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Publicado em 24/07/2025 - 18:35 / Clipado em 24/07/2025 - 18:35

Estatística acidentes com motos aponta para novo recorde de mortes no ABC


George Garcia 

 

O domingo (27/07) será marcado pelo 1° Dia Nacional do Motociclista, data criada para a conscientização e ações de condução segura. A Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito) vai marcar a data com uma campanha em todo o território nacional de conscientização e para também dar início a 1ª Semana Nacional de Prevenção a Sinistros com Motociclistas. Apesar da data destacar aspectos deste modal importante de transporte, a estatística das mortes no trânsito mostra uma triste realidade. Se o ritmo de acidentes fatais com motociclistas se mantiver, 2025 ficará para a história como o que mais matou condutores e passageiros de motos, nos últimos 10 anos no ABC. Desde que o Infosiga (Sistema de Informações Gerenciais de Sinistros de Trânsito) foi criado em 2015 que não se via uma média mensal de óbitos como a verificada de janeiro a junho deste ano, foram 10 fatalidades por mês.

Desde o Infosiga foi criado para analisar a estatística dos acidentes de trânsito, o número mais baixo de mortes de motociclistas no ABC em um ano foi o de 57, registrado em 2018. Em 2023 ocorreu o pico de acidentes fatais envolvendo motociclistas, com o registro de 121 mortes na região, mais de dez mortes por mês. No ano passado as ocorrências com mortes envolvendo a motocicleta caíram para 102, mas ficando ainda como o segundo pior período na série histórica do Infosiga, com média superior a oito casos mensais. Neste ano, de janeiro a junho já foram 63 casos, ou mais de dez casos a cada mês, o que pode fazer com que 2025, se o ritmo de mortes continuar como está, se torne o ano com maior número de fatalidades da história da estatística dos acidentes na região

Enquanto isso a frota de motos não para de crescer. No Estado ela aumentou mais em mais de um milhão de motos em três anos e meio, passando de 5.656.021, no ano de 2021, para 6.658.986 até junho deste ano, um aumento de 17,7%, segundo os números apresentados pelo DetranSP (Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo). No ABC no mesmo período de três anos e meio, a frota de motos cresceu mais 48.108 veículos, passando de 294.647 para 342.755 motos, alta de 16,3%.

Com experiência na área de projetos de edificações e sinalização de equipamentos urbanos e transportes, a coordenadora do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário do IMT (Instituto Mauá de Tecnologia), Paula Katakura, considera que há pouco investimento em transporte público o que aumenta a procura por um transporte de baixo custo e mais eficiente, como a moto.

“Nestes últimos anos o Estado investiu muito pouco em transporte coletivo, pouco avançamos em relação a esta infraestrutura com transporte de massa eficiente. No ABC a mobilidade é muito precária; temos algumas linhas de trem pouco conectadas com os diferentes modais ou formas de transporte coletivo e em algumas regiões verificamos a presença de caminhões e carretas de grande porte dentro da área urbana coexistindo com meios de transporte como o das motocicletas e bicicletas. Alguns estudos mostram que nas regiões Sul e Sudeste do país, onde a qualidade das vias é melhor, a velocidade das motocicletas acaba sendo maior e os acidentes fatais registrados ficam acima de regiões mais pobres. É preciso um conjunto de medidas, que incluem ações educativas no trânsito, conscientização da população, fiscalização, investimento em transporte de massa, integração de modais, gestão inteligente de tráfego e infraestrutura viária mais segura”, aponta a docente do IMT.

Para Paula não bastam apenas fiscalização e redução dos limites de velocidade. “Somente isto não resolve. A nossa malha viária é densa, existe um grande deslocamento diário para as áreas centrais onde estão concentrados os postos de trabalho e este movimento gera uma alta demanda de transporte que deveria ser objeto de políticas mais intensas e permanentes. É preciso investir também na educação e conscientização”, destaca.

Faixa Azul

Para fazer frente a essa frota crescente, os municípios têm buscado soluções, como a criação de área para motos nos pontos de retenção dos semáforos e a mais recente delas é a faixa azul. A região tem 13 quilômetros de vias com a faixa azul. Elas estão nas avenidas Prestes Maia (5 km), José Amazonas e Dom Jorge Marcos de Oliveira (3,4 km), em Santo André; e nas avenidas Lions (2,1 km) e 31 de Março (2,5 Km), em São Bernardo. Diadema aguarda aprovação em projeto para implantação da faixa azul nas avenidas Presidente Kennedy, Fábio Eduardo Ramos Esquível e Corredor ABD. Essas avenidas são interligadas, conectam a cidade com São Bernardo pela avenida Lions e são importante ligação com a Zona Sul da Capital. Essa Faixa Azul terá 14 quilômetros, elevando para 27 km a extensão de faixas exclusivas para motos no ABC.

Para a arquiteta e urbanista Paula Katakura, a gestão da mobilidade urbana não deve focar apenas na faixa azul como uma solução milagrosa para o grande número de mortes de motociclistas. “No início desta implantação houve redução de acidentes, mas os investimentos não poderiam ser apenas em faixas azuis esquecendo-se das outras formas de transporte público de massa, que requerem maiores investimentos e que são complexos nas cidades já bastante consolidadas em termos de ocupação urbana”, analisa.

Mototáxi

No campo jurídico trava-se também uma batalha entre gestores municipais e as empresas de aplicativo que oferecem a modalidade de transporte por motos. Essa disputa judicial é capitaneada pelo prefeito da Capital, Ricardo Nunes (MDB), porém ora a prefeitura ganha, ora tem perdido a briga jurídica com Uber e 99. O ABC já teve pelo menos duas mortes de passageiros de motos contratadas por aplicativo. Para a urbanista oferecer transporte de passageiros em motocicletas não é uma solução para a mobilidade urbana.

“É uma ilusão achar que o transporte de passageiros por motocicletas pode ser seguro. Ele é o resultado da desigualdade social que leva as pessoas de menor poder aquisitivo a utilizar este meio de transporte que, na maior parte das vezes, atrai as pessoas mais jovens por ser mais acessível. Não sei se o poder público conseguirá vencer esta briga jurídica”, avalia a professora do IMT.

Para Paula, os números da mortalidade de motociclistas são tão assustadores que já deveria ter mobilizado a opinião pública. “A sociedade deveria se fazer mais presente no sentido de se colocar contra o avanço desta estatística assustadora da mortalidade no trânsito com um recurso que não é seguro”, diz referindo-se ao transporte de passageiros com motocicletas. “O transporte sobre duas rodas é infinitamente mais frágil quando comparado aos outros meios de transporte. É preciso pensar menos no transporte individual, mas não é o que verificamos atualmente em nosso país; desconsideramos o aumento da mortalidade no trânsito e pouco pensamos em termos de sustentabilidade”, completa a urbanista.

 

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Seção: Cidades