Publicado em 31/01/2026 - 08:13 / Clipado em 31/01/2026 - 08:03
Com alta de até 44%, procura por saúde mental pressiona serviços no ABC
POR REDAÇÃO
A demanda por atendimento em saúde mental no ABC registra crescimento expressivo, com alta de até 44% em algumas cidades. Entre os sete municípios, apenas São Bernardo, Ribeirão Pires, Diadema e Rio Grande da Serra forneceram dados oficiais, que somam mais de 386 mil atendimentos em 2025. Diante disso, especialistas afirmam que o aumento reflete não apenas maior reconhecimento da importância do cuidado emocional, mas também o impacto do esgotamento, ansiedade e sobrecarga da rotina.
Em Ribeirão Pires, o crescimento foi o mais expressivo: os atendimentos saltaram de 63,6 mil em 2024 para 91,6 mil em 2025, alta de 44%, com uma equipe composta por cinco psiquiatras e dez psicólogos. Já São Bernardo registrou quase 242 mil atendimentos no ano passado, um aumento mais discreto de 1,5% em relação a 2024, mas com destaque para uma rede ainda mais robusta, composta por 452 profissionais.
Diadema registrou queda nos atendimentos individuais, de 58,5 mil para 53,3 mil, mas a cidade tem investido na expansão da rede, incluindo a inauguração do CAPS Sul e a previsão de um novo prédio para o CAPS Álcool e Drogas, ainda sem data oficial de inauguração. E Rio Grande da Serra, apesar de contar com uma rede menor, mantém atenção multiprofissional e prioriza casos complexos, com 1.635 atendimentos realizados em 2025.
Mudança de perfil chama atenção dos profissionais de saúde
Em entrevista ao RD, psicólogo Davi Rodriguez Ruivo Fernandes, especialista em psicanálise e saúde mental, alerta que o perfil de quem busca atendimento tem mudado nos últimos anos. “Hoje vemos muitos jovens adultos, entre 20 e 35 anos, lidando com ansiedade, insegurança e cobranças excessivas. Também cresceu o número de pessoas entre 40 e 60 anos que enfrentam esgotamento, lutos, separações e crises de sentido”, explica.
Entre as queixas mais comuns estão ansiedade constante, insônia, cansaço mental, irritabilidade, desânimo e dificuldade de concentração. “Também aparecem conflitos familiares, insatisfação no trabalho e uso de álcool, jogos e outros comportamentos compensatórios. O maior erro é tentar resolver tudo sozinho”, alerta o especialista. “Muitas pessoas se cobram ainda mais, trabalham excessivamente ou minimizam sua dor comparando com a dos outros. Isso apenas agrava a situação”, explica.
Pressão sobre os serviços
O aumento da demanda desafia a capacidade das redes municipais. Em Ribeirão Pires, a fila média para atendimentos psicológicos e psiquiátricos pode chegar a 45 dias. Em São Bernardo, há atendimento imediato em casos de crise, mas a cidade não informou o prazo para outras condições.
Diadema aposta na expansão e qualificação da rede, com novos CAPS, para melhorar o acesso e a continuidade do cuidado, no entanto também não informou sobre fila de espera para atendimento. Já em Rio Grande da Serra, a equipe é menor e, por conta deste fator, a cidade informa que a prioridade é atender os casos mais complexos e acompanhar a demanda continuamente. O tamanho da fila de espera também não foi informado pela administração.
Sinais de alerta e orientação profissional
Segundo o Davi Ruivo, sinais como alterações no sono e no apetite, queda de rendimento no trabalho, isolamento social ou crises de angústia frequentes indicam que não dá mais para adiar a busca por ajuda profissional. Segundo o psicólogo, o cansaço passageiro melhora com descanso e pequenas mudanças, mas quando persiste por semanas ou meses e interfere no prazer de viver, é um sinal claro de necessidade de cuidado especializado.
Para escolher o profissional ideal, Davi reforça que a formação e o registro são importantes, mas a relação estabelecida durante o acompanhamento é essencial. “A pessoa precisa se sentir escutada, respeitada e segura para falar sobre o que sente, sem medo de julgamento ou respostas prontas. A psicoterapia é um espaço de elaboração, não de correção moral”.
Como procurar ajuda no ABC
Para quem percebe sofrimento emocional ou sinais que exigem cuidado profissional, existem serviços acessíveis na rede pública ou por meio de apoio emocional gratuito. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são a principal porta de entrada para atenção em saúde mental pelo SUS – eles funcionam em regime de porta aberta, ou seja, qualquer pessoa pode procurar a unidade mais próxima sem necessidade de agendamento ou encaminhamento formal e solicitar acolhimento e acompanhamento interdisciplinar com psicólogos, psiquiatras e outros profissionais.
Além dos CAPS, as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) das cidades do ABC podem orientar, acolher e encaminhar pacientes para os serviços de saúde mental quando necessário. Outra opção de apoio emocional gratuito é o Centro de Valorização da Vida (CVV), que realiza atendimento 24 horas por dia, todos os dias da semana, por meio do telefone 188 (ligação gratuita), chat e e‑mail — uma alternativa para quem busca apoio imediato ou confidencial.
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Seção: Cidades