Publicado em 06/09/2025 - 08:55 / Clipado em 06/09/2025 - 08:00
ABC registra mais de 30 mil atendimentos psiquiátricos em um ano
Amanda Lemos
Mais de 30 mil pessoas passaram por atendimento psiquiátrico na rede pública do ABC entre 2024 e 2025, segundo as prefeituras. O volume reflete a crescente procura por cuidado em saúde mental e coincide com o Setembro Amarelo, campanha criada em 2015 para prevenir o suicídio e combater o estigma em torno do tema. Embora a conscientização tenha se expandido, especialistas alertam para a alta demanda e para o preconceito que, muitas vezes, ainda dificulta a busca por ajuda.
Em Santo André, foram 24,5 mil atendimentos psiquiátricos em 2024 e outros 19,6 mil de janeiro a julho deste ano. Para dar conta da procura, a cidade mantém cinco Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), um pronto-socorro psiquiátrico com dez leitos e atendimento 24 horas, além de equipes multiprofissionais e consultas em Unidades Básicas de Saúde (UBSs) com apoio matricial de psiquiatras e psicólogos.
O tempo médio de espera para consultas eletivas é de 30 dias. Para casos de crise, o pronto-socorro atende pessoas em livre demanda, sem necessidade de encaminhamento, e os CAPS oferecem cobertura de segunda a sexta-feira para acompanhamento regular.
Em São Bernardo, a rede registrou 1.504 tentativas de suicídio em 2024 e 484 até julho deste ano. O município mantém nove CAPS, cobertura em saúde mental em todas as UBSs, grupos de apoio para familiares e consultórios de rua que atuam com abordagem de risco em campo. O pronto-atendimento psiquiátrico hospitalar complementa a rede em casos de urgência, garantindo atendimento integral e humanizado.
Já em Ribeirão Pires, foram 4,5 mil atendimentos psiquiátricos em 2024 e 1,6 mil neste ano. A rede é formada por equipes de psiquiatras nas UBSs, que também realizam visitas domiciliares e promovem encontros com familiares, além de grupos terapêuticos voltados a pacientes com depressão ou ideação suicida.
Com estrutura mais limitada, Rio Grande da Serra somou 1,7 mil atendimentos em 2024 e 900 neste ano, com apenas três psiquiatras e três psicólogos para toda a população. A cidade oferece escuta de crise e encaminhamento à UPA, incluindo internação quando necessário, mas ainda não possui grupos de apoio para familiares.
Escuta e tratamento adequado
Para o psiquiatra Rafael Lourenço, professor do Centro Universitário FMABC, a campanha do Setembro Amarelo trouxe visibilidade para um assunto que, até pouco tempo atrás, era evitado até mesmo no meio médico. “O suicídio é a consequência mais trágica de um transtorno mental, mas pode ser prevenido com informação, escuta e tratamento adequado. A partir do momento em que quebramos o silêncio, damos à pessoa em sofrimento a chance de pedir ajuda antes que seja tarde demais”, afirma.
O psiquiatra explica que existem sinais importantes que familiares e amigos devem observar, como isolamento, mudanças bruscas de comportamento, falas recorrentes sobre morte, descuido com a aparência, alterações de sono e apetite ou exposição a situações de risco.
Segundo o médico, muitos acreditam que quem fala sobre suicídio não pretende concretizar a ideia, mas essa visão é equivocada. “Na prática, são justamente essas falas e sinais que permitem intervir a tempo. O mito de que falar estimula a tentativa é perigoso e atrasa a busca por tratamento”, alerta.
Jovens e idosos fazem parte do grupo de risco
Dados nacionais mostram que adolescentes e jovens de 15 a 29 anos estão entre os grupos mais vulneráveis, com o suicídio figurando como uma das principais causas de morte nessa faixa etária. Entre idosos, o risco também é alto: eles representam cerca de 25% dos casos no Brasil.
Para Lourenço, esses dois extremos da vida exigem atenção especial da sociedade e do poder público. “Os jovens enfrentam pressões sociais, acadêmicas e familiares que muitas vezes não conseguem administrar. Muitos são vítimas de bullying ou cyberbullying, passam por crises de identidade e enfrentam dificuldade de aceitação, o que aumenta a vulnerabilidade emocional”, explica.
Já os idosos lidam com perdas afetivas, isolamento social, doenças e sensação de inutilidade. “São quadros que, combinados à fragilidade física, tornam as tentativas de suicídio mais letais nessa faixa etária”, explica ao ressaltar que outros grupos de risco incluem pessoas com transtornos mentais, transtornos de personalidade, esquizofrenia, uso de álcool e drogas e aqueles que já tentaram suicídio previamente ou vivem em situação de vulnerabilidade social.
Escuta é fortalecida pelo CVV
Além da rede pública, a escuta é reforçada por entidades como o Centro de Valorização da Vida (CVV). Presente no Setembro Amarelo há 11 anos, a instituição lançou em 2025 a campanha “Conversar pode mudar vidas”. O atendimento é gratuito, sigiloso e funciona 24 horas por dia, pelo telefone 188, chat ou e-mail, disponíveis em cvv.org.br.
Somente no ano passado, o CVV realizou mais de 2,4 milhões de atendimentos em todo o país, uma média de 7 mil conversas diárias. No ponto de vista do voluntário Carlos Correia, muitas vezes o simples ato de ouvir já pode aliviar o sofrimento: “Nós conversamos com pessoas e percebemos o quanto elas precisam ser escutadas com respeito, empatia e acolhimento, para poder falar de si, de suas dores e dificuldades”, explica.
Para além do CVV, quem precisa de apoio emocional ou acompanhamento psicológico no ABC pode recorrer aos atendimentos gratuitos nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), que oferecem serviços de psicologia e psiquiatria.
Cada município mantém suas unidades: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, Diadema e Mauá possuem CAPS espalhados pela cidade, com horários variados e atendimento presencial mediante apresentação de documentos como RG, Cartão do SUS e comprovante de endereço.
Veículo: Online -> Site -> Site Repórter Diário - Santo André/SP
Seção: Cidades