Publicado em 03/12/2025 - 18:16 / Clipado em 03/12/2025 - 18:16
Registro de tráfico sobe 22% no ABC e reflete mais crimes e resposta da polícia
George Garcia
Os dados estatísticos da SSP (Secretaria de Segurança Pública) mostram que as ocorrências relacionadas ao tráfico de entorpecentes cresceram 22,39% no último ano. O número, segundo o professor de Direito Penal da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) e coordenador do Observatório de Segurança Pública, David Pimentel Barbosa de Siena, não reflete necessariamente o movimento do tráfico de drogas na região, mas sim as ocorrências e apreensões de entorpecentes. Para ele, o número pode surgir de duas vertentes; uma melhor atuação da polícia contra esse tipo de crime, como também uma maior capilaridade dos pontos de venda de entorpecentes na região.
A alta das ocorrências de tráfico no ABC subiram mais do que no Estado, onde a alta foi de 19,73% e mais do que na Capital e Região Metropolitana (20,29%). Os números oficiais apontam que entre janeiro e outubro de 2024 foram registrados 920 ocorrências tipificadas como tráfico de entorpecentes, no mesmo período deste ano foram 1.126 casos. Em cinco das sete cidades houve alta no número de ocorrências, com destaque para São Caetano, com alta de 180%, apesar do número absoluto na cidade ser pequeno, passando de cinco para 14 casos. Uma alta substancial de ocorrências de tráfico de drogas foi registrada em Rio Grande da Serra, de 111,11%; entre janeiro e outubro do ano passado foram 54 casos, contra 114 neste ano. Santo André teve alta de 59,84% (de 122 para 195 casos) e Mauá, alta de 52,83% (de 106 para 162 ocorrências).
Duas cidades tiveram queda na estatística da SSP quanto ao tráfico de entorpecentes. Ribeirão Pires, queda de 13% (de 20 para 23 ocorrências) e Diadema, de 7,84%. Diadema apesar da queda é a cidade com o maior número de atuações da polícia contra o tráfico. No ano passado entre janeiro e outubro, foram 357 ocorrências e neste ano 329. Em agosto deste ano a Polícia Civil apreendeu perto de uma tonelada de drogas em Diadema, durante uma operação. No total, a ação apreendeu 951 quilos de maconha, 1.115 tijolos da droga, dois veículos, uma moto e R$ 202 em espécie. Um homem e uma mulher foram presos. O caso foi registrado no 3º Distrito Policial de Diadema
Para Siena, não se deve considerar a alta de ocorrências relacionadas ao tema ao volume de tráfico em cada cidade. “É fundamental compreender o que esses dados realmente refletem. Eles não medem o volume real de drogas em circulação, mas sim o número de ocorrências registradas pela polícia. Em termos técnicos, trata-se de um indicador fortemente influenciado pelo nível de atividade policial, pelo tipo de operação realizada e pelo grau de priorização institucional do combate ao tráfico. A criminologia e os estudos sobre política de drogas são categóricos ao afirmar que dados de prisões e apreensões são indicadores mais sensíveis à atuação policial do que ao tamanho efetivo do mercado ilícito. Autores como Peter Reuter e Robert MacCoun demonstram que variações em prisões por drogas frequentemente refletem mudanças de estratégia policial, e não, necessariamente, mudanças reais no consumo ou na oferta”, aponta.
Ao analisar os números da região, o professor da USCS considera que na região pode ocorrer as duas situações, mais tráfico e também mais ações policiais para combatê-lo. “No caso específico do ABC, o crescimento de 22,39% nos flagrantes de tráfico, acima da média estadual e da Capital, sugere um fenômeno duplo: há, ao mesmo tempo, intensificação da atuação policial e uma estrutura territorial que favorece a presença do mercado de drogas. A região é altamente urbanizada, integrada à malha rodoviária estadual e conectada diretamente a áreas portuárias e industriais. Em termos de economia do crime, isso transforma o ABC em território estratégico para rotas de circulação, redistribuição e, em menor grau, consumo local”.
Para David de Siena, o ABC não é diferente da realidade de outras regiões do país. A comparação com outros estados ajuda a colocar o ABC no contexto nacional. Em várias unidades da federação, observa-se aumento consistente de registros relacionados ao tráfico nos últimos anos. Isso sugere que não se trata de uma anomalia regional, mas de um reflexo de um mercado ilícito robusto e em expansão no país inteiro. Ao mesmo tempo, os dados de apreensão no Estado de São Paulo demonstram crescimento expressivo da quantidade de drogas retiradas de circulação, o que reforça a conclusão de que há aumento de produtividade policial, ainda que isso não signifique, necessariamente, redução estrutural do mercado.
“As diferenças internas entre os municípios do ABC também merecem leitura cautelosa. As quedas observadas em Diadema e Ribeirão Pires não devem ser interpretadas automaticamente como sucesso local nem como falha regional. Variações pontuais podem refletir deslocamentos de pontos de venda, mudanças operacionais da polícia ou alterações na forma de registro das ocorrências. Estudos sobre mercados criminais mostram que o tráfico reage de forma adaptativa à repressão: quando a polícia aperta em um ponto, o crime se desloca para outro. Portanto, quedas localizadas precisam ser acompanhadas ao longo do tempo para verificar se representam diminuição real ou simples redistribuição territorial”, afirma o professor.
Para Siena, a alta em São Caetano deve ser relativizado pela base numérica extremamente baixa, mas o caso de Rio Grande da Serra merece atenção especial. “O crescimento de 54 para 114 ocorrências indica alteração relevante, mesmo sendo município pequeno. A criminologia mostra que cidades de menor porte muitas vezes são incorporadas à lógica do tráfico como espaços de apoio, seja para esconder drogas, fracionar cargas ou reduzir riscos de apreensão em áreas mais policiadas. Isso ocorre especialmente quando estão próximas de grandes centros urbanos. O tráfico funciona como rede logística, não apenas como comércio local, e, nesse contexto, nenhuma cidade está fora do mapa”, diz.
“Há duas coisas podem estar acontecendo ao mesmo tempo. Há indicadores claros de ampliação da atividade policial: mais prisões, mais flagrantes, mais investigações e mais apreensões. Isso é sinal de maior capacidade operacional e maior presença do Estado. Ao mesmo tempo, o tráfico de drogas permanece extremamente resiliente e lucrativo. No Brasil, os estudos sobre encarceramento mostram que o número de presos por tráfico cresce continuamente, com forte seletividade socioeconômica e racial, sem que isso resulte, proporcionalmente, na eliminação das grandes organizações criminosas”, diz.
O professor lembra de autores críticos, como Eugenio Raúl Zaffaroni, os quais alertam que há décadas que a repressão ao tráfico tende a atingir os elos mais fracos da cadeia, sem produzir impacto estrutural sobre as redes mais lucrativas e organizadas. Em síntese, diz, o que os dados do ABC revelam é uma região altamente pressionada pelo mercado de drogas, mas também um aparato policial que atua e produz resultados visíveis. “O desafio não está apenas em prender mais, mas em transformar produtividade em impacto social real: menos violência, menos poder econômico do crime e mais proteção às comunidades mais vulneráveis. Esse é o verdadeiro critério de sucesso de qualquer política de segurança pública”, completa David Pimentel Barbosa de Siena.
Veículo: Online -> Site -> Site Repórter Diário - Santo André/SP
Seção: São Caetano