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Publicado em 16/02/2026 - 08:04 / Clipado em 16/02/2026 - 08:04

Incentivo ao esporte no ABC amplia acesso, mas não sustenta avanço da carreira


Henrique Araújo 

 

O ABC mantém uma das maiores redes públicas de esporte da região metropolitana de São Paulo. Escolinhas gratuitas, centros esportivos, festivais, projetos sociais e parcerias institucionais alcançam dezenas de milhares de crianças, adolescentes e adultos. Apesar da abrangência, as políticas esportivas municipais apontam um padrão recorrente. O incentivo se concentra no esporte de base e na participação recreativa, enquanto atletas adultos, equipes amadoras e esportistas de alto rendimento seguem, em grande parte, sem apoio financeiro direto.

Levantamento do RD elaborado a partir de informações das prefeituras de Santo André, São Bernardo, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra indica que, embora o discurso institucional valorize o esporte como política pública, a sustentação da carreira esportiva ainda não integra a maioria das estratégias municipais.

O investimento no esporte de base estrutura as ações públicas na região. As prefeituras mantêm redes extensas de escolinhas gratuitas, voltadas à iniciação esportiva de crianças e adolescentes. Em Mauá, a Secretaria de Esportes e Lazer atende cerca de 10 mil alunos gratuitamente, distribuídos em 30 modalidades ao longo do ano, em 21 polos da cidade. Além de esportes tradicionais, o município ampliou a oferta com atividades como skate, patinação supervisionada, boxe feminino, defesa pessoal e dança de salão.

Diadema também apresenta números expressivos. O município contabiliza cerca de 1,3 mil alunos na Escola de Esportes, 3,5 mil crianças nas escolinhas de futebol e 180 alunos na Escola de Futsal, com milhares de atendimentos contínuos voltados à formação esportiva.

Em São Bernardo, a política de base se concentra na Escola de Atletismo, que atende aproximadamente 1,2 mil crianças e adolescentes entre 7 e 17 anos. Santo André adota um modelo híbrido, que combina escolinhas abertas com processos seletivos, o que permite a evolução de atletas dentro da estrutura municipal e, em alguns casos, acesso a bolsas de estudo no ensino fundamental, médio e superior.

Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra mantêm escolinhas e festivais esportivos com foco declarado na formação cidadã e na inclusão social, embora apresentem menor detalhamento público sobre número de atendidos e modalidades oferecidas.

Competição e alto rendimento

Apesar da ampla base, o funil se estreita de forma significativa no momento em que o esporte passa a exigir alto rendimento e participação em competições oficiais. São Bernardo figura como uma das exceções mais estruturadas, por meio do Centro de Excelência Esportiva, voltado a atletas entre 14 e 21 anos nas modalidades de atletismo e judô. O projeto oferece alojamento, equipe multidisciplinar e participação em competições nacionais e internacionais, sustentado por patrocínio institucional estimado em R$ 2,5 milhões.

Diadema mantém 634 atletas de rendimento distribuídos em 21 modalidades, com destaque para o centro de basquete 3×3, que possui reconhecimento da FIBA e presença frequente em campeonatos Paulista e Brasileiro.

Em Mauá, o alto rendimento concentra-se em poucas modalidades. Ginástica rítmica, vôlei e basquete contam com a categoria competição, voltada à formação de atletas para torneios estaduais, nacionais e internacionais. Esses projetos operam por meio de convênios de cooperação técnica, coordenados por entidades parceiras sob supervisão da Secretaria de Esportes e Lazer.

Santo André mantém equipes competitivas oficiais com acesso por seletivas, mas não divulga números consolidados sobre quantos atletas conseguem avançar da base para o alto rendimento. Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra não apresentam políticas estruturadas para essa etapa, com atuação restrita ao esporte participativo.

Trajetórias sem apoio financeiro

A ausência de incentivo financeiro atinge tanto o esporte amador competitivo quanto o alto rendimento. Em Mauá, essa realidade faz parte da rotina de Suely Santos de Araújo Dal Cortivo, 40 anos. Atleta de vôlei master, categoria acima de 30 anos, pratica a modalidade há quatro anos e integra uma equipe formada por mulheres que conciliam o esporte com trabalho, família e outras responsabilidades.

Os treinos ocorrem uma ou duas vezes por semana, e a equipe participa de campeonatos ao longo do ano, além de festivais e amistosos. O principal apoio do poder público se limita à cessão do Ginásio Poliesportivo Prof. Berenice Rumiko Endo, na Vila Assis, com data e horário fixos semanais.

As demais despesas recaem quase integralmente sobre as atletas. Uniformes, inscrições em torneios, taxas de arbitragem e materiais essenciais, como bolas e redes, saem do orçamento do grupo. “Apesar de ser um esporte amador, precisamos de materiais de qualidade, que costumam ter preços elevados”, afirma Suely.

Mesmo com apoio pontual de vereadores ou empresas privadas, ainda em Mauá, os recursos raramente cobrem todos os custos, o que leva algumas atletas a interromperem a prática esportiva em períodos de maior dificuldade financeira. “O vôlei é uma válvula de escape da rotina, mas quando os custos aumentam, aquilo que deveria aliviar passa a gerar frustração”, relata.

Parataekwondo

Situação semelhante marca a trajetória de Fernando Ripoli (48), de Ribeirão Pires. Atleta de taekwondo e kickboxing, iniciou no esporte ainda na infância e construiu carreira em projetos sociais, academias e equipes competitivas até alcançar o alto rendimento. Mesmo com formação acadêmica completa em Educação Física, sua trajetória esportiva sempre ocorreu sem apoio financeiro institucional.

Em 2026, Ripoli inicia uma nova etapa no parataekwondo, como atleta de alto rendimento na classe P20, destinada a atletas com deficiência intelectual. Diagnosticado com autismo nível 2 de suporte, tem como objetivo disputar Campeonatos Mundiais oficiais da World Taekwondo e representar o Brasil no cenário internacional.

Ao longo da carreira, Ripoli diz que nunca recebeu incentivo financeiro do poder público ou da iniciativa privada. Inscrições, viagens, hospedagens, alimentação, equipamentos e preparação física sempre dependeram de recursos próprios.

“A rotina de treinos ocorre de segunda a sábado, muitas vezes em espaços improvisados, como campos de futebol, áreas públicas e até a rua, por conta da ausência de um centro fixo de treinamento. Sem apoio, precisamos dividir energia entre treinar, trabalhar e buscar recursos. Isso afeta diretamente a preparação física e mental”, afirma Fernando Ripoli.

Para Ripoli, investir no atleta local, especialmente no paradesporto, significa investir em inclusão, saúde, educação e representatividade. Ainda assim, segue a carreira esportiva sustentado quase exclusivamente pela própria dedicação.

Movimento nas câmaras municipais

A atuação das câmaras municipais do ABC no debate sobre incentivo ao esporte segue discreta, mas iniciativas recentes indicam movimentos pontuais além do discurso institucional. Em meio a um cenário marcado pela concentração de investimentos na base e pela ausência de políticas de sustentação da carreira esportiva, Santo André e São Caetano apresentam propostas legislativas em estágios distintos.

Em Santo André, tramita o Projeto de Lei nº 38557, de 2023, de autoria do vereador Zezão, que propõe a criação do Programa Municipal de Incentivo ao Esporte Olímpico e Paralímpico. A proposta foca estudantes da rede pública e prevê identificação de talentos, estímulo à prática esportiva e formalização de parcerias com federações e entidades do setor, além da possibilidade de incentivos educacionais.

Em São Caetano, duas indicações recentes colocaram o tema no debate legislativo. O presidente da Câmara, Doutor Seraphim, sugeriu a criação do Programa Bolsa Esporte, com apoio financeiro a atletas e profissionais de Educação Física. Já o vereador Welbe Macedo propôs estudos para implantação do Bolsa Atleta Municipal da Terceira Idade, voltado a esportistas idosos que representam o município em competições. As propostas dependem de aval do Executivo, mas indicam uma ampliação gradual do olhar do poder público para além da iniciação esportiva.

 

https://www.reporterdiario.com.br/noticia/3779447/incentivo-ao-esporte-no-abc-amplia-acesso-mas-nao-sustenta-avanco-da-carreira/

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Seção: Cidades