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Publicado em 26/10/2025 - 08:07 / Clipado em 26/10/2025 - 08:07

ABC tem mais de 3 mil casos de gravidez na adolescência em dois anos e meio


Amanda Lemos 

 

Entre janeiro de 2023 e julho de 2025, cinco das sete cidades do ABC registraram mais de 3 mil casos de gravidez na adolescência, segundo dados das prefeituras. Os números preocupam, uma vez que a questão vai além da saúde reprodutiva e envolve também fatores sociais, educacionais e econômicos, já que pode afetar o desenvolvimento físico e emocional das jovens. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde consideram a gravidez precoce um problema de saúde pública.

Na região, os números refletem a preocupação de especialistas. Em Santo André, por exemplo, o crescimento do número de meninas grávidas tem chamado atenção: desde 2020, 2.207 adolescentes entre 10 e 19 anos fizeram acompanhamento pré-natal na rede pública. Os registros saltaram de 121 casos em 2020 para 630 em 2024. Só até julho deste ano, já foram contabilizados 245 atendimentos.

Segundo a Secretaria de Saúde, a maior parte das adolescentes dá à luz no Hospital da Mulher, e há alta taxa de reincidência: uma em cada cinco engravida novamente nos dois primeiros anos após o parto. Apesar disso, o município oferece métodos contraceptivos gratuitos – como DIU e implante subdérmico -, promove ações educativas nas escolas e mantém grupos de planejamento familiar em todas as Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Casos de vulnerabilidade são encaminhados ao Conselho Tutelar, CRAS, CREAS e CAPS, para acompanhamento multiprofissional.

Desinformação

Em São Bernardo, o levantamento mostra 1.277 partos de adolescentes entre 2023 e 2025. O município mantém grupos de planejamento familiar e distribui contraceptivos em todas as UBSs, que incluem métodos de longa duração. Já Diadema registrou 570 partos de adolescentes no mesmo período e destaca a falta de informação sobre sexualidade como um dos maiores desafios.

Em São Caetano, foram 92 adolescentes acompanhadas pela rede municipal desde 2023, enquanto Rio Grande da Serra registrou 76 gestações no mesmo intervalo. Nesses municípios, as ações de prevenção ocorrem principalmente por meio do Programa Saúde na Escola (PSE), com palestras, rodas de conversa e distribuição de métodos contraceptivos.

 

Mauá e Ribeirão Pires não responderam ao levantamento até o fechamento desta edição.

Consequências físicas e emocionais

O ginecologista e obstetra Eduardo Famá, professor do Centro Universitário FMABC, explica que engravidar com o corpo ainda em formação aumenta significativamente os riscos à mãe e ao bebê. “Durante a adolescência, há uma competição por nutrientes entre o crescimento materno e o desenvolvimento fetal, o que pode resultar em baixo peso ao nascer, parto prematuro e restrição de crescimento intrauterino”, explica.

O especialista alerta que, além dos riscos imediatos, a gestação precoce pode trazer consequências de longo prazo, como déficits nutricionais, comprometimento da saúde óssea e reprodutiva, maior chance de nova gravidez precoce e impactos psicológicos. “O parto vaginal pode ser mais difícil por conta da imaturidade pélvica, o que aumenta o risco de complicações e necessidade de cesárea”, completa.

Do ponto de vista do psicólogo Lucas Almeida, que atende adolescentes em consultório particular e atua em programas de saúde mental, a gravidez precoce pode afetar fortemente a vida emocional e social das jovens. “Além do impacto psicológico imediato, como ansiedade, depressão e sentimento de culpa, muitas adolescentes enfrentam isolamento, preconceito e dificuldade para retomar os estudos ou planejar a carreira”, afirma.

Almeida destaca que o apoio familiar, escolar e da rede de saúde é determinante neste momento para reduzir os efeitos negativos e permitir que a adolescente tenha um desenvolvimento mais equilibrado.

Educação sexual e acesso à informação

Para o médico, a prevenção passa por educação sexual integral, acesso facilitado a métodos contraceptivos e acolhimento sem julgamento nos serviços de saúde. “O SUS oferece contraceptivos gratuitamente, mas muitos adolescentes enfrentam vergonha, medo ou preconceito ao procurar atendimento. Falta informação clara, diálogo nas famílias e capacitação de profissionais para lidar com essa faixa etária”, avalia.

O especialista reforça que o pré-natal é essencial para monitorar o crescimento fetal, identificar complicações e garantir suporte psicossocial. “O início precoce e regular do pré-natal permite detectar riscos e orientar sobre nutrição, higiene e amamentação, reduzindo desfechos negativos”, afirma.

Desafios e caminhos

As prefeituras da região apontam tabus familiares, vulnerabilidade social, evasão escolar e dificuldade de adesão aos métodos contraceptivos como os principais desafios. Santo André, por exemplo, pretende ampliar ações nas escolas por meio do Programa Saúde na Escola (PSE) e fortalecer o acesso aos contraceptivos de longa duração para reduzir o número de gestações precoces. “Combinar informação de qualidade, acolhimento e acesso aos métodos contraceptivos é o caminho para mudar esse cenário”, completa Famá.

 

https://www.reporterdiario.com.br/noticia/3724238/abc-tem-mais-de-3-mil-casos-de-gravidez-na-adolescencia-em-dois-anos-e-meio/

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Seção: Cidades