Publicado em 24/07/2025 - 18:36 / Clipado em 24/07/2025 - 18:36
Região tem ampliação do atendimento em psicologia, mas oferta ainda é insuficiente
George Garcia
Com a abertura de serviço de psicologia, com oferta de 200 atendimentos mensais, no AME (Ambulatório Médico de Especialidades) de Santo André, o atendimento nesta área da saúde cresce de forma ainda tímida no ABC. Para o membro do Conselho Regional de Psicologia e coordenador da subsede do órgão no ABC, Davi Rodriguez Ruivo Fernandes, a iniciativa é boa, mas ainda faltam políticas integradas entre o equipamento do Estado e as políticas municipais nesta área. Para ele a demanda por psicoterapia aumentou mais de 200% após a pandemia da covid-19 e essa alta foi mais evidente no serviço público.
O AME de Santo André começou no dia 21 de julho, a oferecer consultas ambulatoriais na área de psicologia aos pacientes em tratamento na unidade . A iniciativa faz parte de uma nova meta do contrato de gestão firmado entre a Fundação do ABC e o Governo do Estado no ciclo 2025-2030, que visa implementar melhorias no atendimento e na humanização dos serviços de saúde. O atendimento tem foco nos pacientes em tratamento quimioterápico e no acompanhamento de pessoas com obesidade e transtornos alimentares pela área de endocrinologia. Cada paciente terá direito a um ciclo inicial de cinco consultas com o profissional de psicologia. Em casos de maior complexidade, poderão ser ofertadas até duas consultas adicionais. Situações mais graves serão encaminhadas à Raps (Rede de Atenção Psicossocial) do município de residência do paciente para continuidade do tratamento.
Segundo Fernandes, a procura por atendimento psicológico aumentou de forma expressiva tanto na rede privada quanto na rede pública. “No caso do SUS, esse crescimento foi ainda mais evidente, especialmente porque grande parte da população não tem condições de acessar serviços particulares. A sobrecarga emocional deixada pela pandemia, somada às condições de vida precarizadas e ao luto coletivo, ampliou o sofrimento psíquico de muitas pessoas. Infelizmente, o crescimento da demanda não foi acompanhado por uma ampliação equivalente da oferta de serviços psicológicos públicos, o que resultou em filas, espera prolongada e, em alguns casos, desistência dos usuários por falta de acesso”, diz o coordenador do CRP-ABC.
Em resposta ao RD sobre os atendimentos em psicologia, a prefeitura de Diadema confirma um aumento significativo de consultas realizadas no último ano. “Os profissionais da psicologia realizaram 7.869 atendimentos no período de 01/2025 a 06/2025. No mesmo período de 2024, foram 6.983 atendimentos. As 20 Unidades Básicas de Saúde do município realizam atendimento psicológico. Os pacientes chegam pelo acolhimento da UBS (Unidade Básica de Saúde), por encaminhamento ou por livre demanda. O acolhimento é realizado pelas equipes de Saúde da Família”, diz a prefeitura, em nota. Apesar de ter atendimento descentralizado, a demanda impede que cronogramas de atendimentos sejam estabelecidos, ou seja, o paciente não tem como fazer um acompanhamento através de determinado número de sessões. “O município não trabalha com número de sessões pré-estabelecido. Devido à grande demanda, o município trabalha prioritariamente com atendimentos breves, porém os casos são avaliados e acompanhados em sua singularidade”, destaca o paço diademense.
Rio Grande da Serra não tinha até o ano passado psicólogos para atendimento. Neste ano as unidades de saúde contam com profissional, mas também não há um plano de sessões, a avaliação da necessidade de mais sessões com o profissional é avaliada conforme os resultados. “Com a implementação da equipe multi, todas as unidades básicas prestam atendimento com psicóloga. O paciente inicia com uma consulta e, de acordo com sua necessidade, o próprio especialista irá determinar a quantidade de sessões e já realizar os agendamentos se houver a necessidade”, explica a prefeitura da cidade.
As demais prefeituras da região não falaram sobre o atendimento em psicologia. Já a SES (Secretaria Estadual de Saúde), falou sobre o contrato de gestão com a Fundação do ABC para o atendimento no AME Santo André, mas não detalhou como esse atendimento funciona nas outras unidades estaduais da região, como o AME Mauá e os hospitais Mário Covas (Santo André) e Serraria (Diadema). “A pasta destaca que a porta de entrada do SUS (Sistema Único de Saúde) para a Raps (Rede de Atenção Psicossocial) é pela Atenção Básica, por meio das UBSs, administradas pelos municípios e fortalecidos pela SES, por meio de cursos, palestras, eventos, apoio técnico em programas, projetos e ações. É importante ressaltar que os Caps (Centros de Atenção Psicossocial) podem ser procurados para avaliação e acompanhamento, quando necessário. Entretanto, desde as UBSs, até a urgência/emergência nos hospitais gerais possuem condições para atendimento em saúde mental e o devido encaminhamento para especialistas da rede”, diz em nota.
Estrutura
Sobre o atendimento no AME Santo André, Davi Rodriguez Ruivo Fernandes, diz que a iniciativa deve ser bem vista. “A iniciativa é importante e chega em boa hora. Ainda que o número de consultas mensais seja limitado, trata-se de uma ampliação concreta de acesso, especialmente para pacientes com necessidades específicas como os que enfrentam doenças crônicas e oncológicas. É provável que essa oferta alivie, ainda que parcialmente, a demanda reprimida da região, sobretudo para aqueles que já estavam em acompanhamento médico e agora poderão receber cuidado psicológico integrado. No entanto, o impacto será mais significativo se vier acompanhado de ações articuladas com a Rede de Atenção Psicossocial dos municípios”, aponta.
Para o representante do CRP do ABC, a estrutura do serviço público ainda precisa de aprimoramento na área de psicologia. “Os serviços públicos de saúde operam com orçamentos restritos, equipes reduzidas e alta rotatividade. Apesar disso, muitos profissionais da psicologia no SUS seguem realizando um trabalho comprometido, ético e de qualidade. A potência do atendimento público está na sua lógica coletiva e no vínculo com o território, mas para que isso aconteça com consistência, é fundamental que haja investimento continuado, condições dignas de trabalho e valorização das equipes multiprofissionais. A precarização pode comprometer a qualidade, mas o compromisso dos profissionais com o cuidado muitas vezes consegue fazer a diferença, mesmo em contextos adversos”, analisa.
Para mudar mudar o quadro do SUS e fazer com que a psicoterapia esteja mais acessível, o CRP-ABC tem mantido diálogo com as prefeituras. “O CRP SP, por meio da subsede ABC, se dispõe a manter diálogo constante com os municípios para discutir as condições éticas de trabalho dos psicólogos, a ampliação da oferta de serviços e a valorização da psicologia no SUS. Algumas cidades já têm estruturado suas redes com profissionais da área, mas ainda há bastante desigualdade na distribuição desses serviços. Reforçamos sempre que a presença da psicologia nos diferentes pontos da rede, da atenção básica aos Caps, é essencial para garantir o cuidado integral à população”, completa o psicólogo.
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Seção: Cidades