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 Site Repórter Diário - Santo André/SP

Publicado em 25/07/2025 - 18:10 / Clipado em 25/07/2025 - 18:10

Quatro cidades se preparam para seguir S.Caetano no uso de reconhecimento facial


POR REDAÇÃO

 

Central de monitoramento do Smart Sanca. (Foto: Gabriela Gonçalves/PMSCS)

 

As câmeras com reconhecimento facial são a sensação do momento em termos de tecnologia, depois dos equipamentos que leem placas de carros, e já levam a detenção de procurados, mas especialistas alertam que não há solução mágica para a segurança pública, é preciso investir em outras coisas, como no trabalho integrado e em recursos para a investigação. No ABC, São Caetano saiu na frente com essa nova tecnologia e já divulga alguns resultados e outras cidades planejam seguir o mesmo caminho.

Em São Caetano a cidade colhe frutos da iniciativa. Para a prefeitura o sistema, batizado de Smart Sanca, é uma ferramenta essencial no combate à criminalidade. “Desde a fase de testes até agora, foram detidos 23 indivíduos com mandado de prisão em aberto, 11 pelo reconhecimento facial e outros 12 pela leitura de placas. A eficiência do sistema reforça a importância do investimento em inovação para a segurança pública”, informa a prefeitura.

Mauá, já estuda incorporar a seu sistema de câmeras a tecnologia de reconhecimento facial. Parte dos 200 dispositivos espalhados pela cidade já fazem a leitura de placas de veículos. “Está em estudo tanto a ampliação desse número quanto a adoção da tecnologia de reconhecimento facial. No último dia 3 de junho, o prefeito Marcelo Oliveira (PT) esteve no Ministério da Justiça e Segurança Pública, em Brasília, onde se reuniu com a diretora do Sistema Único de Segurança Pública, Isabel Seixas, e com o coordenador-geral, Leandro Arbogast, para tratar da liberação de recursos voltados ao fortalecimento da segurança pública. Também foram discutidas tecnologias de videomonitoramento com integração a diversos órgãos, como SAMU, Corpo de Bombeiros, entre outros”, informou o paço mauaense.

Em Santo André, das 800 câmeras interligadas ao COI (Central de Operações Integradas), 200 contam com a tecnologia de leitura de placas. Essas câmeras estão integradas aos sistemas da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, ao Ministério da Justiça e, nos próximos dias, também estarão ligadas à base da Polícia Rodoviária Federal. A prefeitura diz que aproximadamente 140 veículos foram interceptados e mais de 150 indivíduos detidos, graças à atuação integrada com as forças policiais e o uso da tecnologia. A cidade deve ser a próxima a incorporar ao seu sistema o reconhecimento facial. “A Prefeitura de Santo André já possui todos os trâmites técnicos e operacionais avançados para a implementação do sistema de reconhecimento facial ainda em 2025. O projeto encontra-se em fase final de ajustes. O reconhecimento facial trará ainda mais robustez ao conjunto de ferramentas tecnológicas já utilizadas para a proteção da população, intensificando a capacidade de prevenção e resposta das forças de segurança. As tratativas junto ao Governo do Estado de São Paulo foram concluídas com êxito”, diz nota do paço andreense.

Diadema tem 348 câmeras de segurança e nenhuma delas conta com leitura de placas ou reconhecimento facial ainda. Em nota, a administração diademense explica que há equipamentos que leem placas, mas ainda em fase de testes. A prefeitura já quer passar direto para a tecnologia mais recente e já incorporar também ao monitoramento o reconhecimento facial. “A Prefeitura de Diadema estuda a implementação do reconhecimento facial como parte do projeto de modernização da Central Integrada de Monitoramento, dentro da iniciativa conhecida como Muralha Digital. A tecnologia está em fase de testes, e a expectativa é que o sistema seja implantado gradualmente, ainda durante o exercício de 2025. O município busca aproveitar a estrutura já existente, priorizando atualizações de software e integração de sistemas. A necessidade de aquisição de novos equipamentos será avaliada conforme os testes avançarem. Os valores de investimento ainda estão sendo estudados, em conjunto com possíveis parcerias com o Governo do Estado e a iniciativa privada”, diz o comunicado.

Rio Grande da Serra quer ingressar na tecnologia de câmeras já instalando as mais modernas também. “Está em fase final de orçamento a instalação de um sistema de monitoramento por câmeras, que abrangerá as principais vias da cidade e prédios públicos. A previsão é de que 43 equipamentos sejam implantados até o final deste ano. Há estudos que estão em andamento para a futura implementação de tecnologia de reconhecimento facial, que poderá ser integrada ao sistema após a instalação das câmeras.

São Bernardo e Ribeirão Pires, não responderam.

 

Mágica

Para o coordenador do Observatório de Segurança Pública da USCS (Universidade Municipal de Segurança Pública) e professor de Direito Penal, David Pimentel Barbosa de Siena, elogia a utilização desses dispositivos. “A adoção de sistemas de câmeras com reconhecimento facial, como o que foi implantado recentemente em São Caetano, representa um avanço importante em termos de tecnologia aplicada à segurança urbana. A gente nota que, no início, houve certa resistência em São Paulo — com receios legítimos sobre privacidade e uso indevido de dados —, mas aos poucos isso vem sendo superado, especialmente quando há transparência e regulamentação claras sobre o funcionamento desses sistemas”, analisa.

Porém, Siena considera que é preciso por os pés no chão e encarar esse dispositivo tecnológico como mais um na inteligência policial. “Valorizar os avanços, sem cair em uma euforia tecnicista. O ideal é reconhecer os méritos da tecnologia como ferramenta de gestão inteligente da segurança, mas destacando que segurança pública exige política integrada e não solução mágica”, aponta.

O professor acredita que a tecnologia em favor da segurança ainda vai avançar mais e mais rapidamente. “Os sistemas inteligentes de segurança estão em constante evolução, e o reconhecimento facial é apenas uma das camadas possíveis. A tendência é que, no futuro próximo, esses sistemas se tornem mais integrados, com cruzamento automático de dados de diferentes fontes — como mandados de prisão, registros de veículos, comportamento de circulação urbana — sempre com protocolos claros e salvaguardas legais. Do ponto de vista técnico, um dos grandes desafios ainda é reduzir os chamados vieses algorítmicos. Ou seja, garantir que o sistema não cometa erros ou discrimine pessoas com base em padrões distorcidos de treinamento. Isso exige investimento em inteligência artificial responsável, com auditorias externas e transparência. A chave é combinar tecnologia com governança democrática, porque quanto mais poder uma tecnologia tem, maior precisa ser o controle social sobre seu uso”, prevê.

O coordenador do Observatório de Segurança, considera que o aperfeiçoamento dos policiais para uso das novas tecnologias é o ponto central no momento. “A tecnologia não substitui o fator humano, ela o potencializa. Hoje, tanto a Polícia Civil quanto a Polícia Militar do Estado de São Paulo vêm avançando na incorporação de ferramentas tecnológicas, mas esse é um processo contínuo. Há um desafio permanente de formação e atualização. O ideal é que a tecnologia venha acompanhada de capacitação específica, protocolos claros de uso e integração com a experiência prática dos policiais, por isso, o investimento em treinamento é tão estratégico quanto o investimento em equipamentos”, completa.
 

Ilusão

Ainda mais cético em relação aos resultados que as câmeras com reconhecimento facial possam trazer o ex-secretário nacional de Segurança Pública e coronel da reserva da Polícia Militar, José Vicente da Silva, diz que a tecnologia poderia ser melhor utilizada em outras frentes na área da segurança pública. Ele não acredita em resultados tão positivos frente ao investimento que é feito.

“Isso é ilusão, achar que essas câmeras são tão importantes para a segurança. Elas podem ajudar na prisão de alguns procurados por mandado judicial, mas isso afetará pouquíssimo a segurança. Na capital a PM prende 50 a 70 vezes mais esses procurados sem uso das câmeras. A quase totalidade dos bandidos assaltando ainda não foram condenados, nem há mandado de prisão contra eles. Temos ainda uns 150 mil condenados cumprindo pena em liberdade, mas não são procurados”, aponta o coronel que também é consultor e pesquisador na área de segurança.

Segundo Silva há tecnologias mais relevantes para a segurança como mapeamento criminal e bancos integrados para investigações. “As prefeituras iludem com esses fetiches tecnológicos quando poderiam investir em prevenção social e educacional. Prender bandidos não é prevenir crimes; dizer que vai prender com câmeras e retórica política”, completa o ex-secretário.

 

https://www.reporterdiario.com.br/noticia/3675129/quatro-cidades-se-preparam-para-seguir-s-caetano-no-uso-de-reconhecimento-facial/

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Seção: Cidades