avenida Fundibem, na avenida São José, na Praça dos Miosótis e no cruzamento da avenida Piraporinha com a avenida Doutor Ulysses Guimarães. As ocorrências se concentraram principalmente nos bairros Centro, Campanário e Piraporinha.
Para reduzir os impactos, a prefeitura informou que realizou, em 2025, 928 limpezas de galerias e bocas de lobo. Também houve desassoreamento de córregos, com a retirada de cerca de 320 metros cúbicos de detritos, além de operação tapa-buracos em mais de 400 ruas e ampliação de redes de drenagem em diferentes bairros.
Outra ação foi a campanha “Não Seja Porcalhão”, iniciada em janeiro de 2026. A iniciativa já retirou mais de seis mil toneladas de entulho das vias públicas e prevê a aplicação de multas para quem descartar resíduos de forma irregular.
A prefeitura também informou que obras de canalização de córregos e melhorias nos sistemas pluviais estão em andamento em diferentes regiões da cidade. Há ainda projetos previstos com recursos federais e estaduais para ampliar a capacidade de drenagem.
Questionadas, as demais prefeituras da região não se manifestaram até o fechamento da reportagem
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Seção: Cidades