Publicado em 21/09/2025 - 08:04 / Clipado em 21/09/2025 - 08:04
Ruas do ABC viram depósito com mais de 3 mil carros abandonados em 2025
Amanda Lemos
Carros abandonados, com pneus murchos, vidros quebrados e marcas de ferrugem se multiplicam pelas ruas do ABC e transformam vias públicas em verdadeiros depósitos a céu aberto. O cenário, além de degradar a paisagem urbana, é um risco para a saúde pública, segurança e mobilidade urbana.
Levantamento do RD feito junto às prefeituras da região mostra que, apenas entre janeiro e agosto de 2025, quatro municípios da região somaram mais de 3,3 mil notificações de veículos abandonados, o que tem preocupado especialistas e mostra a dimensão do problema.
Dentre as cidades, Diadema é a que apresenta o avanço mais explosivo: 1.330 carros foram notificados neste ano, contra 565 no mesmo período de 2024, uma alta de 135%. O impacto também aparece no número de remoções: 853 veículos foram recolhidos em 2025, contra apenas 120 no ano passado.
Em Santo André, a Operação Carro Abandonado contabilizou 750 notificações de abandono até agosto. Em sua maioria, os veículos foram retirados pelos próprios donos após a advertência (667 casos), mas 73 destes ainda precisaram ser guinchados, segundo a Prefeitura. Já o número de notificações é semelhante ao de 2024 (794), embora naquele ano 148 veículos tenham ido para o pátio municipal.
São Bernardo autuou 1.291 proprietários em 2025, contra 1.062 em 2024. Para enfrentar a demanda, a Prefeitura implantou sistema digital que organiza as fiscalizações e passou a realizar operações intensivas em bairros com maior concentração de ocorrências.
Em Rio Grande da Serra, até agosto, a cidade não tinha respaldo jurídico para remover veículos, já que a lei anterior perdeu validade em 2024. A mudança só ocorreu em 22 de agosto de 2025, quando foi sancionada a nova legislação que permite o recolhimento de automóveis em estado de abandono. Por este motivo, ainda não há dados.
As prefeituras de Ribeirão Pires, Mauá e São Caetano não responderam até o fechamento da reportagem.
Impactos vão além da estética
Além da poluição visual, os veículos abandonados também representam ameaça sanitária e ambiental. Os pneus acumulam água parada e viram criadouros de dengue, chikungunya e zika. Além disso, as latarias enferrujadas e vidros quebrados podem ferir pedestres, enquanto os carros depredados servem de esconderijo para criminosos.
Em entrevista ao RD, o engenheiro e professor do Instituto Mauá de Tecnologia, Wanderlei Marinho, explica que a deterioração é inevitável quando o carro é deixado ao relento. “Um veículo abandonado sofre a ação direta do sol e da chuva: a pintura desbota, o interior cria mofo e a parte elétrica começa a oxidar. Com o tempo, fluidos e baterias podem liberar substâncias tóxicas. Quanto mais tempo ficar exposto, maior o prejuízo, especialmente na parte interna”, afirma.
Segundo o engenheiro, o processo de degradação pode variar conforme o estado em que o automóvel foi deixado. “Se o carro ainda está íntegro, a corrosão demora um pouco mais, mas não há como evitar. Em questão de poucos anos começam a aparecer danos mais sérios: terminais corroídos, formação de óxidos, deterioração de tubulações e comprometimento de peças. A partir daí, a recuperação se torna mais difícil e cara”, alerta.
Intervenção da Prefeitura
Quando o automóvel permanece em via pública, a Prefeitura é obrigada a intervir. Primeiro, agentes de trânsito emitem notificação que fica afixada no veículo. O dono tem, em média, entre cinco e 10 dias para removê-lo. Caso isso não aconteça, o carro é guinchado e levado ao pátio municipal.
É nesse ponto que os custos se acumulam. Além das dívidas anteriores, como IPVA, licenciamento e multas, o proprietário passa a ter de arcar também com as diárias de estadia do veículo no pátio. “Esses valores rapidamente superam o preço de mercado do carro, o que leva muitas pessoas a simplesmente desistirem de reaver o bem”, observa Marinho.
Para o engenheiro, seria importante que houvesse avaliação mais criteriosa sobre cada caso. “O ideal seria investigar a situação do proprietário e entender o que aconteceu. Se ele procurar a Prefeitura e justificar a ausência, poderia ter algum benefício para reaver o carro. Caso contrário, o veículo poderia ser vendido. Dependendo do estado em que chega, ainda é possível aproveitar peças e materiais”, destaca.
Marinho lembra que a questão também envolve os novos modelos elétricos. “Esse tipo de veículo tem potência maior e, mesmo que o proprietário o ligue de tempos em tempos, precisa ser monitorado para evitar riscos”, acrescenta.
Como buscar ajuda nestes casos?
Se o veículo for notificado ou removido pela Prefeitura, o primeiro passo é verificar a notificação colada no carro ou o comunicado enviado pelo órgão de trânsito municipal. Em seguida, é necessário regularizar pendências junto ao Detran, como IPVA, licenciamento e multas. Para retirar o veículo do pátio, o proprietário deve pagar as taxas de remoção e estadia e apresentar a documentação exigida pelo município, como ofício de liberação.
Em cidades como Diadema e Santo André, qualquer morador pode denunciar veículos abandonados pelo aplicativo Colab, disponível para Android e iOS, ou registrar ocorrência nos canais de atendimento das secretarias de Mobilidade Urbana. Além disso, os interessados podem buscar orientação presencial nas Praças de Atendimento da Prefeitura ou pelos telefones das secretarias.
Caso o dono não consiga retirar o carro dentro do prazo previsto em lei, o veículo pode ser leiloado, e os recursos arrecadados utilizados pela Prefeitura para custear os procedimentos de remoção e estadia.
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Seção: Cidades