Publicado em 02/11/2025 - 07:58 / Clipado em 02/11/2025 - 07:58
Ensino médio reduz vagas à noite; governo diz seguir demanda mas Apeoesp contesta
George Garcia
A Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) denuncia desde 2024 que o governo paulista tem reduzido o número de salas de aula para o ensino médio noturno. Para o sindicato, a medida diminui oportunidade de estudo para jovens que, nesta faixa de idade, já trabalham para ajudar no orçamento de casa e muitos abandonam os estudos. O governo nega a redução de vagas noturnas e diz que esse é um movimento natural, pois as vagas são ofertadas conforme a demanda.
O RD publicou, este mês, reportagem sobre o Censo Escolar e nas cidades do ABC o ensino fundamental I (anos iniciais) e II (anos finais) tem taxa de abandono em índices abaixo de 0,5%, já quando a análise é feita no ensino médio a taxa ultrapassa 2%. A maior parte do abandono acontece no 1° ano desta fase de estudos.
Em 2024, um levantamento feito pela Apeoesp no ABC mostrou que 33 turmas noturnas em 12 escolas do ABC seriam fechadas para 2025. Um novo estudo está sendo preparado para aferir quantas vagas a menos o ensino médio teve na região e se mais turmas serão fechadas para 2026. Segundo a professora Maíra Machado, coordenadora da subsede de Santo André da Apeoesp, ainda não há previsão de quando esse estudo ficará pronto, porque é feito escola por escola.
Para a professora, a percepção é que isso tem aumentado. Maíra cita este como um dos problemas que afetam o ensino médio e que prejudicam a formação dos estudantes.
“Tivemos uma reforma draconiana no ensino médio nos últimos anos que foi para pior. Não sou contra as reformas, porque antes também não estava bom, mas, por exemplo, tivemos uma redução em 35% nas disciplinas de ciências humanas, em horas dá 253 horas a menos no ensino formal de ciências humanas e essa perda está também nas disciplinas de geografia, história, sociologia e filosofia. Há também perdas em outras disciplinas, como química e física”, lamenta.
Além de denunciar a redução dos cursos noturnos no ensino médio, a Apeoesp aponta que o mesmo acontece com as salas de EJA (Educação de Jovens e Adultos).
Jovens enfrentam dificuldade
O RD ouviu dois jovens em fase do ensino médio para falar sobre o assunto, um conseguiu uma vaga para estudar à noite e segue com seu curso, porém revela o drama de outros colegas que precisaram trabalhar e não conseguiram matrícula no período noturno. Outro estudante teve de sair da escola, porque precisou escolher entre trabalhar para ajudar no sustento da família ou estudar de dia, já que uma vaga à noite não lhe foi ofertada.
A jovem J. estuda na escola estadual Joaquim Moreira Bernardes, no Jardim Silvina, em São Bernardo. Conta que no ano passado, quando iniciou o 2° ano do ensino médio, optou por estudar à noite, porque precisava trabalhar, porém para se matricular neste ano, teve medo de não conseguir vaga no noturno novamente.
“Esse ano foi um baque, porque teve muito fechamento de sala. Aqui na escola temos agora quatro turmas de médio, sendo três terceiros anos e uma de segundo. Tenho colegas que precisavam do primeiro ano noturno e não tem sala. Com isso houve uma superlotação das turmas no período da manhã e isso sobrecarrega os professores”, relata.
M. é um dos alunos que não conseguiu vaga noturna na mesma escola do Jardim Silvina. O jovem, que tem o sonho de trabalhar na área financeira, se viu em uma situação difícil de escolher entre o trabalho e os estudos, e a necessidade urgente da família falou mais alto.
“Infelizmente eu não consegui a vaga, queria muito poder voltar a estudar e completar minha escolaridade, mas os horários não me ajudam no momento, e tive de arrumar um serviço”, conta M., que conseguiu emprego em um estabelecimento comercial onde lava carros.
O jovem pretendia se matricular no 1° ano do ensino médio no período noturno e tem a compreensão de que completar o estudo é necessário para encontrar melhores opções de trabalho. “A escolaridade é a base de tudo, mas infelizmente a realidade é diferente, muitos como eu têm de sair da escola para ajudar em casa”, afirma.
‘Sonho ser gerente de banco’
M. pretende fazer um curso supletivo e concluir a formação escolar básica de forma mais rápida. Ele quer voltar a estudar em 2026 e não vai desistir do sonho de trabalhar com finanças. “O meu sonho sempre foi o lado financeiro, gosto de estudar e analisar essa parte, ser um gerente de banco, quem sabe? Só não podemos deixar de sonhar e acreditar, mesmo a realidade sendo outra”, completa.
A Secretaria de Educação do governo do Estado diz que as vagas dependem da demanda, que só quem comprova vínculo de trabalho tem preferência nessas turmas noturnas e que tem notado redução da demanda em contrapartida com o crescimento da procura por cursos técnicos e pelo período integral.
Falta informação da Secretaria de Educação
O RD perguntou, mas a secretaria não informou, quantas vagas as escolas do ABC tinham para três anos do ensino médio, em 2022, 2023, 2024 e 2025 e nem quantas estão previstas para 2026. Veja a seguir a íntegra da nota:
“A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) esclarece que não há descontinuidade no atendimento aos estudantes do período noturno nas escolas estaduais do ABC. Todos os alunos seguem com suas turmas normalmente até a conclusão do ciclo. O ensino médio noturno é prioritariamente destinado a estudantes que comprovem vínculo de trabalho, conforme a Resolução Seduc nº 115/2025. A abertura de novas turmas depende dessa demanda específica, e a realocação de alunos é feita de forma planejada, com transporte garantido para quem residir a mais de 2 km da escola”.
“A variação no número de turmas acompanha uma tendência demográfica estadual, além do crescimento do ensino integral e técnico — este último com aumento de 314% nas matrículas entre 2023 e 2025. Para 2026, estão previstas novas turmas em 16 escolas de São Bernardo e São Caetano, além da ampliação da EJA na região. A Seduc-SP reforça que não há previsão de fechamento de turmas de ensino médio ou de EJA e que a oferta seguirá sempre que houver demanda comprovada”.
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Seção: Educação