Publicado em 27/12/2025 - 08:22 / Clipado em 27/12/2025 - 08:22
Saldo positivo mascara precarização do emprego em S.Caetano, diz estudo da USCS
POR REDAÇÃO
Apesar de registrar saldo positivo de 711 empregos formais em setembro de 2025, São Caetano vive uma tendência negativa no mercado de trabalho. Estudo da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), publicado na 33ª Carta de conjuntura e feito com base em dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), mostra que o crescimento está concentrado em vagas temporárias, de alta rotatividade e menor qualificação e remuneração, enquanto postos mais estáveis, que requerem nível superior de formação, passam por redução significativa.
O saldo apresentado pelo Caged é resultado das 6.072 admissões contra os 5.361 desligamentos no mês de setembro, o que elevou o estoque total de empregos formais para 121.640 vínculos. No ano 2025, São Caetano soma 4.316 novos postos de trabalho, e, no intervalo de 12 meses (set/24-set/25), o saldo é de 2.604 vagas.
Contudo, segundo o autor do estudo – pesquisador pós-graduado em administração pública e convidado do Conjuscs (Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS), Bruno Luiz de Castro da Conceição – , esses números, apesar de parecerem positivos à primeira vista, mascaram mudanças estruturais no mercado de trabalho da cidade. “A principal conclusão desta investigação é a flagrante contradição entre o desempenho quantitativo positivo e a visível deterioração qualitativa do emprego”, acrescenta Conceição.
A precarização do trabalho oferecido é amplamente percebida na relação entre setores, segundo a nota técnica. Enquanto a indústria e comércio, que oferecem qualidade e estabilidade, são insuficientes no quesito quantidade, o setor de serviços apresenta o inverso. Além da análise por setores, questões de gênero e grau de instrução também são exemplificadas.
Os homens representam maioria da mão de obra formal gerada, com um saldo positivo de 548 postos de trabalho. As mulheres, por outro lado, aparecem com um saldo positivo de apenas 163. Na análise de escolaridade, pessoas com o ensino médio completo apresentam um saldo positivo de 631, que se concentra em vagas para serviços administrativos e trabalhadores da produção industrial e serralheria. Já aqueles com ensino superior completo, aparecem com 108 vagas em serviços administrativos, como operador de telemarketing, supervisores de serviços administrativos, gerente de área de apoio e operadores de comércio, lojas e mercado.
Crescimento do setor de serviços exemplifica cenário atual
A área de maior geração de empregos em setembro foi o setor de serviços, responsável por 461 das 711 vagas criadas no mês. O segmento concentra cerca de 62% de todo o emprego formal em São Caetano. O tempo médio de permanência nos trabalhos é de 15 meses, porém, os microdados revelam que essa média esconde realidades bastante diferentes dentro do setor. Segundo a análise da USCS, o avanço do setor é graças ao aumento da contratação de mão de obra temporária, especialmente em áreas como logística, segurança e atividades administrativas de apoio. Em algumas dessas funções, o tempo médio de emprego cai para apenas 6,5 meses.
Esse movimento está associado a contratações sazonais. “Esses dados criam a hipótese de que essas contratações foram realizadas nos meses
que antecedem um período de grande demanda, como Black Friday, Natal e final de ano, reforçando a cadeia logística e atividades de suporte de empresas que vendem e entregam por comércio eletrônico”, apresenta o pesquisador.
Na prática, tratam-se de vagas pontuais que oferecem pouca estabilidade, alta rotatividade e menor perspectiva de ascensão profissional.
Indústria e comércio perdem espaço, apesar de maior estabilidade
Enquanto os serviços crescem, setores mais associados à estabilidade seguem em retração. A indústria fechou setembro com saldo negativo de -17 empregos formais, apesar de apresentar o maior tempo médio de emprego, com 37,3 meses. O comércio também registrou saldo negativo, com perda líquida de 13 vagas no mês.
Esses segmentos concentram, de maneira geral, postos de trabalho mais estáveis e bem remunerados. No comércio, as maiores perdas ocorreram nos supermercados e hipermercados. Na Indústria, o destaque negativo foi para a fabricação de móveis, além da redução de cargos administrativos.
“A tese central é que o município vive um processo de substituição do seu “núcleo estável” (empregos na indústria) por uma “periferia volátil” (empregos setor de serviços)”, pontua Conceição.
Falta de vagas de nível superior preocupa
Em setembro, São Caetano perdeu 108 vagas destinadas a trabalhadores com ensino superior completo. A pesquisa aponta que o município reduziu oportunidades para profissionais mais qualificados, mesmo em setores que apresentaram crescimento no total de vagas.
(Foto: Carta de Conjuntura da USCS)
O saldo positivo ficou concentrado entre trabalhadores com ensino médio completo, que somaram 631 novas vagas no mês. A nota técnica mostra que os números mostram uma tendência para um mercado cada vez mais voltado a funções operacionais, com menor exigência de formação e menor valor agregado. Para explicar a situação, a pesquisa apresenta o conceito de “Erosão do Conhecimento”, que consiste na perda de capital humano e, também, na perda de competitividade para as empresas do município, que renunciam a competências estratégicas em troca de reduções de custo imediatas.
Quantidade x Qualidade
A conclusão do estudo é que, com os dados apresentados em setembro, a estrutura de emprego em São Caetano passa por um momento de vulnerabilidade: a substituição do emprego qualificado e de maior estabilidade por postos temporários, terceirizados e de alta rotatividade.
Diante da falta de oportunidades, a cidade sofre com o fenômeno de “fuga de cérebros”, onde os trabalhadores locais com nível de escolaridade superior passam a buscar empregos em outras cidades, principalmente na capital paulista. “O desafio para a política pública é transformar o crescimento conjuntural (baseado em volume e volatilidade) em desenvolvimento ocupacional sustentável (baseado em qualidade e estabilidade)”, finaliza o pesquisador.
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Seção: Cidades