Publicado em 26/01/2026 - 08:06 / Clipado em 26/01/2026 - 08:06
Abertura de empresas cresce 17%, mas 80% são individuais e morrem cedo
George Garcia
O surgimento de novas empresas cresceu 17% no ABC entre 2024 e 2025, mas 80% delas é do regime de empresário individual, entre eles os MEIs (Microempreendedores Individuais); tipos de empresa que mais fecharam portas nos dois anos. Se considerar os demais regimes empresariais, como sociedades limitada, anônima e outros, houve um crescimento bem mais sutil, de 10,2% na região.
Em 2024, segundo os dados do Mapa das Empresas, do governo federal foram abertas 65.632 novas empresas no ABC, 78,7% delas de empresários individuais. No ano passado foram 76.902 aberturas de empresas na região, 11.270 a mais, crescimento de 17,17%, sendo que 80% individuais. Os dados são de janeiro a novembro dos dois anos.

Fonte: Mapa das Empresas
Ainda segundo o Mapa, São Bernardo é a sexta cidade do Estado entre as que mais abriram empresas em 2025, atrás de São Paulo, Guarulhos, Campinas, Ribeirão Preto e Sorocaba. Santo André vem em oitavo, atrás de São José dos Campos. Com exceção de Capital e Guarulhos, que são cidades muito grandes e populosas, São Bernardo e Sano André ficaram atrás de cidades do interior do Estado. Diadema aparece na 19ª colocação; Mauá, na 22ª; São Caetano na 41ª; Ribeirão Pires na 81ª e Rio Grande da Serra na posição 154.
Os números mostram que embora os empreendimentos individuais sejam maioria e também os que mais cresceram em um ano também são os que mais morrem. De cada 10 novas empresas abertas, seis fecharam. Do total de empresas abertas no ano passado, 61.509 eram empresários individuais e o Mapa das Empresas mostra que, naquele ano, 36.747 empresas deste regime fecharam, o que representa 59,7% do número de aberturas. Em 2024 os números não foram muito diferentes, abriram-se 51.664 empresas individuais e fecharam 32.321, o que corresponde a 62,6%.
O economista Volney Gouveia, gestor do curso de Ciências Econômicas e gestor adjunto da Escola de Gestão e Negócios, da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), considera que os modelos do mercado de trabalho que vieram com o Microempreendedor Individual e as mudanças trabalhistas que flexibilizaram a terceirização de mão de obra mudaram o cenário econômico e vieram para ficar, mas para ele essa facilidade de mobilidade junto com a falta de preparo para gerenciamento das empresas leva ao fechamento destas micro e pequenas em pouco tempo.

Fonte: Mapa das Empresas
Para Gouveia, o crescimento de um modelo ou outro – MEI versus CLT – vai depender da dinâmica do mercado de trabalho e do próprio desempenho da economia nacional. Em períodos de recessão, aumenta-se relativamente o número de MEIs e diminui o número de CLTs. Como estamos em período de aquecimento econômico, com taxa de desemprego na mínima histórica, isto facilita sobremaneira a mobilidade dos trabalhadores no mercado de trabalho, que trocam de contrato ou até mesmo incorporam dupla atividade profissional, uma como MEI e outra como CLT.
“No caso do ABC, este movimento também ocorre, ou seja, tem havido expansão dos dois tipos de contratos em função do bom desempenho da economia local”, aponta o economista.
A gestão é a palavra chave para a sobrevivência das empresas individuais, micro e pequenas, crava Gouveia. “A retração no número de empresas – em contexto de economia aquecida e baixo nível de desemprego – tem relação com gestão ineficiente. O próprio Sebrae (Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa) aponta que mais de 60% das micro e pequenas empresas fecham as portas em até cinco anos. Estes números são emblemáticos de que ser autônomo não é garantia de liberdade profissional, porque se ela não for feita de forma planejada e bem executada, as estatísticas vão refletir o sobe e desce do surgimento e falência de empresas”, afirma.
São Bernardo
Apesar de ficar atrás de cidades do interior, São Bernardo ainda é poderosa em geração de trabalho ao ocupar a 6ª posição entre as que mais abriram empresas, na opinião do professor da USCS. “Não acredito que ela esteja perdendo posição industrial para o interior. Veja que, de 645 municípios do Estado de São Paulo, São Bernardo figura entre os 10 maiores. Portanto, isto mostra o poder de resiliência e recuperação das cidades do ABC, principalmente agora no âmbito da criação do NIB (Nova Indústria Brasil), programa federal que destina meio trilhão de reais para a recuperação da indústria nacional”, analisa.
Volney Gouveia considera que, para a região continuar a atraindo empresas e abrir outras novas com maior estabilidade, é preciso investir na indústria tecnológica. Precisamos reconfigurar nosso parque produtivo, diz, calcado na atração de indústrias que estejam vinculadas às cadeias produtivas da saúde, da energia renovável, do setor aeroespacial, além dos setores tradicionais de nossa região (metalmecânico, químico e moveleiro) que são setores cruciais para a reindustrialização da região, porque são setores de ponta com potencial para gerar empregos e renda melhores.
“Esta transformação deve vir à reboque da demanda global por processos produtivos mais sustentáveis, ecologicamente corretos, economicamente viáveis e socialmente justos”, afirma. Gouveia também cita a atração de grandes bancos, setor de boa remuneração que cumpriria o papel de financiamento do desenvolvimento local. “Seria algo como a ‘Faria Lima do ABC’, uma avenida que contasse com a presença de grandes bancos, a desenvolver o setor de serviços e de tecnologia”, diz.
Mapeamento
Estudos para mapear não apenas os setores mais interessantes para cada cidade e a mão de obra qualificada disponível, mas para identificar vocações que podem ser diferentes em cada bairro, são também considerados essenciais para o desenvolvimento econômico e estabilidade das empresas. Neste mês de janeiro, a CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de São Caetano divulgou um estudo em que mapeou a vocação de cada bairro da cidade e trouxe surpresas sobre as tendências de cada região do município. Para Volney Gouveia, esse é um caminho. “O mapeamento realizado pela CDL nos permite entender as particularidades de cada região e suas potencialidades. É preciso fomentar iniciativas que integrem os municípios e os fortaleçam”, completa o economista.
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Seção: Economia