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Publicado em 14/09/2025 - 08:13 / Clipado em 14/09/2025 - 08:07

Dependência de piscinões mostra falta de alternativas contra alagamentos no ABC


Amanda Lemos 

Especialista defende que piscinão é um ‘despropósito com a arquitetura urbana da cidade’ (Foto: Gabriela Gonçalves/PMSCS)

 

Mesmo com investimentos milionários em piscinões e grandes reservatórios, o ABC ainda enfrenta problemas graves de enchentes e alagamentos, especialmente no início do ano, quando ocorre a temporada de chuvas. Acontece que, enquanto as obras tradicionais recebem a maior parte dos recursos públicos, as soluções urbanas mais inteligentes e sustentáveis, capazes de unir drenagem e qualidade de vida, ainda são pouco exploradas, o que afeta diretamente a arquitetura urbana das cidades.

Em Ribeirão Pires, a Prefeitura aplica cerca de R$ 2 milhões ao ano em serviços de drenagem, voltados principalmente à limpeza de rios, córregos, galerias e bocas de lobo. O município também realiza manutenção preventiva e corretiva das redes pluviais, com ações como roçada e retirada de entulho, mas apesar de eficazes na redução de alagamentos, as medidas concentram-se apenas em obras tradicionais e não transformam o espaço urbano.

São Bernardo segue estratégia semelhante. Até agosto de 2025, a cidade aplicou R$ 3,2 milhões na manutenção do Piscinão do Paço, do Polder e das elevatórias, além de R$ 8,4 milhões em microdrenagem, com 92 obras de manutenção em tubulações, sarjetas, bocas de lobo e escadas hidráulicas. A Prefeitura também realiza estudos para ampliação de galerias e revitalização de córregos, mas o investimento ainda recai fortemente sobre estruturas tradicionais de contenção de água.

Já em São Caetano, o programa Drenar prevê R$ 173 milhões em obras até a conclusão do projeto, que inclui a construção de um reservatório de 18 mil m³ no bairro Fundação, a substituição de 22 km de redes de água pluvial e esgoto e o alteamento de 4 km de muros. Segundo a Prefeitura, a ideia é aumentar a capacidade de captação de águas pluviais e prevenir alagamentos em áreas críticas, mas a maior parte do orçamento, assim como nos outros municípios, ainda se concentra em obras estruturais convencionais.

Em Diadema, as ações contínuas também são acerca da limpeza de córregos, galerias, bueiros e caixas de visita, além de obras de contenção de taludes em áreas de risco. Apesar de os três piscinões do município serem responsabilidade do DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado), a Prefeitura diz monitorar o serviço e informa eventuais problemas técnicos, e mantém programas de canalização, implantação de redes de drenagem e construção de muros de contenção.

A gestão também solicitou R$ 54 milhões via PAC para a construção de muros de arrimo e obras de drenagem em áreas de risco, e o futuro Plano Diretor Municipal para Manejo de Águas Pluviais, atualmente em fase de licitação, prevê investimento de cerca de R$ 6 milhões para monitoramento e gestão das redes de drenagem.

Canteiros esponja

Dentre as sete cidades, Santo André se destaca por apostar em soluções de arquitetura urbana sustentável. No último mês, lançou os canteiros esponja, iniciativa de baixo custo e impacto ambiental que funciona como um sistema natural de absorção da água da chuva, ajudando a reduzir alagamentos em áreas críticas.

O projeto, já implantado na Vila Palmares e premiado internacionalmente, integra um pacote de melhorias urbanas que inclui revitalização de praças e áreas degradadas, e contribui para a recarga do lençol freático. Apesar do potencial, a ação ainda é pontual e funciona como complemento ao modelo tradicional de piscinões e galerias, predominante na cidade.

O município também avança na utilização de tecnologia aplicada à drenagem urbana. Sensores instalados em bocas de lobo monitoram, em tempo real, o nível de resíduos, o que permite ação rápida das equipes de manutenção. Entre 2023 e 2026, Santo André prevê investir R$ 236 milhões em micro e macrodrenagem, a fim de melhorar o desassoreamento de córregos, construção de microrreservatórios, renaturalização de rios e instalação de sistemas de monitoramento.

Questionadas, as prefeituras de Mauá e Rio Grande da Serra não se manifestaram até o fechamento da reportagem.

Alternativas urbanas ainda são tímidas

Para Enio Moro, gestor e docente dos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Design de Interiores da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), a predominância de piscinões mostra que as cidades ainda priorizam soluções reativas em vez de planejamentos integrados. “O piscinão é um despropósito com a cidade. Ocupa grandes áreas que ficam inutilizadas quase o ano todo e ainda causa impactos ambientais”, afirma.

Já os jardins de chuva ou jardins esponja, na visão do docente, podem funcionar de maneira mais “útil” como parques e espaços de lazer e, nos períodos de chuva, atuam como reservatórios naturais. “É uma solução de baixo custo e alto benefício que o poder público dos municípios poderia investir, mas que acabam deixando passar”, afirma Moro.

Segundo o arquiteto e urbanista, um conjunto de 200 jardins de chuva espalhados pela cidade pode ter a mesma capacidade de retenção de água que um pequeno piscinão, mas sem a necessidade de obras especializadas e com impacto positivo na paisagem urbana. Moro cita experiências de São Caetano, como a rua Eduardo Prado, incorporada ao Parque Chico Mendes, onde o asfalto deu lugar a um jardim de chuva inspirado em Roberto Burle Marx.

“Se parte dos piscinões fosse repensada como parques esponja, teríamos espaços úteis durante quase todo o ano que ainda ajudariam no combate às enchentes”, explica Moro. Em sua visão, estes espaços devem funcionar ativamente nos “300 dias” e ser fechado para captação de águas de chuva nos períodos mais críticos, considerados os “65 dias restantes”.

Tecnologia e manutenção continuam essenciais

Além das soluções verdes, a manutenção constante das redes de microdrenagem é indispensável na visão do urbanista. “A drenagem urbana precisa ser pensada como um sistema integrado. Manutenção periódica, tecnologia e planejamento preventivo devem caminhar juntos. É a única forma de reduzir os impactos das chuvas extremas e simultaneamente melhorar a qualidade urbana”, defende o urbanista.

Experiências internacionais citadas por Moro reforçam o argumento. Segundo o urbanista, em Paris, galerias subterrâneas funcionam como reservatórios temporários, liberam a água de forma controlada. E a nível nacional, na região do Estádio do Pacaembu, em São Paulo, um piscinão subterrâneo retém água e a libera gradualmente, o que previne alagamentos em áreas críticas.

Diante das inovações, Moro defende que a combinação de soluções verdes, microdrenagem e sistemas inteligentes é o caminho para enfrentar chuvas cada vez mais intensas, localizadas e rápidas.

O que falta no ABC?

Apesar de avanços e de iniciativas pontuais, o arquiteto afirma que a região ainda enfrenta desafios estruturais: impermeabilização do solo, ocupação irregular e descarte inadequado de resíduos dificultam o escoamento das águas. Para Moro, o modelo atual, centrado em piscinões, é insuficiente. “Não é que os piscinões deixem de ser necessários em alguns casos, mas não podem ser a única solução. É preciso pensar a cidade de forma integrada com drenagem que dialogue com lazer, meio ambiente e qualidade de vida. Esse é o salto que ainda falta ao ABC”, completa.

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Seção: Cidades