Publicado em 16/08/2025 - 07:56 / Clipado em 16/08/2025 - 07:56
Espera por oftalmologista chega a um ano no ABC e demora piora visão
George Garcia
A alta demanda e poucos especialistas levam a demora por consulta com oftalmologista no ABC. O RD ouviu o relato dramático de uma mãe que tenta, sem sucesso, marcar consulta com oftalmologista para o filho, de 18 anos, e que, desde os 9, usa óculos. A moradora de Mauá aguarda a consulta há um ano e dois meses. Em outras cidades da região aos prazos de espera são de 45 dias a seis meses. Em média, na região, mais de 600 consultas com oftalmologistas são realizadas por dia, uma demanda alta para poucos profissionais. A oftalmologia está entre as cinco especialidades mais demandadas no ABC.
Para o presidente da SBO (Sociedade Brasileira de Oftalmologia), Oswaldo Ferreira Moura Brasil, a demora pode prejudicar ainda mais a visão de quem já usa óculos e, nos casos de urgência, após o primeiro atendimento, o paciente não pode esperar mais do que uma semana para passar com um especialista.
Segundo Moura Brasil uma consulta com oftalmologista não pode demorar tanto. “Para a maioria da população sem queixas importantes ou fatores de risco, a recomendação habitual é realizar uma consulta de rotina anual, justamente para avaliar se os óculos estão adequados e para rastrear precocemente alterações oculares silenciosas, como o próprio glaucoma. O acompanhamento regular é parte essencial da prevenção em saúde ocular, e atrasos prolongados podem comprometer tanto a qualidade da visão quanto a identificação precoce de doenças que, quando tratadas no início, têm melhores resultados”, diz o presidente da SBO.
A mãe aguarda há 14 meses para que o filho, de 18 anos, passe por consulta com o oftalmologista na UBS Jardim Mauá. A pouca oferta de profissionais desta especialidade pode explicar a demora. No entanto, após questionada pelo RD, a consulta do jovem foi marcada. O pedido foi feito quando o rapaz ainda tinha 17 anos. Em 13 de junho de 2024, após consulta médica, a unidade emitiu a solicitação para atendimento com oftalmologista. Desde então, o retorno não veio.
“Meu filho sempre fez acompanhamento porque tenho histórico de catarata. Antes tínhamos convênio, agora dependemos exclusivamente do SUS. Ele está na faculdade e faz aulas on-line, mas a visão já está prejudicada”, afirma a moradora, que preferiu não se identificar.
Em nota, o paço de Mauá informou que, em 2025, contratou dois novos profissionais para a especialidade, totalizando três oftalmologistas na rede. Disse ainda que o tempo de espera varia conforme a prioridade definida pelo médico assistente e que, nos casos classificados como urgentes, a média é de 45 dias. Sobre o caso específico, a prefeitura afirmou que a reclassificação de risco do paciente ocorreu nesta terça-feira (12/08) e que o agendamento da consulta deve ser feito nos próximos dias.
Para o caso de jovens que já usam óculos e estão em fase de estudos, o presidente da SBO, considera que a regularidade das consultas deve ser mais observada, pois o uso de grau desatualizado pode piorar a visão do paciente. “De forma geral, em adolescentes e jovens em idade escolar ou universitária, a principal preocupação é acompanhar alterações refracionais — como miopia, hipermetropia e astigmatismo — que podem evoluir ao longo do tempo e impactar diretamente no desempenho acadêmico e na qualidade de vida. Uma demora excessiva para uma consulta pode sim resultar no uso de óculos com grau desatualizado, o que pode trazer desconforto visual, dor de cabeça, queda no rendimento escolar e dificuldade em atividades que exigem visão nítida. Porém, na maioria dos casos, essas alterações não geram consequências irreversíveis, mas reforçam a importância do acompanhamento regular”, destaca Moura Brasil.
O especialista diz ainda que, nos casos de urgência, a consulta com um especialista, após o pronto atendimento, deve acontecer em poucos dias, não em semanas. “Quando falamos em situações classificadas como urgências, é importante considerar que o ideal é que o paciente seja avaliado pelo oftalmologista o quanto antes, já que algumas condições podem evoluir rapidamente e comprometer a visão se não forem tratadas em tempo adequado. Na prática, muitos casos atendidos no pronto atendimento e encaminhados ao especialista demandam reavaliação em um prazo de dias, e não de semanas, justamente para garantir segurança e reduzir riscos”, completa o oftalmologista.
Santo André
A Secretaria de Saúde informa que, por mês, são agendados cerca de 4.500 pacientes novos em oftalmologia no Poupatempo da Saúde, uma média de 150 por dia. “Ao considerarmos consultas, procedimentos e exames oftalmológicos, são realizados cerca de 10 mil agendamentos por mês. O tempo médio de espera em oftalmologia em Santo André é de 30 dias, contados a partir do encaminhamento”, diz nota do paço. A prefeitura não informou quantos profissionais desta especialidade atuam na rede.
São Bernardo
A Prefeitura de São Bernardo informa que realiza, em média, 360 consultas por dia com os 30 oftalmologistas da rede municipal de saúde. Em resposta ao RD a prefeitura não informou, no entanto, a média de espera por uma consulta ou quantos pacientes estão na fila. A cidade conta com a Clínica da Visão, serviço ambulatorial específico para atendimentos oftalmológicos, cujo acesso se dá por meio da regulação municipal.
“A porta de entrada é sempre a UBS (Unidade Básica de Saúde) de referência do morador. Para atendimentos de urgência, a cidade conta com o Hospital de Clínicas, que atende de segunda a sexta-feira, das 7h às 19 horas. O referenciamento se dá pelas UPAs, pronto atendimento ou Hospital de Urgência. Fora desses dias e horários, o atendimento de urgência é feito pela rede referenciada do Estado de São Paulo, via Cross (Central de Regulação de Ofertas e Serviços de Saúde)”, informa o paço, em nota. A Clínica Municipal da Visão fica na Rua Kara, 225. O funcionamento é de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h (dias úteis). Telefone 2630-6045.
Diadema
A prefeitura de Diadema informa que os 13 profissionais de oftalmologia realizam cerca de 80 consultas por dia. O município relatou em nota que aproximadamente 2,2 mil pessoas estão na fila para passar com oftalmologista geral e o tempo médio de espera é de seis meses. “Urgências encaminhadas da Atenção Básica e UPAS são atendidos no mesmo dia. A secretaria de saúde está em conversas para formalizar um termo de cooperação com o Centro Universitário da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), no intuito de aumentar as ofertas de consultas e cirurgias”, sustenta a administração. De todas as especialidades médicas a oftalmologia é a quinta mais demandada, atrás somente de cardiologia, neurologia adulto, fisioterapia e ortopedia, esta última a que tem mais demanda.
Ribeirão Pires
A prefeitura de Ribeirão Pires não revelou o tempo de espera ou o número de oftalmologistas na rede, relatou apenas a média de atendimentos. “A Prefeitura de Ribeirão Pires esclarece que realizou em 2024, 1.878 atendimentos oftalmológicos e no primeiro semestre até o momento foram 890, mantém o média sem aumentos. São realizados em média 22 atendimentos por dia”, diz o informe.
Rio Grande da Serra
Em Rio Grande da Serra, quem precisa de um oftalmologista pelo SUS não vai encontrar na rede municipal. Os pacientes são encaminhados para serviços do Estado. Atualmente 228 pacientes estão na fila de espera sendo a maioria deles, 146, crianças. “Não são feitas consultas no município; todos os pacientes são encaminhados para as unidades estaduais (AME Santo André e AME Mauá). Não há profissionais contratados pela Secretaria de Saúde que atendam na especialidade de oftalmologia. Pacientes que precisam consultar a especialidade de oftalmologia e não pertencem aos grupos (pediatria, estrabismo, ceratocone, córnea ou glaucoma) aguardam, em média, de 30 a 45 dias”, diz a prefeitura, que, no entanto, só sabe sobre a primeira consulta, as demais fogem do controle do município. A prefeitura diz que os casos de urgência são atendidos em até 30 dias.
A prefeitura de São Caetano não respondeu.
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Seção: Cidades