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Publicado em 20/07/2025 - 08:06 / Clipado em 20/07/2025 - 08:06

Setores importantes da economia do ABC vão perder com tarifaço de Donald Trump


George Garcia 

 

De tudo que as indústrias do ABC exportaram para o mundo no ano passado, 13,4% teve como destino os Estados Unidos e grande parte das indústrias, sobretudo as menores terão grande impacto caso o tarifaço anunciado por Donald Trump não seja revertido. A medida do governo estadunidense impõe uma taxação de 50% sobre os produtos brasileiros, o que o governo brasileiro não aceita e no meio desta discussão estão questões políticas já que o presidente americano é aliado do ex-chefe do Executivo, Jair Bolsonaro. A operação que resultou na colocação de uma tornozeleira eletrônica em Bolsonaro desagradou ainda mais o líder americano, mas representantes da área econômica, ouvidos pelo RD, ainda consideram ser viável uma saída diplomática antes de medidas de retaliação aos produtos americanos.

Os dados do Comexstat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, mostram que a balança comercial entre Brasil e EUA e favorável para os americanos. Mas considerando somente o ABC, a balança foi superavitária para a região em US$ 150 milhões no ano passado. Apesar disso, cidades como Santo André, São Caetano, Mauá e Rio Grande da Serra, importaram mais produtos americanos do que exportaram. São Bernardo, Ribeirão Pires e Diadema tiveram uma balança comercial para si, exportando mais que importando. (Veja quadro).

O tamanho do impacto, caso a taxação não seja revertida, ainda não se sabe, mas há um indicativo de que setores como o de borracha, com destaque para pneus, metalúrgico, com ênfase na indústria de autopeças e de munição, presente em Ribeirão Pires, terão um impacto maior, dada a sua maior exportação para os Estados Unidos.

Para o economista e gestor do curso de Ciências Econômicas e gestor adjunto da Escola de Gestão e Negócios, da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), Volney Gouveia, não tem ainda os números do provável impacto do tarifaço, mas acredita que ele será muito relevante. “Ainda não tenho os números estimados de impacto. Ainda em consolidação. Mas certamente o ABC será fortemente atingido”, prevê.

O economista elogia a atuação da diplomacia brasileira e acredita em uma negociação com os EUA. “Em relação às negociações, o Brasil precisa buscar uma solução diplomática antes da implementação da medida de restrição tarifária. Eu diria que os EUA têm mais controle do que o Brasil para buscar uma solução diplomática. Como Trump está determinado a implementar suas medidas, acredito que uma solução diplomática seja difícil. De fato, vários motivos sugerem esse caminho: a forte posição do Brasil no Brics; o apoio do país à “desdolarização” das transações internacionais por meio da criação de uma moeda comum dentro do bloco; o apoio do Brasil à criação de um novo sistema internacional de compensação; a defesa da agenda Sul-Sul; a redução da influência americana no resto do mundo aceleram o radicalismo do presidente estadunidense”, resume o professor da USCS. O Brics é um conjunto de países emergentes e é composto por Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Emirados Árabes Unidos, Egito, Arábia Saudita, Etiópia, Indonésia e Irã.

Setores

Para o presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do ABC, Aroaldo Silva, ainda é difícil falar em impacto. “Em relação aos impactos, a gente não consegue mensurar com exatidão, agora que se começa a dialogar com as empresas e a ver um impacto de forma de forma geral no Brasil e, com certeza terá impacto no ABC, pelo volume que a gente exportou da região para os Estados Unidos. Tem algumas empresas que estão falando mais, tem outras que estão com mais cautela em comentar, então, na verdade, estamos em um momento de avaliação, discutindo ainda os reais impactos”.

Mantidas as tarifas para os produtos brasileiros, o preço final pode ser impeditivo para a entrada nos EUA e se a exportação cair o reflexo será significativo e empresas podem cortar postos de trabalho, segundo Silva. “Esse prejuízo, de fato afeta a produção, se de fato não exportar os produtos e o volume que exportou ano passado, isso vai afetar a produção e, por consequência, os empregos. Recentemente, em reunião na Agência do ABC, o próprio secretário nacional de política industrial, o Uallace Moreira Lima, falou sobre isso. A indústria da borracha da região já diz que pode ter um impacto muito grande e ter desemprego imediato, então a gente tem essa preocupação e tem acompanhado. O que a gente e os sindicatos estamos fazendo é acompanhar e dialogar com o governo federal, sobre como serão as alternativas a esse tarifaço”.

O presidente da Agência de Desenvolvimento do ABC, considera que os EUA já têm grande vantagem na balança comercial, diferente do que diz Trump. “Um dado importante para ressaltar nessa discussão é que, dos 10 principais produtos que os Estados Unidos mandam para o Brasil, oito tem ex-tarifários, ou seja, já não pagam taxa de importação, e a média de taxa dos produtos americanos que entram no Brasil é 2,7%”, expõe.

Apesar do clima político desfavorável, economicamente Silva, acredita que ainda pode ocorrer uma solução diplomática antes de 1° de agosto, quando as novas tarifas entram em vigor. “O histórico brasileiro foi sempre ter uma diplomacia muito respeitada em todo mundo, nos governos do presidente Lula sempre houve uma relação muito boa e diplomática, do diálogo e da negociação. Eu acredito que ainda há espaço para a negociação, para a conversa, o melhor caminho é as partes resolverem conversando para evitar impactos em ambas economias, mas uma coisa deve ser clara, não podemos ameaçar ou deixar que ameacem a soberania nacional, acreditar no diálogo, mas sempre colocando a soberania nacional junto”, destaca.

A indústria de armamento do ABC exporta bastante para os EUA, isso se deve à CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos) que tem fábrica em Ribeirão Pires. Aroaldo diz que essa indústria tende a sofrer um impacto negativo como também a de pneus, baseada em Santo André. “A cidade pode ter um impacto na economia e nos empregos”, avalia. Da mesma forma o setor de pneus. A Bridgestone deixou de produzir pneus de passeio para focar a fábrica em solo andreense em pneus para veículos pesados e exportação. O setor também vem combatendo a entrada dos pneus para carros de passeio, vindos de fora. “A gente já vem dialogando com a indústria de pneus já faz algum tempo, o governo federal já começou a tomar medidas para proteção do mercado nacional. A Bridgestone está se especializando em pneus maiores com esse nicho no mercado estadunidense. A gente acredita que, em se mantendo a tarifa, deve ser prejudicada e afetar diretamente essa planta no ABC. A gente tem essa preocupação com a indústria de pneus, com a CBC e com a indústria de uma forma geral”, completa Silva.

SIMPI

Para o presidente do Simpi (Sindicado da Micro e Pequena Indústria), Joseph Curi, o ABC será impactado e não será um impacto pequeno. “O elo mais fraco é o dos pequenos negócios porque 100% deles vão perder pedidos se a tarifação se mantiver e os EUA vão ter que encontrar em outros países o mesmo produto. O (ministro Geraldo) Alckmin deve finalizar essa negociação antes de 1° de agosto. Quem está no campo da exportação indireta, que faz os componentes e fornece para os que exportam, será muito penalizado”, diz.

Curi diz que a equação política deve ser resolvida antes para uma negociação em bases reais. “O presidente Trump está baseando sua política externa em fatos que não são reais. Eu acho isso uma temeridade pois coloca em risco empresas, empregos e a soberania, tudo baseado em fatos inverídicos. A nossa balança comercial com os EUA é deficitária, ou seja, os Estados Unidos arrecadam mais. Com o tarifaço os produtos brasileiros não vão chegar às prateleiras dos EUA e o ABC não tem como bancar isso e quem vai pagar essa conta? Vai parar no estoque, vão buscar novos compradores? Os bancos não vão emprestar dinheiro para o empresário que estiver nessa situação. Esse tarifaço eleva a inflação nos EUA como pode acontecer no Brasil também com as medidas retaliatórias”.

O representante das pequenas e médias indústrias considera que, no fim das contas haverá entendimento. “Eu avalio que a negociação é o grande caminho e eu acredito na habilidade do vice-presidente Alckmin. A diplomacia americana está fragilizada pelo governo ter aumentado taxas em todo o mundo. O Canadá se pronunciou recentemente que a sua soberania não está em negociação e que não precisa dos EUA”, reproduz. Por fim Joseph Curi, considera que o presidente americano ainda poderá corrigir o rumo. “O Trump é duro em suas posições, mas não é burro, ele pode voltar atrás e é isso que desejamos para uma solução pacífica”, completa.

 

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Seção: Economia