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Publicado em 13/10/2025 - 18:27 / Clipado em 13/10/2025 - 18:27

Na região, 4 em cada 10 preferem usar carro ou moto em vez do transporte público


George Garcia 

 

Levantamento divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostra que o transporte individual, por carro ou moto, é a principal forma de deslocamentos no País. No ABC, a realidade não é diferente. Na região 36,75% fazem deslocamento de carro e 6,04% de moto. Quem prefere o transporte público, como ônibus ou sobre trilhos, corresponde a 30,51% e 6,42%, respectivamente. Com as ruas e avenidas cheias de veículos, a realidade é que 28,43% dos moradores da região levam até uma hora para fazer o trajeto só de ida para o trabalho e 18,34% levam até duas horas. Praticamente metade dos trabalhadores da região perde de duas a quatro horas todos os dias para ir e voltar do trabalho.

A pesquisa “Censo 2022: Deslocamentos para trabalho e para estudo”, mostrou que muitas pessoas ou perderam a confiança na eficiência e qualidade do transporte público, ou não querem pagar por ele, por isso 13,5% preferem andar do que usar o sistema de transporte. Outro modal de transporte que vem sendo incentivado como forma de transporte sustentável e uma solução para as grandes cidades, é a bicicleta, mas de acordo com o universo da pesquisa, que é baseada no Censo, só um em cada 100 trabalhadores da região  opta por pedalar, 1,07% exatamente. Táxi, mototáxi e transporte por aplicativos correspondem, juntos, a menos de 1% dos deslocamentos para o trabalho.

Para a urbanista especializada em sistemas de transporte e professora da UFABC (Universidade Federal do ABC) Silvana Maria Zioni, a pesquisa traz um retrato muito fiel da mobilidade no país e é uma constatação é a de que não há um transporte público suficiente e com qualidade para todos. “Por isso as regiões metropolitanas com grande aglomeração dependem do automóvel, que é o pior modal em termos de sustentabilidade e eficiência. Estamos presos em um modelo de desenvolvimento ligado ao automóvel”, analisa.

Para a especialista em transportes o ABC tem um histórico que poderia ter resultado em um modelo melhor e mais sustentável para o transporte de massa. “A região historicamente foi formada ao longo dos trilhos e há 25 anos o consenso é de que os trilhos deveriam ser melhorias, mas há uma demora absurda e isso não é uma questão tecnológica é mesmo uma política a favor do carro e da moto, que são ineficientes físico, econômico e socialmente, principalmente com a morte de muitos jovens motociclistas”, diz a professora em alusão aos acidentes fatais envolvendo motos que lideram as estatísticas das mortes no trânsito.

Para Silvana, o atual modelo de concessões dos sistemas de transporte público se mostrou ineficiente para a melhoria da qualidade do serviço. “O transporte é um serviço público, um direito social que está sendo negado. Um exemplo é o ABC, uma região que tem no seu DNA o desenvolvimento econômico mas que tem uma situação do transporte público tão precária como a de qualquer rincão do Brasil. Temos um BRT que é dos anos 80, sem investimento em trilhos enquanto isso os investimentos no vário foram muito maiores. Há mais de 20 anos que a gente constata isso e mudou muito pouco o que só confirma as medidas políticas equivocadas”, completa.

Para quem usa o transporte público diariamente e pega mais do que uma condução para chegar ao trabalho relata uma jornada a mais no ônibus ou no trem, além da jornada normal de trabalho. Vagner Cipriano de Alencar, de 36 anos, mora em Ribeirão Pires e usa o trem e o ônibus do corredor metropolitano para chegar ao trabalho no bairro Planalto, em São Bernardo. Ele faz esse trajeto em um hora e trinta minutos. Para retornar ele demora mais, ou seja, todos os dias ele perde no transporte público pelo menos três horas, tempo que ele perde de descanso, convivência familiar, ou que poderia ser gasto em estudo ou qualificação profissional.

“Na ida tudo vai muito bem. O trem, por serem poucas estações, vou em pé mesmo do Guapituba até a estação Santo André. Depois pego o trólebus e como é início de linha, sempre espero o ônibus para ir sentado. O intervalo de espera da linha 287 é de 5 minutos no horário de pico”, contabiliza.

Mas para voltar Alencar leva mais tempo e pega mais uma condução para chegar logo em casa. “Já a volta sempre leva um pouco mais de tempo, quase duas horas. Às vezes espero quase cinco ônibus passarem por já vir lotado do terminal Diadema e Piraporinha. Por causa do cansaço além do trem, desço em Ribeirão Pires e espero a linha municipal Vila Gomes, que passa na rua da minha casa”, relata.

Apesar da demora, Alencar prefere o uso do transporte coletivo a ficar mais de duas horas por trajeto dentro de um carro. “Eu ainda prefiro mil vezes enfrentar um trem lotado, do que perder mais de duas horas no trânsito. Mesmo que seja dentro de um carro com ar condicionado”, destaca.

O morador de Ribeirão Pires diz que essa jornada no transporte vai acumulando cansaço e, somada a jornada de quase dez horas de trabalho, de segunda à sexta-feira, torna o final de semana um objetivo a ser alcançado. Alencar mora com a mãe, que também faz uso do transporte público para trabalhar. Com isso os dois chegam em casa cansados, até tomar o banho para relaxar e o jantar, vão mais algumas horas. “Raramente vamos dormir antes das 22h. Na sexta-feira bate o cansaço, aí chega o fim de semana, quando tem que arrumar a casa, lavar roupa, preparar as marmitas para a semana, quando dá vou ao culto de domingo. A vantagem do sábado e domingo é estar liberado para acordar sozinho sem o despertador”, completa.

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Seção: Cidades