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Publicado em 26/10/2025 - 08:06 / Clipado em 26/10/2025 - 08:06

Abandono do estudo é maior no ensino médio do ABC e preocupa educadores


George Garcia 

 

De acordo com o Censo Escolar enquanto no ensino fundamental I (do 1° ao 5° ano) e fundamental II (do 6° ao 9° ano) o abandono dos estudos se manteve, no ensino médio o problema é crescente. Os números apontam que o abandono é pior no primeiro ano do ensino médio e educadores enxergam a queda de oportunidade para o jovem que já trabalha estudar, com o fechamento de salas do período noturno. Além disso, há a situação em que o estudante, principalmente de baixa renda, não se identifica ou não enxerga no estudo uma oportunidade de uma carreira e salários melhores.

Para o especialista em educação André Stábile, diretor do Instituto Educacionista e ex-secretário de Educação de São Caetano, políticas de remuneração, como o programa federal Pé de Meia, não adiantam se não houver mudanças no ensino que tragam perspectivas para os jovens. E isso passa pelo aumento dos cursos técnicos, que garantem qualidade do ensino e empregabilidade maior.

“Quando você tem esses indicadores de abandono e evasão altos, demonstra que o setor público não tem um projeto estrutural, porque há muito tempo que a gente tem esse problema de gargalo, os jovens chegam com uma formação precária do ensino fundamental e no médio, com as dificuldades de aprendizagem, combinado com o fator dessa premente vulnerabilidade das famílias, que muitas vezes precisam do jovens para complementar a renda”, analisa.

 

Além da necessidade de trabalho, segundo Stábile, o ensino público não oferece perspectivas para um projeto de vida. Afirma que não adianta tentar remunerar com políticas meramente compensatórias a permanência desses jovens na escola porque, além da verba ser insuficiente.

“O pensamento sobre o Pé de Meia é muito limitado, é prisioneiro do curto prazo, ele não está estruturado na perspectiva de que o ensino médio seria ponto de chegada para o projeto de vida se ele fosse bem estruturado, se tivesse boas condições de financiamento, se a oferta de cursos técnicos profissionalizantes fosse muito maior”, diz Stábile.

Trabalho x estudo

Stábile aposta no ensino médio técnico como um bom investimento. Comenta que a gente sonha que o Brasil tivesse uma metade dos cursos do ensino médio técnicos e outra metade de caráter universal. Quando é técnico profissionalizante e de alto nível, 80% dos jovens já estão empregados entre o segundo e terceiro ano.

“Basta ver os nossos bons colégios técnicos do ABC, como o Sesi, Senai, a ETE, Etec e Termomecanica que são escolas de ponta e exigentes, ali quase não tem evasão, mas não é pelo Pé de Meia, é pela concepção da escola que o tempo todo visa apoiar o projeto de vida dos alunos. Temos de investir nas mentes e esse trecho do ensino médio é crucial, uma fronteira, um divisor de águas da escola com a perspectiva da vida adulta na universidade ou no mercado de trabalho, mas os meninos estão falando inglês no médio? Muito pouco, aliás até a língua portuguesa é muito difícil, seguramente menos de 10% dominam o que se espera deles em matemática, por exemplo. Estão fingindo que se faz escola só para sustentar indicadores, a gente não melhorou nos últimos 40 anos. No instituto Educacionista estamos trabalhando na formação de professores, aí teremos mais impacto para diminuir a evasão e abandono”, completa.

Para a professora Maíra Machado, coordenadora da regional de Santo André da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), do caso da rede pública estadual, o jovem de baixa renda, quando chega ao ensino médio, já trabalha, ainda que de forma precária, porque não tem ainda uma formação, e com menos salas no período noturno começa a faltar e até abandonar a escola.

“Tem aluno que falta muito, mas não abandonou a escola, mas o Estado aponta como abandono e ele acaba excluído, alguns voltam outros não. Outra coisa é a ‘plataformização‘, em que muitos alunos não se identificam com o conteúdo, acham inútil para suas vidas e ele se desapega”, analisa a coordenadora da Apeoesp.

Mas, na visão de Maíra, o fechamento do período noturno é o maior problema que leva a evasão. O Censo Escolar considera como abandono aquele aluno que deixa de frequentar as aulas mas volta no semestre ou ano seguinte. O censo não aponta a evasão escolar, que é quando o aluno não volta mais para a escola.

Visão ilusória

Maíra conta que em Santo André, por exemplo, têm poucas salas do noturno e isso leva a evasão. O jovem precisa da mobilidade de horários para trabalhar e estudar, se ele não encontra fica sem opção e não conclui os estudos. O jovem também deixa de acreditar que o estudo pode melhorar sua vida, ainda mais no ensino médio que tem menos das matérias formais, como português, matemática, geografia etc e tem mais outras disciplinas que não se identificam com a vida dele. Esses itinerários formativos se descolam da realidade de muitos alunos. Também se incentiva o empreendedorismo com uma visão ilusória de que trabalhar com transporte por aplicativo pode trazer futuro e tem muito jovem que fala mal do trabalho formal com carteira assinada”, explica.

As condições da escola pública também não atraem os alunos. “Quando o Estado não fornece o mínimo, que é funcionário para manutenção e as atividades normais do colégio, o aluno também não se interessa pelo estudo. Na escola Clotilde Peluso, onde eu dou aula, está sem nenhum funcionário. Os contratos vencem e como está no fim do ano, fica sem”, denuncia.

 

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Seção: Educação