Publicado em 31/07/2025 - 18:35 / Clipado em 31/07/2025 - 18:35
Economistas preveem perda de R$ 2 bi para a indústria do ABC com tarifaço de Trump
George Garcia
A balança comercial das empresas do ABC com os Estados Unidos fechou com superávit em favor da região, ou seja, as indústrias locais exportaram mais do que importaram de produtos americanos. Cerca de R$ 40 milhões é o saldo em seis meses, média de R$ 6,6 milhões por mês. No ano passado o saldo foi positivo para as sete cidades em R$ 150 milhões, ou R$ 12,5 milhões de média mensal. Esse saldo vem diminuindo e, com o pacote tarifário de 50% sobre os produtos brasileiros, em menos de dois meses esse superávit se tornará um déficit, segundo os economistas ouvidos pelo RD. Eles apontam que a região vai perder cerca de R$ 2 bilhões por ano se medidas não forem adotadas.
Cidades cujas empresas têm uma relação comercial maior com os EUA já sentem essa queda e sofrerão mais com o tarifaço. No primeiro semestre de 2025, a regional de Santo André do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), que reúne também as empresas de Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra teve exportações de US$ 500,7 milhões (+12,6% na comparação interanual) e importações de US$ 588,7 milhões (+20,5%%). O resultado foi um déficit de US$ 88 milhões. Os destinos mais relevantes das exportações foram os Estados Unidos (35%), Argentina (23,5%) e Holanda (3,6%).
A regional de São Bernardo do Ciesp, a situação foi inversa, houve superávit e na cidade as empresas são menos dependentes do mercado americano, quanto às exportações. No primeiro semestre de 2025, São Bernardo teve exportações de US$ 1,96 bilhão (+14,3% na comparação interanual) e importações de US$ 1,65 bilhão (+3,4%). O resultado foi um superávit de US$ 313,4 milhões. Os produtos mais exportados foram veículos automóveis, tratores (68,8%), cobre e suas obras (9,1%) e máquinas, aparelhos e instrumentos mecânicos (7,6%). Os destinos mais recorrentes das exportações foram Argentina (44,4%), México (10%) e Chile (8,1%).
O diretor do Ciesp de Diadema, Anuar Dequech Júnior, diz o setor industrial ainda está tentando deglutir as medidas e esperando firmeza do governo brasileiro para tentar uma negociação. “Ainda não deu tempo de ficar desesperado, o pessoal está esperando para ver o que realmente vai acontecer, se vai ter reciprocidade (taxação aumentada sobre produtos americanos). Mas, já estão com o freio de mão puxado, ou seja, parando a produção, porque não é de uma hora para outra que se consegue negociar, ou mesmo procurar outros mercados”. No ano passado Diadema exportou para os EUA, R$ 84,6 milhões e importou R$ 80,7 milhões, ficando, portanto, com superávit de R$ 4,1 milhões.
Queda
Para o doutor em economia e professor do departamento de administração da FEI (Fundação Educacional Inaciana), Rodrigo Silva Barreto, o resultado do tarifaço vai inverter rapidamente o superávit da região. “A margem já caiu para cerca de US$ 40 mihões no primeiro semestre. Com a tarifa de 50 % derrubando exportações e as importações mantendo ritmo, a virada para déficit deve aparecer nas estatísticas de agosto ou setembro. Os setores mais afetados devem ser os de metalurgia/metalmecânico, pneus, armas e munições, parte de plásticos e especialidades químicas”, aponta.
O economista prevê um prejuízo de cerca de R$ 2 bilhões para as empresas do ABC em um ano. “Se metade das vendas atuais aos EUA (cerca de US$ 750 milhões/ano) for cancelada, o prejuízo direto nas exportações fica em torno de US$ 375 milhões — perto de R$ 2 bi — e pode colocar em risco algo próximo de 40 e 50 mil empregos na cadeia industrial local”.
Ao analisar o déficit da regional de Santo André e o superávit de São Bernardo, o economista da FEI não tem dúvidas de que a dependência maior do mercado americano será ainda mais prejudicial com a vigência do tarifaço. “Regiões e empresas mais dependentes dos EUA — caso de Santo André e de setores de aço, pneus e munições — já viram crescimento travar ou déficit surgir no primeiro semestre, enquanto São Bernardo, focada na Argentina e México, mantém superávit robusto.
Barreto chama a atenção para as exportações de Ribeirão Pires, com forte presença da CBC, fabricante de munições. “A CBC responde por boa parte das exportações locais (cerca de US$ 150 milhões/ano) e não há exceção para munições. A tarifa de 50% pode cortar drasticamente pedidos, com forte repercussão em produção, arrecadação municipal e empregos num município pouco diversificado”, analisa.
Providências
Jarbas Thaunahy Santos de Almeida, professor de estatística e finanças da Strong Business School considera que, se não houver providências do governo brasileiro e uma negociação para baixar a tarifas anunciadas, a região terá prejuízos inevitáveis. “É inevitável projetar efeitos relevantes sobre a balança comercial de regiões industriais estratégicas, como o ABC. Embora a região ainda registre superávit nas relações com os EUA, esse equilíbrio pode se deteriorar rapidamente. As tarifas incidem justamente sobre segmentos-chave da indústria regional, como metalmecânica, química e plásticos, o que eleva os riscos de uma reversão no saldo comercial já nos próximos dois meses. Se não houver agilidade na diversificação de mercados ou medidas de compensação no curto prazo, empresas com forte dependência das exportações aos EUA enfrentarão um cenário mais desafiador. A exposição excessiva a um único destino comercial amplia a vulnerabilidade e pode acelerar perdas econômicas locais”, projeta.
O professor da Strong também considera perdas da indústria do ABC que podem chegar a R$ 2 bilhões em um ano. “No plano macroeconômico, a estimativa de R$ 20 bilhões em perdas para o Brasil não pode ser aplicada de forma linear ao ABC, mas considerando que a região responde por parte expressiva das exportações industriais, em especial na cadeia metalúrgica, estima-se que o impacto possa representar de 5% a 10% desse total, ou seja, entre R$ 1 bilhão e R$ 2 bilhões em potenciais perdas, especialmente se o setor não reagir com readequações de mercado e logística”.
Ele também enxerga nos números das exportações uma queda nas exportações para os EUA. “A análise dos dados mais recentes do Ciesp revela um cenário evidente: as regiões com maior exposição ao mercado americano já começam a registrar déficits, mesmo antes da entrada em vigor das novas tarifas. Esse movimento sugere que parte das perdas já está sendo precificada pelos compradores internacionais, que antecipam ajustes diante de sinais de instabilidade comercial. Em contrapartida, municípios como São Bernardo, com forte integração ao mercado argentino, seguem com superávit expressivo, evidência de que a diversificação de destinos nas exportações se consolida, neste contexto, como uma vantagem competitiva estratégica”, aponta Almeida.
O professor prevê destino mais sério se analisado isoladamente o caso de Ribeirão Pires. “Com a CBC como âncora exportadora de munições para o mercado norte-americano, a cidade está altamente exposta a essa mudança tarifária. Um entrave no escoamento dessas exportações pode representar impactos severos na arrecadação local, no emprego e na receita das indústrias, dado o grau de concentração e dependência comercial da cidade em relação aos EUA. Assim, o momento exige ação coordenada entre indústria, poder público e entidades como o Ciesp. Diversificar mercados, buscar novos acordos comerciais e investir em competitividade produtiva será essencial para mitigar os danos e garantir a sustentabilidade das exportações da região frente à nova realidade geopolítica”, completa.
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Seção: Economia