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Publicado em 13/07/2025 - 07:56 / Clipado em 13/07/2025 - 07:56

Apagão de mão de obra na construção civil do ABC faz empresas buscarem saídas


George Garcia 

 

Não é de hoje que o setor da construção civil encontra dificuldades na contratação de mão de obra, porém nos últimos anos a situação piorou. Os jovens não veem atratividade na área, apesar dos salários favorecidos pela escassez de pessoal. É nesse ponto que as construtoras querem atacar, a de mostrar que o setor pode ser atrativo, que as condições de trabalho na área hoje são muito mais seguras e que há possibilidade de crescimento profissional. A Acigabc (Associação dos Construtores, Imobiliárias e Administradoras do Grande ABC) promove em agosto um encontro para tratar do tema.

Para Julio Diaz Cabricano, que dirige a Suporte Engenharia e é presidente da Acigabc, está difícil encontrar pessoal no mercado para trabalhar em obras, e a dificuldade está disseminada em todas as especializações, como pedreiros, azulejistas, encanadores, eletricistas, gesseiros e armadores.

“Houve uma mudança do que o jovem entende o trabalho, perdemos para outras áreas, pois quem entra no mercado prefere o trabalho remoto ou atuar como prestador de serviços e se considerar empreendedor. Um jovem prefere trabalhar com uma plataforma de transporte, por 12 horas e no final do mês não chega a tirar R$ 3 mil, na construção civil ele vai tirar de R$ 7 mil a R$ 8 mil considerando o salário fixo, mais tarefas que ele pode realizar”, explica.

Diretor da Suporte, Cabricano conta que, além do salário, há o pagamento de benefícios, e a relação de precariedade, que era comum no passado, não existe mais. “As construtoras não pegam se o trabalhador não apresentar todos os documentos para registro. Além disso, é possível crescer no setor muito mais rápido do que em outra atividade. “Se a pessoa não sabe nada pode começar como ajudante e virar meio-oficial e depois oficial. É possível galgar posições muito mais rápido”, comenta.

Atividade menos insalubre

Com as exigências legais, novos materiais e tecnologias incorporados à construção civil, a atividade ficou menos insalubre. “As condições são muito melhores, as obras são mais limpas e seguras”, comenta. O diretor da Suporte conta que se o jovem tiver formação há muitas possibilidades de atuação também na parte mais técnica e de engenharia.

A falta de mão de obra atrapalha o segmento justamente em um momento de grande crescimento do setor. No ano passado houve recorde de vendas de imóveis novos no ABC, puxado principalmente pelos imóveis mais populares, dentro das faixas iniciais do programa Minha Casa Minha Vida.
Julio Diaz Cabricano, dirige a Suporte Engenharia e é presidente da Acigabc. (Foto: Divulgação)

O diretor técnico da Construtora MBigucci, Milton Bigucci Júnior, considera que a alta de vendas e a falta de mão de obra têm colocado as construtoras em dificuldades até para cumprimento de prazos.

“Nos últimos dois anos tivemos muita dificuldade em encontrar profissionais qualificados e recentemente isso tem aumentado, difícil contratar até ajudante geral para as obras. As dificuldades ocorrem principalmente nos prazos e custos das obras em andamento. A questão do prazo influencia diretamente nos custos, além da questão da oferta e procura que aumenta ainda mais este custo”, aponta.

O diretor técnico diz que na MBigucci encontra dificuldade para contratar pessoal em todas as especialidades por falta de pessoal no mercado. “A falta de mão de obra é geral, mas vale destacar a falta de pedreiros e carpinteiros que são mais perceptíveis. Porém, como já citado, todos os profissionais estão em falta, inclusive ajudante geral”, reforça.

O Senai é apontado por Cabricano e Bigucci Júnior como um dos principais parceiros na formação de mão de obra, porém falta mais apoio de outros atores, como as prefeituras. “O apoio dos municípios existe, mas poderia ser muito maior”, relata o presidente da Acigabc.

“A MBigucci tem buscado melhorar a produtividade dos profissionais com procedimentos específicos e de novas metodologias, como o Lean Construction, que visa a redução de desperdícios, inclusive otimização de tempo, entre outros itens. Existem cursos, principalmente no Sistema S, para formação de profissionais, porém a procura é inferior à demanda que o mercado necessita”, salienta o diretor da MBigucci.

Ajudantes

Claudio Gomes, sócio da Pompeu Engenharia e diretor regional do Sinduscon ABCD, considera também que o jovem não tem interesse em ingressar na área da construção civil, e está mais atraído pela área de tecnologia e de prestação de serviços em outros setores.

“Já se notava, ao longo dos últimos 10 anos e com o advento de novas profissões (como aplicativos de entrega ou de transporte), surgiu uma espécie de desinteresse da força de trabalho mais jovem em ingressar na construção civil. Notadamente, nos últimos cinco anos, essa falta tem se agravado ano a ano. Isso tem causado maior dificuldade em cumprir prazos, consequentemente afeta toda a cadeia, mais ainda em épocas de juros altos”, sustenta.

Gomes diz as vagas sobram em todas as especializações na área da construção civil. Em praticamente todas as frentes de trabalho de uma obra há falta de pessoal. “Há vagas, tranquilamente, em todas as especializações. Entre elas, nos parece ser maior a necessidade de carpinteiros e de encanadores. Também notamos a dificuldade de encontrar mão de obra especializada e produtiva nos revestimentos de fachada, executada por pedreiros. O grupo de trabalho do Sinduscon concluiu ainda que há um déficit gigante quanto a mão de obra de ajudantes. Essa função é, historicamente, a ‘porta de entrada’ de um trabalhador em um canteiro de obra”, explica.

Os trabalhadores que entram no segmento e demonstram interesse, logo são escolhidos para aperfeiçoamento em determinada área e têm oportunidade de crescimento profissional. “As construtoras têm ficado mais atentas em seus quadros, tentam enxergar nos ajudantes aqueles que mostram potencial para uma qualificação a curto prazo. Há parceria com o Senai para novas turmas em todas as especializações, bem como na função de mestre de obra, com uma turma a começar em Santo André”, anuncia Claudio Gomes.

O diretor regional do Sinduscon também considera que as prefeituras poderiam ajudar mais e, com isso, não ajudariam apenas um setor importante para a economia, mas gerariam mais empregos. “As prefeituras podem incentivar, por exemplo, criando alguma vantagem fiscal para empresas que demonstrem investimento em qualificação, bem como divulgar e incentivar eventos em escolas municipais para atrair os jovens”, diz.
Claudio Gomes, sócio da Pompeu Engenharia e diretor regional do Sinduscon ABCD, diz que falta de pessoal gera atrasos e prejuízos. (Foto: Divulgação)

Custos

Claudio Gomes diz que as construtoras perdem com a falta de mão de obra que atrasa as entregas e é uma crise que tem se arrastado nos últimos anos. “Nós acreditamos que, embora exista o INCC (Índice Nacional da Construção Civil), acumulado em 7,21% nos últimos 12 meses, ele não reflete aspectos mais subjetivos como o absenteísmo ou a baixa produtividade. A cada mês de obra atrasada, as empresas perdem, no mínimo, 1% ao mês, perda real causada pela manutenção da equipe de gerenciamento da obra, gastos com concessionárias, segurança e demora adicional ao receber os financiamentos bancários dos adquirentes”, calcula o empresário.

Municípios oferecem cursos através de parcerias

Questionada, a Prefeitura de São Caetano informa que no primeiro semestre o Portal do Emprego, mantido pelo município recebeu cerca de 120 vagas para profissionais da construção civil, mas que só 70% foram preenchidos. “O percentual demonstra boa aderência entre a oferta e a procura. No entanto, ainda observamos desafios no preenchimento de vagas que exigem qualificação técnica mais específica”, diz.

O município não tem cursos voltados para a formação de mão de obra para o setor e remete essa carência de formação para o Senai, que dá essa qualificação profissional. Segundo a administração, a necessidade de especialização é maior nas segmentos de pedreiros e ajudantes; eletricistas residenciais e prediais; encanadores com domínio em instalações hidráulicas residenciais; pintores e carpinteiros. Há ainda uma procura maior por mestres de obra e encarregados.

Diadema teve diálogo com o Sinduscon, que solicitou cerca de mil profissionais para o preenchimento de vagas. “Apesar da demanda específica não ter sido apresentada dentro do Emprega Diadema, o nosso sistema municipal de emprego e renda, a Prefeitura fecha parceria com entidades, como o Senai, para capacitar profissionais. Na parceria, Diadema terá o papel principal de buscar candidatos a essas vagas. Os cursos na área da construção civil são de instalação e manutenção de pisos vinílicos, reparos de pinturas em edificações, revestimento em paredes externas, instalação de paredes e forros em drywall, instalações hidráulicas prediais, alvenaria sem função estrutural, alvenaria com função estrutural, assentamento de revestimentos cerâmicos, pintura predial, montagem de sistemas hidráulicos prediais, execução de formas de madeira para estruturas de concreto prediais, execução de armaduras para estruturas de concreto armado prediais, instalações elétricas residenciais e prediais e automação. As inscrições para todos os cursos estarão abertas a partir de agosto e serão divulgadas pelos meios de comunicação da Prefeitura e do Senai”, diz a nota.

O CPETR (Centro Público de Emprego, Trabalho e Renda) da prefeitura de Santo André informa que este ano foram cadastradas 105 vagas relacionadas à área, especialmente para as funções de pedreiro e ajudante de obras. Do total, 20 vagas foram preenchidas por meio do sistema municipal. A Escola de Ouro Andreense oferece cursos voltados a construção civil, como de pequenos reparos em revestimentos, pequenos reparos em edificações – pintura e eletricista instalador predial. Os cursos possuem capacidade para 16 pessoas por turma. As inscrições são realizadas através do site da Escola de Ouro (escoladeouro.com.br).

“O principal objetivo da Escola de Ouro Andreense é oferecer um ensino de qualidade com turmas menores, sendo assim o número de vagas é adequado para a demanda ofertada. Apesar disso, com a alta demanda do setor, seguimos em busca de novas parcerias para ampliar os cursos ofertados e a quantidade de turmas”, diz o paço andreense em nota.

As demais prefeituras da região não responderam.

 

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Seção: Cidades