Publicado em 02/03/2026 - 08:05 / Clipado em 02/03/2026 - 08:05
Região registra média de 10 suicídios por mês e casos estão mais frequentes
George Garcia
Os números oficiais de suicídios são difíceis de serem localizados e há também subnotificação de casos, que são registrados como outra natureza de morte, como morte suspeita. As instituições evitam falar do tema. O RD fez levantamento no Painel de Mortalidade, do Ministério da Saúde, sobre o casos registrados no ABC e os números apontam que as mortes ocorridas por ferimentos auto infringidos, envenenamento voluntário, de pessoas que se jogam na frente de veículos, se atiram de lugares altos entre outras causas, somaram 83 casos em 2025, somente entre janeiro a agosto, que são os dados disponíveis, até o momento, média de 10 casos por mês. Em todo 2024, foram 144 casos como esses na região, média de 12 mensais.
Os números oficiais da Secretaria de Segurança Pública não apontam as mortes por suicídio, no máximo há menção dos casos registrados como Morte Suspeita, casos em que a causa do óbito não está clara. No dia 19/02 uma tentativa de suicídio foi registrada na estação Guapituba da linha 10 Turquesa da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), em Mauá.
A vítima, um jovem de 16 anos teria se atirado na linha férrea, mas foi socorrido com vida. Procurada pelo RD, a companhia não quis comentar sobre o número de casos deste tipo registrados no trecho da linha que corta o ABC. Questionada também sobre as medidas que adota para prevenção de suicídio, a companhia de trens não se manifestou.
A reportagem também questionou a Artesp (Agência Reguladora de Transportes do Estado de São Paulo), que administra o corredor de ônibus metropolitano entre São Mateus e Jabaquara e que corta a região, sobre o número de suicídios ocorridos ao longo da pista exclusiva para ônibus, mas até o fechamento desta matéria a agência também não se manifestou.
Os números do Ministério da Saúde (https://svs.aids.gov.br/daent/centrais-de-conteudos/paineis-de-monitoramento/mortalidade/cid10/) sobre mortalidade mostram que ,em 2025, dos óbitos autoprovocados, a maioria – 58 dos casos – ocorreu por enforcamento e 47 deles foram cometidos dentro de residências. Dos 83 casos tabulados de janeiro a agosto, 27 ocorreram em São Bernardo, 22 em Santo André, 12 em Mauá, 11 em Diadema, cinco em São Caetano, quatro em Ribeirão Pires e dois em Rio Grande da Serra.
Informação responsável
Para o psiquiatra da Rede D’Or e Hospital São Luiz de São Caetano, Líbano Abiatar Monteiro, os transtornos mentais são multifacetários e o adoecimento depende da genética, de traços de personalidade e de fatores externos, como relações familiares ou mesmo a violência. Considerados a pré-disposição genética e fatores externos, a incidência dos pensamentos suicidas estão maiores diante dos desafios da atualidade, assim como a gravidade tem aumentado também”, analisa. Para o médico, a informação sobre suicídios deve ser dada, dentro de critérios da informação responsável.
O psiquiatra diz que o transtorno que leva a pensamentos suicidas são mais comuns em pessoas com histórico de transtornos mentais, como depressão, bipolaridade, esquizofrenia ou naquelas que fazem uso de substâncias químicas. Para Monteiro, os números oficiais dos suicídios são pouco conhecidos e ainda assim podem padecer da subnotificação. “São muitos casos que não são identificados como suicídios e que não entram nas estatísticas”, aponta.
Locais
O psiquiatra diz que é difícil para quem atua em locais de grande circulação de pessoas e onde, não raros, acontecem casos de suicídio, como estações de trem, metrô ou viadutos. “É um evento muito rápido e em geral a pessoa não dá sinais. Mas a informação clara, o uso de cartazes com telefone e locais para acessar serviço especializado ajudam”, afirma.
Monteiro diz, porém, que o suicídio em locais públicos, apesar de serem mais noticiados, não são as principais formas que são usadas por quem está em transtorno. “Os mais usados são medicamentos, venenos, armas de fogo e se atirar de lugares altos. Quando ocorre em lugares públicos como estação de trem isso em nada muda para aquela pessoa, pois ela tem a sensação de estar sozinha naquele ato, mesmo estando em local público”, diz.
Há também questões passionais, em que a pessoa quer demonstrar para outro o seu sofrimento, tais como suicídios que ocorrem após término de relacionamentos ou por perdas. “Há aí o desejo de mostrar seu sofrimento. A descompensação por causa de relacionamentos interpessoais causa muito sofrimento e pode levar ao suicídio”, ressalta.
Identificação
Mas como identificar quem está em tal estado depressivo que pode ser potencial suicida? Para o médico do Hospital São Luiz, essas pessoas não se abrem e deve partir das pessoas próximas a percepção e a aproximação como ouvinte. “Só o olhar dos que compartilham a vida com essa pessoa já é grande coisa. Muitas vezes essa pessoa não pede ajuda, não são ouvidos, então a pessoa próxima tem de entender quando o outro sofre e se colocar ali para ajudar sem fazer julgamentos. A pessoa deve ser ouvida e ela só fala se tiver certeza que não vai ser julgada. É preciso ser empático”, ensina o psiquiatra.
Outro sinal de atenção para quem observa o comportamento diferente de alguém é saber se essa pessoa já passou por transtornos assim antes. “Quem já tentou suicídio antes tem um risco maior”, ressalta o médico.
Ajuda
A busca por ajuda para os transtornos da mente deve ser igual ao cuidado que é dado à saúde física, diz Líbano Abiatar Monteiro. “Se a coluna dói, eu busco orientação de especialista e vejo que tipo de intervenção precisa ser feita para cessar aquela dor. Acontece o mesmo com as nossas emoções. É preciso entender e avaliar. Hoje dedicamos mais cuidado à saúde física e nem tanto à saúde mental. O tratamento deveria ser o mesmo, a única diferença que o órgão que adoece é o cérebro”, observa.
O médico diz que o momento de procurar ajuda especializada é quando essas questões emocionais passam a prejudicar as atividades do dia a dia. “Sintomas todos nós temos; todos os dias podem surgir dores em qualquer parte do corpo. A questão é quando estas dores são exageradas, persistentes e causam sofrimento e desconforto a ponto de atrapalhar nossas relações sociais e a funcionalidade”, completa.
NOTA DA REDAÇÃO:
Suicídios são um problema de saúde pública. Antes, boa parte da mídia profissional, evitava publicar reportagens sobre o tema pelo receio de que isso servisse de incentivo. Mas, diante da alta de mortes e tentativas de suicídio nos últimos anos, inclusive de crianças e adolescentes, o Repórter Diário passa a discutir mais o assunto.
Segundo especialistas, é preciso colocar a pauta em debate, mas de modo cuidadoso, para auxiliar na prevenção. O trabalho jornalístico sobre suicídios pode oferecer esperança a pessoas em risco, assim como para suas famílias, além de reduzir estigmas e inspirar diálogos abertos e positivos. O RD segue as recomendações de manuais de especialistas ao relatar os casos e as explicações para o fenômeno.
Veículo: Online -> Site -> Site Repórter Diário
Seção: Cidades