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Publicado em 05/11/2025 - 18:22 / Clipado em 05/11/2025 - 18:22

Casamento tradicional resiste no ABC e segue à frente da união consensual


George Garcia 

 

O levantamento sobre nupcialidade do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), um estudo feito com base no Censo 2022, aponta que no Brasil, pela primeira vez, as uniões consensuais superaram os casamentos tradicionais em que os casais formalizam a união no cartório e na igreja. Os números, no entanto, apontam que o ABC se descola da realidade nacional; por aqui as uniões são mais tradicionais, demonstrando maior conservadorismo, mesmo assim as uniões consensuais se aproximam muito dos casamentos, em Diadema há quase um empate.

Considerando o universo pesquisado na região, de 1.240.201 uniões, a esmagadora maioria, 581.584 ou 46,9%, é de uniões tradicionais em que os casais celebraram a união no civil e no religioso. A união consensual aparece em segundo lugar com 342.023, o que corresponde a 27,6%. O casório só no civil vem logo em seguida 305.133 uniões (24,6%) e só 11.511 optaram por oficializar a união apenas perante a igreja, o que equivale a 0,93%.

Diadema é a cidade do ABC onde a diferença entre casamento tradicional e a união consensual, foi menor na região. Por menos de um por cento de diferença, a união formalizada no religioso e no civil ficou à frente. Na cidade, do total de 192.681 casamentos da pesquisa, 61.033 foram tradicionais (36% do total) e 59.859 (35,32%) foram de uniões consensuais. O casamento somente no civil representou 27,4% (46.427 casamentos) e aquelas uniões formalizadas apenas no religioso representaram 1,28% (2.173 ).

A diferença maior entre tradicional e consensual é observada em São Caetano, onde praticamente seis em cada dez casamentos ocorre no formato tradicional com celebração religiosa e formalização no civil. Na cidade das 77.691 uniões, 45.499 (58,6%) foram neste modelo. A união só no civil é o segundo formato mais comum de casamento na cidade, com 15.989 uniões ou 20,6%. A união consensual é somente o terceiro formato de formação de casais na cidade, somando 15.567 (20%) e por último vem o casamento só no religioso, escolhido por 637 casais (0,82%).

Outra cidade onde a união consensual é apenas o terceiro formato mais utilizado, é Ribeirão Pires. Na cidade o casamento tradicional é preferência de 5 em cada 10 casais. Das 52.824 uniões, 26.011 (49,2%) ocorreram na igreja e no cartório. O casamento só no civil foi escolhido por 13.637 casais (25,8%), já a união consensual foi a escolha de 12.747 (24,1%) e por último os casamentos só no religioso que somam 428, representando 0,81%.

 

Nas demais cidades a união consensual é o segundo modelo de casamento mais adotado, com percentuais ainda distantes do casamento tradicional, mas bem próximos do casamento só no civil. Para a socióloga e professora da FMABC, Silmara Conchão, o conservadorismo, a educação e a cultura das famílias do ABC, a influência da igreja e até questões econômicas moldam a a realidade da região. Mas ela estima que nos próximos levantamentos a situação pode se inverter, igualando o que já acontece na média nacional.

“No ABC a gente tem uma população muito ancorada em valores institucionais como organizações sociais, as quais podemos citar; a igreja, o sindicato, enfim uma sociedade costumeiramente pautada em valores tradicionais e por isso o casamento ainda tem um peso simbólico elevado na cultura da região. Com esse perfil de território urbanizado, com essa forte presença de igrejas, o casamento religioso mais o civil, pode ter mais valor social, mais do que em outros locais onde a informalidade da união já domina como apresentado nos números nacionais”, analisa a socióloga.

“Eu avalio a nossa região como ultra-conservadora, apesar dos avanços que tivemos na história dos direitos trabalhistas, na luta sindical do fim do século passado, ainda temos uma tradição extremamente conservadora”, continua a professora da FMABC.

Silmara Conchão cita questões econômicas que fazem a união consensual ganhar espaço frente ao conservadorismo. A influência religiosa também determina que o casamento tradicional seja a opção escolhida pela maioria. “O casamento e a separação custam caro. Os buffets, as igrejas, todo esse movimento do casamento formal ainda é um ambiente economicamente e culturalmente valorizado. Isso pode manter o casamento mais desejável ainda. Porém, mesmo com uma renda per capita maior, a região tem suas contradições. Temos um abismo muito grande de desigualdade com pessoas em situação de extrema exclusão social, mas mesmo nestes lugares a presença da igreja também é forte e ela puxa essa ideia do casamento que ainda é de expectativa muito grande da sociedade em relação aos papéis sociais dos homens e das mulheres. Portanto, essa cultura do casamento atinge as pessoas mais abastadas e também as menos favorecidas porque a igreja está firme e forte lá, determinando padrões de comportamento”.

As questões culturais também contribuem para os casamentos tradicionais, mas Silmara acredita que o ABC deve caminhar no sentido e seguir a média nacional. “Espera-se que, ao nascer, a pessoa cresça e deseje sexualmente o sexo oposto que namore, case e tenha filhos. Essa expectativa ainda é um padrão dominante, fora disso as pessoas são rotuladas como anormais. Essa transição pode estar acontecendo de maneira mais atrasada no ABC, mas que a tendência é que aqui também acompanhe o que acontece no Brasil afora, a tendência é de mudança. Essa mudança reflete alteração de valores, de economia familiar, de moradia, de religiosidade e de representações do modelo de família”.

As questões econômicas, mesmo para quem pensa em se casar pesam, principalmente para os jovens que precisam estudar mais se quiserem estabilidade e salário melhores. “A população jovem vive em um mercado precarizado, olha aí a luta contra a jornada 6×1. Se vive hoje em uma realidade de salários muito baixos, instabilidade no emprego, existe também galera que está dedicando mais tempo da sua vida a estudos, os mais abastados, mas há a dificuldade de acessar moradia, pagar financiamento ou aluguel. Festas, rituais, papéis, cartórios, tudo isso somado custa muito caro e o casamento vai sendo adiado. Então o jovem busca uma carreira e está perdendo a centralidade da religião no casamento. Esse tabu está diminuindo, o casamento já é visto por muitos não como uma obrigatoriedade, como um único caminho ou destino. Hoje para muitas mulheres casar é uma possibilidade e não mais um destino ou obrigação. Essas mudanças, no entanto, ainda não atingiram todas as mulheres”, completa a socióloga.

 

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Seção: Cidades