Publicado em 10/10/2025 - 18:35 / Clipado em 10/10/2025 - 18:35
Polícia fecha fábrica em São Bernardo (SP) que produziu bebidas ligadas a 2 mortes por metanol
- Local vendeu garrafas com até 45% de metanol para bar na zona leste onde vítimas consumiram bebida
- Fábrica comprava etanol contaminado de postos de gasolina; Derrite descarta envolvimento do crime organizado
Luísa Monte
Laiz Menezes
São Paulo
A Polícia Civil de São Paulo localizou nesta sexta-feira (10), em São Bernardo do Campo, na região metropolitana, uma fábrica clandestina suspeita de produzir bebidas alcoólicas adulteradas com metanol para serem distribuídas a outros estabelecimentos. A proprietária foi presa no local, e o marido dela é procurado sob suspeita de envolvimento.
Segundo a SSP (Secretaria da Segurança Pública), os agentes chegaram até a fábrica após investigarem a morte de duas vítimas por intoxicação com metanol: Ricardo Lopes, 54, que passou mal em 12 de setembro e morreu quatro dias depois; e Marcos Antônio Jorge Júnior, 46.
A investigação aponta que ambos consumiram bebida alcoólica no bar Torres, na Mooca (zona leste de São Paulo), já interditado pela Vigilância Sanitária. A SSP diz que equipes apreenderam nove garrafas no bar e que peritos detectaram a presença de metanol em oito delas, com percentuais que variavam de 14,6% a 45,1%.
Bebidas e garrafas vazias, além de aparelhos celulares, foram apreendidos em fábrica clandestina em São Bernardo do Campo (SP), nesta sexta (10) - Divulgação Polícia Civil
Em comunicado divulgado no Instagram, o bar Torres afirmou que colabora com as autoridades e que "todas as bebidas são originais, adquiridas apenas de fornecedores oficiais e com nota fiscal, garantindo procedência e confiança".
De acordo com o superintendente da Polícia Técnico-Científica, Claudinei Salomão, 1.800 garrafas já foram apreendidas em diversos estabelecimentos. Destas, 300 foram periciadas, e cerca de metade apresentou de 10% a 45% de metanol.
Salomão disse que tais concentrações de metanol são extremamente altas e prejudiciais à saúde. Segundo ele, em alguns recipientes as autoridades encontraram apenas metanol, sem álcool etílico.
Em entrevista coletiva na tarde desta sexta, o secretário da Segurança Pública do estado, Guilherme Derrite, disse que a fábrica em São Bernardo do Campo comprava etanol adulterado com metanol de postos de combustíveis. A substância era misturada a bebidas destiladas, que foram vendidas para distribuidoras e, em seguida, para os bares, a exemplo do bar Torres.
A investigação ainda apura a possível relação dessa fábrica em São Bernardo com as mortes de outras duas pessoas: Marcelo Macedo Lombardi, 45, e Bruna Araújo de Souza, 30, mortos em 28 de setembro e 6 de outubro, respectivamente.
Agora as autoridades investigam qual posto ou rede de postos forneceu o etanol adulterado com metanol que abasteceu a fábrica e a distribuidora de bebidas. Derrite lembrou que comprar etanol em posto para produzir bebida alcoólica é ilegal, mas disse que os responsáveis podem não ter percebido que o produto estava contaminado com metanol.
Ele afirmou que, ao identificar a origem das bebidas adulteradas, as autoridades podem concentrar a fiscalização em locais específicos. Segundo o secretário, não há indícios de que o problema da contaminação com metanol esteja capilarizado no estado.
Derrite ainda voltou a dizer que não há indícios de que facções criminosas como o PCC (Primeiro Comando da Capital) estejam envolvidas com a adulteração de bebidas.
"Até aqui não tem nenhum indício. O que aconteceu, que nós estamos concluindo, é que criminosos foram prejudicados por uma organização criminosa", afirmou. "Então, o crime organizado, lucrando exponencialmente, tanto com a a lavagem de dinheiro, usando CNPJ dos postos de combustíveis, e lucrando com a adulteração do etanol com o metanol, na verdade essa organização criminosa prejudicou esses criminosos que fazem a adulteração da bebida", acrescentou.
"Agora, ligação entre eles parece não haver, não tem nenhum indício até aqui de que eles estejam, de fato, juntos nesse processo, nessa cadeia ilícita. Até porque nenhum criminoso preso ou investigado é faccionado, eles não têm a mesma centralização de advogados, isso que é característico da própria organização criminosa", concluiu o secretário.
Na última terça (7), o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, disse que a Polícia Federal investiga se o metanol usado nesses casos é o mesmo que teria sido abandonado após ação policial contra a infiltração do crime organizado em postos de combustível e no setor financeiro.
Garrafas, bebidas, aparelhos celulares e outros itens foram apreendidos e encaminhados para perícia. Os produtos e os suspeitos são investigados pela Polícia Civil.
Além de São Bernardo do Campo, foram vistoriados endereços em São Caetano do Sul e na capital paulista. Ao todo, oito suspeitos foram encaminhados à delegacia.
O estado de São Paulo tem 23 casos casos confirmados de intoxicação por metanol e outros 148 em investigação, de acordo com balanço divulgado nesta quinta-feira (9) pela Secretaria de Estado da Saúde. Quanto às mortes, são cinco confirmadas e seis em investigação.
Veículo: Online -> Portal -> Portal Folha de S. Paulo
Seção: Saúde