Publicado em 09/10/2025 - 21:14 / Clipado em 09/10/2025 - 21:14
Censo 2022: veja qual é a cidade com maior renda per capita no país. Spoiler: não fica em São Paulo nem no Distrito Federal
Dados do Censo sobre emprego e renda, divulgados nesta quinta-feira pelo IBGE, trazem detalhes por município e evidenciam desigualdades estruturais que ainda perduram entre as regiões do país
Por Vinicius Neder — Rio de Janeiro
Nova Lima (MG), na região metropolitana de Belo Horizonte, polo de mineração e berço de bairros residenciais de alto padrão para quem trabalha na capital mineira, é a cidade de maior renda do país, segundo dados do Censo 2022, informou nesta quinta-feira o IBGE. Na outra ponta, o município de menor renda é Uiramutã (RR), na tríplice fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana, considerada a cidade mais indígena do país.
De 2022 para cá, a retomada da economia após a pandemia de Covid-19 impulsionou o mercado de trabalho para seu melhor momento da história, ao passo que o aumento dos valores das políticas de transferência de renda derrubaram a pobreza, mas esses movimentos mais recentes só aparecem nos dados nacionais, estaduais ou, no máximo, no nível das capitais.
Apesar de mais antigos, os dados do Censo trazem os detalhes por município. E eles evidenciam desigualdades estruturais que ainda perduram entre as regiões do país, mesmo que a situação geral tenha melhorado.
Renda do mais rico é 15 vezes maior do que a do mais pobre
O rendimento domiciliar per capita — que considera o valor mensal disponível para todos os moradores do domicílio, incluindo quem não tem renda, como crianças ou idosos que não sejam aposentados — de Nova Lima é 15 vezes maior do que o de Uiramutã.
Além disso, em 520 (ou 9,3%) dos 5.571 municípios do país, o rendimento médio do trabalho era inferior a um salário mínimo (R$1.212, em valores de 2022). Por outro lado, em apenas 19 cidades, a renda média por trabalhador ficou acima de quatro pisos (R$ 4.848, também em valores da época), mostram os dados do Censo.
Um retrato da desigualdade é o ranking dos municípios por peso da renda do trabalho no total dos ganhos das famílias — o trabalho responde por entre 70% e 75% do total dos ganhos, segundo diferentes pesquisas do IBGE; o restante vem de aposentadorias, pensões, programas sociais e de transferência de renda, aplicações financeiras, lucros e aluguéis de imóveis.
Segundo o Censo 2022, na média nacional, 75,5% do rendimento domiciliar veio do trabalho, enquanto 24,5% vieram de outras fontes. Só que, dos 5.571 municípios do país, 4.296, ou 77% do total, registraram uma participação da renda do trabalho no ganho domiciliar abaixo da média nacional.
Em Uiramutã, 51,9% dos ganhos domiciliares vêm do trabalho. A cidade já apareceu como destaque negativo em outras pesquisas socioeconômicas, como o Índice de Progresso Social (IPS), uma metodologia internacional que calcula o bem estar da população a partir de dados oficiais.
Nas primeiras divulgações do Censo 2022, se destacou porque 96,6% dos habitantes de lá são indígenas. Boa parte da cidade é ocupada pela Terra Indígena Raposa Serra do Sol, lar dos povos Ingarikó, Macuxi, Patamona, Taurepang e Wapichana.
Os dez municípios com as menores participações do rendimento de todos os trabalhos no ganho domiciliar total estão no Nordeste, seis deles no Piauí. O último do ranking é Vera Mendes (PI), com apenas 23%, um sinal de que o mercado de trabalho local vai mal e, portanto, as famílias dependem de outras fontes, como os programas sociais, para se sustentar.
Agronegócio aquece mercado de trabalho em Mato Grosso
O mercado de trabalho se mostra mais aquecido nas cidades movimentadas pelo agronegócio, no Centro-Oeste, com destaque para Mato Grosso. Oito das dez cidades no topo do ranking são mato-grossenses, com Querência na liderança. Por lá, na média, 93,7% dos ganhos domiciliares vêm do trabalho.
Em Nova Lima, 84,5% dos ganhos vêm do trabalho. A cidade é tradicional na mineração. Foi pioneira na extração de ouro e sedia unidades da Vale — os complexos mineradores de Vargem Grande e Paraopeba, além de uma usina de pelotização. A 45 minutos de carro de Belo Horizonte, também serve de residência para quem trabalha na capital mineira.
Bruno Mandeli, pesquisador do IBGE, ressaltou que essa última característica está presente em outras cidades no topo do ranking da renda per capita no país. É o caso de São Caetano do Sul (SP), Niterói (RJ) e Santana de Parnaíba (SP).
— São cidades de porte médio dentro de regiões metropolitanas. E local de residência de pessoas de renda maior — explicou Mandeli.
Reflexo da desigualdade regional da economia
Bruno Imaizumi, economista da consultoria 4intelligence, especialista em mercado de trabalho, ressaltou que a dinâmica de emprego e renda reflete as desigualdades regionais da economia. Como as desigualdades no desenvolvimento regional são uma marca da economia brasileira, o mesmo ocorre com o mercado de trabalho.
— O mercado de trabalho nunca é causa, mas, sim, consequência. Então, se há desigualdades e discrepâncias regionais, não é por conta do mercado de trabalho. O mercado de trabalho é um retrato de outras desigualdades entre regiões — explicou Imaizumi.
Segundo o economista, embora, de 2022 para cá, o mercado de trabalho tenha melhorado, a ponto de fomentar o debate sobre se o Brasil estaria em situação de pleno emprego, nada indica que tenha havido “tanta melhoria” na questão das desigualdades.
Nos dados conjunturais da Pnad-C, a taxa de desemprego de 5,8% registrada no segundo trimestre no plano nacional, nas mínimas históricas, era composta por uma taxa de 2,2% em Santa Catarina, a menor do país, e pelos 10,4% de Pernambuco, a maior.
Melhoria é mais recente
Segundo o diretor do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV Social), Marcelo Neri, os dados do Censo 2022 ainda refletem um momento de estagnação no processo de redução das desigualdades de renda no país.
Após um movimento de redução da pobreza e ascensão da chamada "classe C", entre o ano 2000 e a metade dos anos 2010, que levou a alguma queda nas desigualdades, as discrepâncias de renda, e a pobreza, voltaram a subir nos últimos dez anos, período marcado pela grande recessão de 2014 a 2016 e pela pandemia de Covid-19.
— Em 2023 a pobreza cai, mas a desigualdade só cai em 2024 e 2025. As boas notícias, olhando para o país como um todo em termos de desigualdade, só vão chegar mais recentemente — afirmou Neri.
Citando os dados conjunturais da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C), o diretor do FGV Social afirmou que de 2022 para cá houve um maior dinamismo do aumento das rendas, tanto do trabalho quanto de outras fontes, no Nordeste, mas ainda é cedo para saber quais poderão ser os efeitos em termos das desigualdades regionais.
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