Publicado em 21/01/2026 - 18:15 / Clipado em 21/01/2026 - 18:15
Número de feminicídios no ABC aumenta cinco vezes em um ano
George Garcia
O número de mulheres assassinadas pelo fato de serem mulheres, o que caracteriza o feminicídio, aumentou cinco vezes no ABC se comparados os números de janeiro a novembro de 2024 com os onze meses de 2025 disponíveis até o momento no site da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Em 2024 foram duas mulheres assassinadas na região em crimes registrados como feminicídios, no ano passado o número saltou para 10 mortes, número cinco vezes maior.
Além dos feminicídios consumados, é maior ainda o número de tentativas de feminicídio. Mas nestes casos os números de 2024 e 2025 foram bem parecidos; 17 e 16, respectivamente, segundo os dados oficiais da SSP. Considerado o número total de crimes registrados como feminicídio, somando os crimes consumados e tentados, foram 19 registros em 2024, nas sete cidades do ABC, e 26 neste ano, alta de 36,8%.
Casos
Com as tentativas praticamente em número estável e as mortes com importante alta, a estatística aponta que as agressões estão mais violentas e os agressores atingindo o objetivo de matar. A tendência é que, com o fechamento da estatística de 2025, que ainda não tem os números oficiais de dezembro, que o ano passado registre um número ainda maior do que o ano anterior. Só em dezembro ocorreram pelo menos dois feminicídios de mulheres que foram mortas a facadas pelos companheiros.
No dia 6/12 uma mulher de 27 anos foi morta a golpes de faca em uma casa no bairro Jardim Canhema, em Diadema. O crime aconteceu no sábado (6), por volta das 22h15. O autor se matou após assassinar a companheira. Na manhã do dia seguinte uma mulher de 38 anos foi morta a facadas em sua casa no Jardim do Estádio, em Santo André. O autor é marido da vítima e foi preso no local do crime.
Estrutura
Enquanto a violência contra a mulher cresce na região, a infraestrutura que há para apurar a autoria dos crimes e deter os responsáveis continua a mesma. Na região não há nenhuma DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) que funcione 24 horas por dia. E mesmo funcionando em horários restritos, essas delegacias especializadas não estão em toda a região, só em cinco cidades (Diadema, Mauá, Santo André, São Bernardo e São Caetano).
Apesar de toda delegacia estar aparelhada e deve fazer o registro de violência contra a mulher, o ideal é o atendimento especializado. Enquanto mais DDMs não são entregues e as que existem ainda não funcionam 24 horas por dia, o governo criou as Salas DDM, um espaço nas delegacias comuns onde a mulher pode fazer seu relato a uma delegada que a atende à distância por videoconferência, que acontece em uma sala com privacidade. Esse serviço está implantado no 1º DP de Diadema, nos plantões do 1º, 2º e 6º DP de Santo André, 1º DP de Mauá, Delegacia Sede de Ribeirão Pires, 2º e 3º DP de São Bernardo e Delegacia de São Caetano, com funcionamento ininterrupto.
Para a socióloga e ex-secretária de Políticas para Mulheres de São Paulo, Dulce Xavier, que também integra a Frente Regional do ABC de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, o aumento da violência é fruto de uma mistura da falta de estrutura de combate ao crime e da falta de amparo de outras políticas públicas de prevenção à violência contra a mulher.
“É uma série de coisas juntas. O que eu acho mais grave é a falta de divulgação para a população que não sabe onde procurar ajuda; falta estrutura e pessoas capacitadas e sensibilizadas nas delegacias, mas faltam, principalmente investimento em ações educativas desde os primeiros anos de escola até as universidades sobre igualdade de gênero e ações preventivas informando que as mulheres podem ser ouvidas, atendidas, serem apoiadas e informadas em serviços específicos sem a necessidade de fazer um boletim de ocorrência”, sustenta Dulce.
A socióloga critica o corte de verbas públicas no Estado destinadas às políticas para mulheres. “Em 2025 ele (governador Tarcísio de Freitas – Republicanos) cortou 96% do orçamento para políticas para mulheres. Das sete cidades, cinco têm delegacia da mulher. A questão é falta de pessoas qualificadas e estrutura (viaturas, por exemplo). Tem delegacia da mulher encaminhando para delegacias comuns. Falta uma Casa de Passagem Regional que deve atender 24 horas e acolher mulheres a qualquer hora, que podem ser encaminhadas por vários serviços (Guardas Civis Municipais, Delegacias, CREAS, etc)”, explica.
Na região há centros especializados para atender mulheres vítimas de violência em cinco cidades e nas demais há os Creas (Centro de Referência Especializado em Assistência Social). O ABC também tem duas casas abrigo sigilosas para casos de ameaça iminente de morte para mulheres os filhos com menos de 18 anos.
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Seção: Cidades