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Publicado em 26/01/2026 - 08:05 / Clipado em 26/01/2026 - 08:05

Chuvas abaixo do esperado alertam para risco no abastecimento do ABC


Henrique Araújo 

 

Com médias de precipitação superiores a 200 mm, janeiro é tradicionalmente um dos meses mais chuvosos do ano em São Paulo, mas em 2026 caminha deve encerrar sob atenção redobrada das autoridades e especialistas em recursos hídricos. Apesar da recuperação pontual no volume de alguns reservatórios, os índices de chuva registrados ao longo do verão permanecem muito abaixo do esperado, cenário que preocupa especialmente o abastecimento de água no ABC ao longo dos próximos meses.

Dados da Sabesp mostram que os mananciais do Sistema Integrado Metropolitano operam atualmente com cerca de 32,6% da capacidade total. Embora o número represente melhora em relação ao fim de dezembro, quando o volume era de 27%, a companhia classifica o momento como de alerta. Segundo a empresa, este é o segundo pior cenário dos últimos 20 anos para o período, atrás apenas da crise hídrica histórica de 2014 e 2015.
Sistema Alto Tietê opera com quase 30% da sua capacidade total em janeiro (Foto: Divulgação)

A comparação direta com o período, no entanto, exige cautela. Atualmente, o sistema conta com maior capacidade de armazenamento e com estruturas que não existiam à época. Ainda assim, o comportamento das chuvas gera preocupação.

Dependência do ABC aumenta o nível de atenção

O alerta se intensifica no ABC, fortemente dependente de sistemas que sofrem pressão com a irregularidade das chuvas. São Bernardo, Santo André e Diadema têm no Sistema Rio Grande/Billings a principal fonte de abastecimento. Em Santo André, mais de 60% da água consumida vem da represa Billings. Mauá e Ribeirão Pires também dependem de braços da Billings e de sistemas complementares, enquanto São Caetano recebe água do Sistema Cantareira.

Levantamento feito pelo RD, com base em dados disponibilizados pela Sabesp, indica que, embora alguns reservatórios apresentem volumes considerados razoáveis neste momento, a baixa precipitação recente levanta dúvidas sobre a manutenção desses níveis ao longo do ano.

Na represa Billings, o volume útil armazenado era de 32,1% no início de novembro de 2025, com apenas 2,2 milímetros de chuva. Em dezembro, o índice subiu para 33,7%, impulsionado por um acumulado de 55,8 milímetros. Em janeiro, o reservatório atingiu 47,7% de volume útil, porém com apenas 4,6 milímetros de chuva até o dia 24, o que indica baixa reposição recente.

O Sistema Rio Claro apresentou avanço mais expressivo. Em novembro, operava com 24,3% de volume útil e chuva de 0,8 milímetro. Em meados de dezembro, após um acumulado de 273,4 milímetros, o nível subiu para 37,2%. Em janeiro, o sistema alcançou 53,8%, com 66,8 milímetros de chuva. Apesar da melhora, especialistas alertam que a irregularidade das precipitações pode comprometer a estabilidade desse cenário nos próximos meses.

Cantareira

No Sistema Cantareira, a situação segue mais delicada. No início de novembro, o volume útil era de 23,4%, com 6,6 milímetros de chuva. Em dezembro, o sistema chegou a 19,7%, após oscilações ao longo do mês. Em janeiro, o volume atingiu 21,2%, mas com apenas 0,3 milímetro de chuva até o dia 24, índice muito inferior ao esperado para o auge do período úmido.

O Sistema Alto Tietê apresenta comportamento semelhante. No início de novembro, o volume útil armazenado era de 22,4%, com 2,2 milímetros de chuva. Ao longo de novembro e início de dezembro, o sistema registrou queda gradual em razão do consumo, chegando a 18,1% no dia 10 de dezembro, mesmo com 23,9 milímetros de precipitação. A partir do dia 19 de dezembro, o volume voltou a subir, atingindo novamente 22,4%. Em janeiro, o avanço continuou, e no dia 24 o sistema registrou 28,2% de volume útil. Ainda assim, o acumulado de chuva no período ficou em apenas 0,8 milímetro, reforçando o desequilíbrio entre armazenamento e reposição natural.

Já o Sistema Rio Grande, um dos principais para o ABC, apresentava 56,1% de volume útil no início de novembro, com 3,8 milímetros de chuva. Em dezembro, o índice subiu para 60,8% e, em janeiro, alcançou 74,1%. Apesar do nível mais confortável, a precipitação recente permaneceu baixa, com apenas 3,6 milímetros registrados, repetindo o padrão observado nos demais reservatórios.

Medidas para antecipar riscos

Diante do cenário, a Sabesp e o governo do Estado apostam em ações estruturais e preventivas. Uma das principais é a nova Interligação Billings–Alto Tietê, obra definitiva que permite a transferência de até 4 mil litros por segundo de água bruta da Billings para o Sistema Alto Tietê — volume suficiente para abastecer cerca de 1,9 milhão de pessoas. A estrutura substitui soluções emergenciais usadas na crise passada e pode ser acionada sempre que critérios técnicos indicarem necessidade.
Especialista orientam uso consciente da água nas residências, do banho até a limpeza (Foto: Divulgação)

Outra frente é a GDN (Gestão de Demanda Noturna), em vigor desde agosto de 2025. Apenas entre 16 e 22 de janeiro, a medida resultou na economia de cerca de 5,48 milhões de metros cúbicos de água. Desde o início da operação, a economia acumulada ultrapassa 82 bilhões de litros, equivalente ao consumo mensal de aproximadamente 14,5 milhões de pessoas.

Segundo a SP Águas, o Sistema Integrado Metropolitano opera atualmente na chamada Faixa 3 de atuação, dentro de um novo modelo de gestão que considera projeções de 12 meses, níveis de segurança, consumo e afluência. O sistema permite antecipar medidas antes que a situação se agrave, algo inexistente em 2014.

Próximos meses

Especialistas em recursos hídricos avaliam que o cenário atual dos reservatórios exige atenção permanente, sobretudo diante da frustração das chuvas no auge do período úmido. Para o professor Rodrigo Manzione, da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo), a recuperação pontual dos volumes não elimina o risco projetado para os próximos meses.

“O risco de racionamento é real. Quando os reservatórios apresentam elevação sem a sustentação de chuvas consistentes, o alerta se mantém”, afirma. Segundo Manzione, a dependência histórica do regime de precipitações torna o sistema vulnerável, especialmente em regiões que concentram o abastecimento em poucos mananciais, como o ABC.

Fevereiro e março são esperança

A professora Marta Marcondes, pesquisadora da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) e especialista em meio ambiente e recursos hídricos, reforça que fevereiro e março terão papel decisivo na definição do cenário de 2026. “Temos que nos preparar para uma situação muito preocupante caso não chova aproximadamente 800 milímetros nesses dois meses”, avalia. Ao mesmo tempo, a professora pondera que volumes elevados de chuva também impõem desafios. “Chuvas intensas costumam trazer alagamentos e outros problemas urbanos, o que exige planejamento e resposta rápida do poder público”, diz.

Ambos destacam que, apesar de o ABC ainda apresentar uma condição relativamente mais confortável em alguns sistemas, o quadro não permite acomodação. “O Sistema Rio Grande ainda opera com cerca de 60% de armazenamento, o que garante alguma margem de segurança neste momento”, explica Marta. No entanto, chama atenção para a heterogeneidade do abastecimento regional. “Parte do ABC depende do Sistema Cantareira e do Sistema Alto Tietê, que enfrentam uma situação bastante preocupante”, afirma.

Para Manzione, medidas emergenciais ajudam a reduzir a pressão sobre os reservatórios, mas não resolvem o problema estrutural. “A segurança hídrica passa por investimentos contínuos, redução de perdas na distribuição, políticas de reúso e proteção efetiva dos mananciais”, diz. Na avaliação dos especialistas, sem planejamento de médio e longo prazo, a combinação de chuvas abaixo da média e consumo elevado tende a produzir impactos mais severos no segundo semestre.

 

https://www.reporterdiario.com.br/noticia/3768411/chuvas-abaixo-do-esperado-alertam-para-risco-no-abastecimento-do-abc/

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