Publicado em 27/12/2025 - 08:00 / Clipado em 27/12/2025 - 08:00
Após vendaval derrubar 375 árvores prefeituras do ABC reestudam arborização
Jessica Fernandes
Os vendavais registrados no ABC entre os dias 10 e 12 de dezembro derrubaram dezenas de árvores, bloquearam vias públicas e afetaram a rede elétrica, o que revela limitações nas ações municipais diante das mudanças climáticas. No período, levantamento anterior do RD aponta que as fortes rajadas de vento resultaram em 375 ocorrências nas cidades de Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Ribeirão Pires e Mauá.
Questionadas sobre planos de replantio, recomposição da arborização e proteção ambiental, as prefeituras da região não apresentaram cronogramas claros, o que indica falhas na prevenção e no planejamento ambiental. Ao RD, a professora Marta Marcondes, bióloga, pesquisadora e coordenadora do projeto IPH-USCS (Índice de Poluentes Hídricos da Universidade Municipal de São Caetano do Sul), revela que a recomposição da arborização urbana precisa ir além do simples replantio. Segundo a especialista, é fundamental retomar as árvores para garantir a ocupação dos espaços urbanos pela vegetação e permitir a reabsorção da água da chuva, mas com atenção à escolha das espécies.
São Bernardo
Em São Bernardo, a Defesa Civil registrou 51 quedas de árvores entre os dias 10 e 12 de dezembro, além de 39 outras ocorrências relacionadas às fortes rajadas de vento que atingiram o município.
As equipes da Defesa Civil atuaram em conjunto com outras secretarias da Prefeituras para a remoção das árvores e liberação do trânsito. Como medida preventiva, praças e parques foram temporariamente fechados, assim como as visitas ao Natal Iluminado, na Esplanada Municipal, durante dois dias. Questionada sobre o replantio das árvores derrubadas, a Prefeitura não comentou sobre o assunto.
Diadema
O vendaval recente derrubou 66 árvores em Diadema. Sobre a recomposição da arborização, a Prefeitura informou que realiza ações contínuas de plantio, com 148 árvores já plantadas até o momento. O replantio ocorre de forma gradativa, com foco no período de chuvas, e segue um cronograma técnico definido a partir da vistoria das áreas afetadas.
Os critérios adotados incluem análise da fiação aérea, largura das calçadas, presença de redes subterrâneas, como tubulações e gás, além da escolha de espécies e porte adequados ao espaço urbano. O manejo da arborização conta com podas preventivas e vistorias técnicas, com reforço dos protocolos após o episódio para reduzir o risco de novas quedas.
De acordo com a Prefeitura, o município mantém ações permanentes de manejo da arborização urbana, como podas preventivas e vistorias técnicas. Árvores classificadas como risco são removidas. Após o episódio, os protocolos foram reforçados, com foco na prevenção de novas quedas e na segurança da população.
Ribeirão Pires
Em Ribeirão Pires, registros apontam 186 quedas de árvores em 2024 e 201 ocorrências em 2025 até o momento. O levantamento da Prefeitura específico das quedas diretamente relacionadas ao vendaval recente ainda está em apuração.
O município informou que mantém replantio contínuo ao longo de todo o ano, sem prazo fechado para início ou conclusão, por meio de compensações ambientais e ações permanentes de educação ambiental. Em 2023, foram plantados mais de 33 mil metros quadrados de áreas de reflorestamento vinculadas a projetos de compensação e educação ambiental.
Os critérios para o replantio consideram locais adequados, porte das mudas compatível com o espaço urbano e exigências de compensação ambiental. O manejo da arborização inclui vistorias técnicas e orientações para retirada de árvores em risco, com avaliação constante dos protocolos após eventos climáticos extremos.
São Caetano
A Prefeitura de São Caetano registrou cinco quedas de árvores durante o vendaval recente no município. No comparativo anual, o total de quedas até o momento é de 17 ocorrências, monitoradas pelas equipes técnicas da administração municipal.
A recomposição da arborização urbana segue os critérios do Plano Municipal de Arborização Urbana (Lei nº 5.760/2019). Árvores que caíram ou tiveram a estrutura comprometida, são removidas mediante avaliação técnica, com compensação ambiental. Para cada exemplar removido, um novo indivíduo arbóreo é plantado.
O replantio considera critérios técnicos específicos quanto ao porte e às características das mudas, que devem apresentar primeira ramificação do tronco com altura mínima de 1,8 metro, diâmetro à altura do peito (DAP) entre 3 e 5 centímetros, bom estado fitossanitário, copa formada e ausência de pragas ou lesões. São priorizadas espécies nativas regionais com raiz pivotante, classificadas conforme o porte adequado ao local: árvores de pequeno porte para calçadas de até 2 metros de largura, médio porte para calçadas mais amplas e grande porte para áreas livres, como praças, parques e terrenos municipais, sempre mediante avaliação técnica.
A administração municipal afirmar manter ações permanentes de manejo da arborização urbana, como vistorias preventivas, identificação de árvores com risco de queda, podas técnicas e avaliações realizadas por profissionais habilitados. Após os episódios climáticos recentes, os protocolos de prevenção, manejo e segurança da arborização urbana permanecem em execução em toda a cidade.
Rio Grande da Serra
Em Rio Grande da Serra, a Prefeitura informou que aproximadamente 14 árvores caíram em decorrência do vendaval. Questionada sobre os planos de replantio e recomposição da arborização urbana, a administração municipal informou que, devido à alta demanda de atendimentos nos últimos dias, a Defesa Civil não conseguiu concluir o levantamento completo em tempo hábil, o que impede, até o momento, a definição de ações específicas para o replantio das árvores derrubadas.
A Prefeitura não detalhou critérios que serão adotados para o replantio, como locais, porte das mudas ou compensação ambiental, nem apresentou prazo estimado para início ou conclusão da recomposição da arborização.
Sobre o manejo da arborização urbana, o município informou que as equipes da Defesa Civil realizam vistorias frequentes, tanto a partir de solicitações dos munícipes quanto de forma preventiva, para avaliação de árvores com risco de queda. Após o episódio, a Defesa Civil afirmou que as ações regulares de vistoria seguirão em execução no município.
Mauá
Desde a ventania da última semana, Mauá registrou a queda de oito árvores. A Prefeitura diz ter, desde 2021, tem um amplo projeto para arborizar a cidade, até o momento foram plantadas quase 25 mil mudas.
Santo André
Em Santo André, o vendaval registrado entre os dias 10 e 12 de dezembro provocou a queda de 96 árvores, segundo a Prefeitura. No consolidado de 2024, o município contabilizou 135 quedas, enquanto em 2025, até o momento, já foram registradas 195 ocorrências.
Sobre o replantio, a administração municipal informou que seguirá as diretrizes do Plano de Arborização Urbana do Município de Santo André, instituído pelo Decreto nº 18.333/2024. As ações de recomposição serão coordenadas pelo Departamento de Manutenção de Áreas Verdes (DMAV), com priorização das áreas mais afetadas pelo vendaval e respeito aos períodos sazonais mais favoráveis ao desenvolvimento das mudas.
Os critérios técnicos adotados incluem a análise da fiação elétrica, largura das calçadas e a escolha de espécies nativas adequadas ao ambiente urbano, com foco na segurança da população e na preservação da biodiversidade. O replantio ocorre de forma contínua, sem prazo fechado para conclusão.
Após o episódio climático, a Prefeitura informou que intensificará o monitoramento preventivo e seguirá rigorosamente as diretrizes do Plano de Arborização Urbana. Apesar disso, a administração municipal não comentou sobre eventuais falhas no planejamento ambiental até o fechamento desta matéria.
Arborização
Para a professora da USCS é urgente a recomposição da vegetação, replantar árvores e escolher bem as espécies. “A avaliação das espécies é essencial, principalmente o uso de árvores nativas da região. No ABC, que integra área de Mata Atlântica, as espécies devem ser compatíveis com esse bioma, com raízes pivotantes e copas adequadas à poda de manutenção”, explica.
A professora destaca que a manutenção constante é tão importante quanto o plantio. “Podas corretas, avaliação da saúde das árvores e acompanhamento técnico precisam fazer parte da rotina. Espécies inadequadas em áreas urbanas contribuíram para a situação atual”, afirma. Marta também defende o aumento da arborização nas cidades como estratégia central no enfrentamento das mudanças climáticas. “As árvores reduzem o calor, melhoram a qualidade do ar e ajudam a minimizar os impactos climáticos”, diz.
Plano nacional
Para a especialista, sem um plano permanente de manutenção, os episódios tendem a se agravar. “Esses eventos climáticos extremos não vão diminuir. Sem planejamento, as cidades continuarão vulneráveis”, afirma.
Marta cita o Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU), lançado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que busca ampliar de forma estruturada a cobertura vegetal nas cidades brasileiras como estratégia para enfrentar a emergência climática, fortalecer a biodiversidade, melhorar a qualidade do ar e a gestão das águas pluviais, com metas como ampliar em 360 mil hectares as áreas verdes urbanas e garantir que estados e municípios tenham instrumentos de planejamento voltados à arborização até 2045. O documento está disponível em: https://share.google/0xtDJquQSAzMhmlJG.
Outro ponto crítico envolve a convivência entre árvores e infraestrutura urbana. “Conciliar arborização e fiação elétrica é possível quando há planejamento. As árvores precisam de espaço adequado ao redor da base para se manterem firmes, mas muitas vezes o solo é totalmente cimentado, o que compromete a estabilidade”, alerta.
Soluções naturais
Para a professora Marta, as cidades precisam se preparar para o agravamento de eventos extremos, como enchentes, vendavais e ondas de calor, com soluções baseadas na natureza, e não apenas em obras de contenção tradicionais. “Piscinões não devem ser considerados propostas estruturantes. Eles não resolvem o problema na origem”, afirma.
Segundo a especialista, uma cidade resiliente adota medidas como o desenterramento de rios, a re-naturalização de córregos e a recuperação de áreas verdes, que permitem que a água da chuva tenha espaço para infiltrar e escoar de forma natural. Para isso, Marta defende que os municípios tenham planos próprios, alinhados às características ambientais e urbanas de cada território.
Educação ambiental
Outro ponto destacado é a educação ambiental da população, especialmente em relação ao descarte de resíduos. “Ainda há descarte incorreto de lixo, o que contribui para alagamentos e degradação ambiental. Esse tema precisa entrar como conteúdo permanente nas escolas”, pontua.
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Seção: São Caetano