Publicado em 06/07/2025 - 08:03 / Clipado em 06/07/2025 - 08:03
Sistema de Zona Azul no ABC pune motoristas sem dar margem para erro
Amanda Lemos
Parar o carro por alguns minutos para pagar uma conta, deixar os filhos na escola e/ou para aproveitar uma festa junina pode custar caro em cidades do ABC como São Caetano e Mauá. Isso porque a Zona Azul nesses municípios não adota qualquer tempo de tolerância, o que tem gerado uma onda de reclamações de motoristas – muitos penalizados mesmo na tentativa de cumprir as regras ou ao enfrentar limitações tecnológicas.
Em São Caetano, o sistema de estacionamento rotativo passou por expansão: de 3.780 vagas em 2024, o número saltou para até 4.200 neste ano, conforme autorizado por decreto municipal. E a Prefeitura afirma oferecer diversas opções de pagamento, como aplicativo (Pare Azul), Pix, QR Code, cartões e dinheiro – com apoio de monitores nas ruas. Ainda assim, quem não ativa a vaga imediatamente após estacionar já corre o risco de ser notificado.
Caso receba a notificação, o motorista tem até 24 horas para regularizar a situação por meio do aplicativo ou dos canais presenciais. Se isso não acontecer, a notificação vira autuação, com aplicação de multa. Não há tempo de tolerância nem período gratuito de permanência, o que atinge diretamente quem faz paradas rápidas ou está em locais com alta rotatividade, como escolas e comércios.
“Levei multa mesmo com o app ativado”
Mesmo motoristas que tentam seguir todas as regras relatam experiências frustrantes. “Mesmo com a Zona Azul certinha, tomei multa por estacionar fora da marcação do chão. Disseram que eu estava ocupando duas vagas, sendo que estacionei entre dois carros — não tinha como parar de outro jeito. As vagas são pequenas demais”, reclama uma moradora que preferiu não se identificar.
Outra moradora relata as dificuldades durante eventos escolares. “Festa junina nas escolas. Tem que sair da festa e ir atrás de alguém que esteja vendendo o ticket pra renovar. Tranquilo sair toda hora, né? Ah, mas tem app. Gente, não é todo mundo que tem cartão de crédito ou celular. Idoso, por exemplo, a grande maioria não sabe ou não tem celular”, critica.
A Prefeitura diz contar com parquímetros e atendimento presencial, inclusive em um ponto fixo na rua Espírito Santo, no bairro Santo Antônio, para quem tem dificuldades com tecnologia. No entanto, a medida é considerada insuficiente por quem precisa de agilidade no dia a dia.
Santo André também é “tolerância zero”
Em Santo André, a Zona Azul conta com 4.605 vagas, número que se mantém o mesmo desde 2024. Segundo a administração municipal, não há previsão de expansão, mas o sistema permite pagamento via app ZUL+, parquímetros, agentes ou pela central de atendimento, o que facilita o acesso para quem tem dificuldade com tecnologia.
A cidade também não oferece qualquer tempo de tolerância nem período gratuito de uso, independentemente da situação. Os meios de pagamento incluem dinheiro, cartões e Pix. A fiscalização e autuação são digitalizadas, conforme o contrato com a empresa responsável. Apesar disso, a Prefeitura afirma que não foram registradas reclamações formais sobre dificuldade para estacionar em áreas escolares ou comerciais.
Isenção existe em Mauá, mas aplicação falha
Em Mauá, há 1.581 vagas ativas de Zona Azul, mesmo número de 2024. A cidade oferece pagamento pelo app Zul+, por parquímetros, e também aceita Pix, dinheiro, cartões e até atendimento com colaboradores nas ruas. O decreto municipal garante duas horas gratuitas diárias a idosos, pessoas com deficiência e autistas.
Apesar disso, a aposentada Maria Benário Soares, de 63 anos, relata que foi notificada mesmo com a credencial de idosa ao estacionar nas imediações da Santa Casa de Mauá, na Vila Assis. “Recebi a notificação nas duas vezes em que fui ao hospital. E estamos falando de um lugar sem estacionamento próprio, que atende gente em situação urgente, sem tempo para sair correndo atrás de ticket”, relata. Em ambas as ocasiões, ela afirma ter resolvido o problema saindo do local onde estava parada.
A Prefeitura admite que há estudos em andamento para ampliar o número de vagas, mas sem previsão para nova implantação. A fiscalização na cidade é feita por colaboradores nas ruas e por um veículo equipado com câmeras, que faz leitura automática das placas e identifica irregularidades em tempo real.
Já em Ribeirão Pires a principal reclamação é a falta de vagas no centro da cidade. “Até tem Zona Azul, mas faltam vagas, principalmente na região central”, reclama o aposentado João das Neves, de 64 anos. De acordo com o munícipe, uma outra dificuldade é encontrar quem venda os tickets. “Minha sorte é que tenho credencial, mas meu filho, por exemplo, toda vez que vai até o Centro prefere ir a pé, porque sabe a dificuldade que é encontrar quem vende o ticket”, diz.
Diadema e Rio Grande adotam outros caminhos
Entre as sete cidades do ABC, Diadema se destaca por adotar um sistema com mais flexibilidade. Com 1.424 vagas ativas de Zona Azul e sem previsão de ampliação, a cidade oferece pagamento digital pelo app Fácil Estacionar. Além disso, há 15 minutos de tolerância antes do início da cobrança e mais 5 minutos para revalidação – modelo que, segundo a Prefeitura, evita penalizações imediatas e permite correções.
Para quem tem dificuldades com tecnologia, a cidade mantém pontos de venda físicos para compra de créditos ou tickets avulsos. A fiscalização é feita pela empresa concessionária, e a digitalização completa do processo ainda está em estudo.
Já Rio Grande da Serra suspendeu completamente o sistema de Zona Azul em 2025, após pedido da empresa responsável. A Prefeitura avalia a rescisão do contrato e estuda reduzir o número de vagas, ao levar em conta demandas locais e a presença de áreas com estacionamento especial, como vagas reservadas para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Enquanto o serviço esteve ativo, a cidade oferecia 15 minutos de tolerância, isenção no horário do almoço (12h às 13h) e gratuidade aos domingos e feriados.
Ribeirão Pires e São Bernardo não responderam até o fechamento da reportagem.
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Seção: Cidades