Publicado em 28/12/2025 - 08:30 / Clipado em 28/12/2025 - 08:30
Ao restringir tarifa zero a moradores, prefeito de São Caetano do Sul não entende o que é uma região metropolitana e conurbação
Published by Thiago Silva
Pensar fora da caixa nos dias de hoje parece ser cada vez mais raro dentro da política. Prefeitos, vereadores, deputados, governadores e presidentes, muitas vezes pouco se esforçam para entender o óbvio. Nem mesmo com uma bela chacoalhada, a mente se abre, e aí é necessário ser um pouco mais enérgico.
Tite Campanella (PL), atual prefeito de São Caetano do Sul, em uma decisão impensada, afirma que vai restringir a tarifa zero na cidade apenas aos moradores. Para ele, essa decisão ajudará a reduzir os custos do programa que, diga-se da passagem, é um sucesso.
Implantada em 2023, a tarifa zero passou a vigorar em todo o município em novembro daquele ano. De lá para cá, a demanda cresceu, a frota cresceu e diversos ajustes foram feitos para dar conta da demanda. Há quem diga que houve uma queda na qualidade do serviço em razão do mau dimensionamento da frota. O atual prefeito afirmou o programa custa R$ 50 milhões anuais. Segundo ele, a implementação se deu sem estudos aprofundados pela gestão anterior, o que vem ocasionando esses problemas. Caso essa ideia seja implementada, que não residir em São Caetano do Sul, passará a pagar uma tarifa que, por enquanto, está estimada em R$ 4,00.
Sabendo dessa ideia em restringir aos moradores apenas, vamos fazer algumas análises mostrando o quanto isso é equivocado e que o prefeito está muito mal assessorado, ou está mal intencionado mesmo. Para isso coletamos os dados do censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além da Pesquisa Origem e Destino (OD) 2023.
A população de São Caetano do Sul, de acordo com o Censo de 2022, é de pouco mais de 165 mil pessoas. O município foi dividido em cinco zonas ODs, que somadas, ofertam 110 mil empregos. Essas zonas, juntas, produzem e atraem cerca de 384 mil viagens, ou seja, mais que o dobro da população da cidade. Isso já dá alguns indícios. O tempo médio de percurso varia de 43 a 66 minutos, o que já mostra que as viagens não são necessariamente dentro da cidade. Agora vem o ponto importante: as cinco zonas ODs de São Caetano do Sul atraem mais de 170 mil viagens por dia pelo motivo trabalho (indústria, comércio e serviços), maior que a população da cidade. É aí que queremos chegar.
São Caetano do Sul é um município que possui muitos polos de empregos, e nem todo mundo que trabalha lá, vive na cidade. O município recebe muitas pessoas de cidades vizinhas. Quando o prefeito pensa em restringir a tarifa zero apenas aos moradores locais, ele acaba por ignorar completamente as dinâmicas de uma região metropolitana. A conurbação fez com que São Caetano do Sul se comportasse como uma extensão da cidade de São Paulo, não se impondo limites visíveis entre uma cidade e outra. É assim em toda a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). A capital recebe milhões de pessoas dos municípios vizinhos e a alta demanda de linhas da CPTM e das linhas da EMTU (atual Artesp) reforçam isso. Se colocarmos no cálculo as viagens atraídas por motivo educação, o número quase dobra.

Dados da Pesquisa OD 2023 (Foto: Pesquisa OD)
É impensável pensar (nos perdoem pelo trocadilho) em São Caetano do Sul como um município isolado que se autossustenta em todos os aspectos. Até porque, os moradores desta cidade também são beneficiados com políticas de mobilidade dos municípios vizinhos.
Para nós, sendo bem sincero, duvidamos que o prefeito esteja preocupado com a qualidade do transporte. Duvidamos que alguém que não more ou não trabalhe em São Caetano do Sul, vá para lá apenas para ficar andando de ônibus com a tarifa zero. Isso é o começo de um iminente desmantelamento, igual ao que fizeram na cidade de São Paulo com os bilhetes temporais, com a rede noturna e com a redução dos horários de algumas faixas exclusivas.
Se há problemas, se há falhas, enfim, se há algum ponto que precisa ser melhorado, que ele seja feito, mas sem onerar quem precisa. Se o prefeito pensasse na população, poderia manter a tarifa zero para quem mora, trabalha e estuda na cidade. Certamente depois disso ele veria que praticamente não existem pessoas fora dessas três categorias que usam o serviço. No máximo aqueles que o fazem por lazer, mas que certamente ficam restrito aos fins de semana.
Em reportagem do jornal Repórter Diário, a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) da cidade divulgou nota de repúdio e destacou que a economia da cidade, depende da mão de obra de pessoas que não necessariamente moram no município, será fortemente afetada.
Para o presidente da CDL Alexandre Damásio, o município não dispõe de toda a força de trabalho e grande parte dos trabalhadores vêm de outras cidades. “Quem está estabelecido perto da estação de trem não terá problema, mas e as empresas que ficam em outras partes da cidade? Quem usa a tarifa zero são trabalhadores como o segurança, o porteiro, a faxineira, quem trabalha o comércio, no telemarketing, ou seja, as empresas terão um custo de reimplementar todo um cronograma de pagamentos de vale transporte, são custos de obrigação acessória, isso será um custo empresarial gigantesco e mostra para quem quer investir, ou para quem já investe na cidade, uma insegurança jurídica”, analisa.
Essa situação, mais uma vez reforça a necessidade de uma Autoridade Metropolitana de Transporte, capaz que corrigir ou evitar contratempos ou decisões obtusas como essa. Região Metropolitana tem essa denominação, entre diversas razões, pelo fato das cidades que a compõe compartilharem forte integração econômica, social e cultural. Será que o prefeito de São Caetano do Sul sabe disso?
E no momento atual onde vemos o avanço dos modos individuais, com destaques às motos, é uma aposta perigosíssima restringir a tarifa zero. A sociedade como um todo pagará um preço altíssimo.
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