Publicado em 27/10/2025 - 18:24 / Clipado em 27/10/2025 - 18:24
Idosos representam 40% das mortes por atropelamento nas ruas e avenidas do ABC
George Garcia
Os números do Infosiga (Sistema de Informações Gerenciais de Sinistros de Trânsito) do DetranSP mostram que em setembro deste ano nove pessoas morreram ao serem atropeladas nas ruas, avenidas e calçadas da região, número idêntico ao do mês anterior. Em todo ano foram 57 pedestres mortos no ABC, 23 deles, ou 40,35%, tinham 60 anos ou mais. Barreiras físicas nas calçadas, o estreitamento do espaço para o pedestre, distrações e imprudência aumentam as chances dos acidentes como estes, alertam especialistas.
De acordo com o Infosiga, dos 194 mortos no trânsito do ABC de janeiro a setembro deste ano, 57 eram pedestres. Em dez anos, desde 2015, quando o Infosiga começou a mapear os acidentes, 766 pedestres morreram na região, em média seis mortes por mês.
Dos atropelamentos fatais, 10 tiveram como vítimas pessoas até 30 anos de idade; entre 30 e 60 anos foram 23 mortes e outras 23 pessoas maiores de 60 anos morreram atropeladas no período. A conclusão é que os atropelamentos fatais são mais numerosos conforme a idade da vítima aumenta. Os homens são maioria das vítimas de atropelamento com morte e correspondem a 67%.
Para o urbanista e coordenador adjunto do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário da FSA (Fundação Santo André), Enrique Staschower, diversos fatores contribuem para essa situação e todos estão ligados ao aparelhamento do sistema de trânsito. “É a conjunção de várias situações; desde a preponderância dos carros, sensação de impunidade, licenciamento de veículos em volume maior versus um sistema viário ultrapassado. Além disso a população envelheceu e os cuidados com o pedestre diminuíram”, aponta.
O RD publicou em recente reportagem, que é dada mais atenção ao pavimento por onde trafegam os veículos do que os locais destinados aos pedestres, que estão cheios de problemas para a circulação de pessoas, principalmente aquelas com mobilidade reduzida. Calçada estreita, com árvores e postes ocupando grande parte do passeio público, lixo, buracos, piso irregular com partes soltas, degraus e a exploração da calçada por comerciantes são alguns pontos que fazem com que as pessoas prefiram trafegar pelo asfalto, se arriscando entre os carros. “Nossas secretarias responsáveis pela mobilidade consideram que devem cuidar da fluidez, levando carros rapidamente de um lugar a outro, para alcançar o próximo congestionamento”, diz Staschower.
O professor cita ainda situações em que o pedestre e o motorista de distraem com o celular, o que é um importante fator que pode gerar acidentes. “As pessoas estão imersas no mundo virtual, com os riscos do mundo real”, completa o urbanista.
Na ótica do Direito, a legislação de trânsito é moderna e aplica penas pesadas, mas sua aplicação não impede que os crimes de trânsito continuem ocorrendo. Segundo o professor da Universidade São Judas, mestre em Direito Penal pela USP (Universidade de São Paulo), especialista em Direito Penal Econômico, Matheus Herren Falivene de Sousa, falta aos motoristas a disciplina e a credibilidade nas leis de trânsito. “A nossa legislação é avançada, ela tipifica o homicídio culposo (sem intenção) e o homicídio doloso, o problema está na implementação, pois nem a lei mais avançada vai impedir os crmes de trânsito. Há uma sensação de impunidade em que o motorista acredita que pode abusar da velocidade que não vai acontecer nada, que ele pode beber e pegar o carro que está tudo bem. O problema é o ser humano. Quando a gente junta isso às calçadas com problemas, vias que só priorizam os carros e os idosos que têm mais dificuldades de locomoção temos esse cenário”, aponta.
O professor da São Judas lembra o acidente ocorrido em abril deste ano, que vitimou duas jovens de 18 anos, atropeladas na faixa de pedestres por um veículo acima da velocidade máxima permitida na avenida Goiás, em São Caetano. “A cidade tem vias adequadas e um bom monitoramento do trânsito, nem isso conseguiu impedir a tragédia. Por tanto nem a lei mais avançada impede, porque há essa sensação de impunidade”, comenta.
Segundo Sousa, a fiscalização não é eficiente e com isso se permitem os obstáculos de todo o tipo para o pedestre. “A calçada é um problema histórico, as cidades foram construídas e começaram a crescer em um período em que não se tinha uma legislação urbanística, as casas nos anos 50 e 60 foram feitas com o recurso que se tinha e as calçadas não eram prioridade, agora há um custo muito alto para se regular isso, e as prefeituras não fiscalizam. Na prática fiscalizar onera o morador e se torna uma medida muito impopular, por isso os municípios não fazem por questões políticas”, diz o advogado.
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Seção: Cidades