Clipclap

Aguarde ...

Site Repórter Diário

Publicado em 11/06/2025 - 18:28 / Clipado em 11/06/2025 - 18:28

Espera de meses por cirurgia ocular não se resolve com mutirões, diz especialista


George Garcia 

 

No mês de junho, acontece o Junho Violeta, um período de ações pontuais em relação à ceratocone, uma doença oftalmológica que atinge a córnea e acomete crianças e jovens. Por conta disso são feitas campanhas de informação sobre a doença, mas o fato é que as demora para os procedimentos mais complexos, como cirurgias de catarata ou retina, pode levar à cegueira. Apesar das prefeituras do ABC alegarem não terem filas, uma cirurgia de catarata, por exemplo, pode demorar de um a 24 meses na região. São comuns mutirões de cirurgias para dar vazão às filas, porém, para especialista ouvido pelo RD, essas ações pontuais não resolvem o problema das filas que são crônicas no atendimento de doenças dos olhos pelo SUS.

O Hospital Municipal de Olhos de São Bernardo realiza ao longo do mês de junho uma campanha informativa sobre a ceratocone. Neste ano, só na cidade, foram realizados 250 diagnósticos da doença. Além desta frente de atuação, a cidade também informa que faz cirurgias de retina e de catarata, com o tempo de espera variável de 20 a 40 dias, dependendo do caso. A cidade também realiza exame de mapeamento de retina no HMO, com tempo médio de espera de 30 dias.

Em Santo André cirurgias oftalmológicas são feitas no Centro Hospitalar Municipal e a prefeitura diz que não tem filas de espera na especialidade. O município informa que, no caso de cirurgia de catarata o atendimento acontece, dentro de um fluxo de 30 dias.

A prefeitura de Diadema não citou nenhuma campanha específica sobre a ceratocone. Sobre os procedimentos oftalmológicos em geral o município explica que a rede municipal atende, porém a espera por uma cirurgia de catarada pode levar de 18 a 24 meses. Já as cirurgias de retina são encaminhadas para o AME (Ambulatório Médico de Especialidades) de Mauá. O município relata dificuldade para a contratação de médicos especialistas, e na área de oftalmologia não é diferente. “A Secretaria Municipal da Saúde vem trabalhando para recompor o RH e conta com OSS (Organização Social de Saúde) para especialidades oftalmológicas”, diz nota da administração.

São Caetano também não terá uma campanha específica para a ceratocone. A prefeitura informou que foram diagnosticados no ano passado uma média de 100 casos da doença por mês e neste ano a média é de 50. O Estado recebe esses pacientes. “Atualmente os pacientes que necessitam são encaminhados para vagas do Estado. Colocamos no PPA (Plano Plurianual) a intenção de começar a realizar crosslink no município”, diz a prefeitura, em nota. O crosslink é um tratamento menos invasivo da córnea e evita a progressão da doença.

O paço sancaetense diz que não há filas para consultas ou procedimentos oftalmológicos na cidade. No caso de uma cirurgia de catarata, por exemplo, o tempo médio de espera é de dois meses. A cidade também faz cirurgias de retina, e a espera é de 30 a 45 dias.

Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra não responderam.

Para o médico Bruno Fontes, diretor da SBO (Sociedade Brasileira de Oftalmologia), o problema da fila para tratar doenças dos olhos no SUS é crônico e mutirões não resolvem. “Servem para criar um tipo de atenção e atender um certo número de pessoas de demanda reprimida. Toda a atenção é válida, mas acho que isso não vai resolver o problema, que se resolveria com centros de referência que tenham profissionais qualificados e infraestrutura adequada também, como equipamentos, diagnósticos, terapêutica, centro cirúrgico, enfim, ter centros de referência para levar a atenção de forma precoce”, aponta.

Segundo Fontes, o tempo é crucial para um bom resultado do tratamento ou da cirurgia, se for o caso. “São várias as doenças oculares que se agravam com o tempo, podemos citar a retinopatia diabética, o glaucoma, degeneração macular e descolamento de retina. Essas são doenças que podem levar à perda irreversível da visão. A catarata é uma causa de cegueira, mas ainda bem que é reversível e ela também vai progredindo com o tempo, mas quando é feita cirurgia, se o paciente não tiver nenhuma outra doença, acaba recuperando a visão o que é uma coisa muito boa. Então a oftalmologia hoje é muito voltada para o diagnóstico e intervenção precoce para manter a saúde visual das pessoas; o diagnóstico tardio pode levar a uma consequência de danos irreversíveis à visão”, diz o médico.

Sobre a dificuldade, alegada pela prefeitura de Diadema, para a contratação de especialistas, o diretor da SBO, diz que não faltam profissionais, mas infraestrutura para que trabalhem com qualidade. “As cidades não têm dificuldades de contratar oftalmologistas, o que acontece é que eles, como qualquer profissional, não vão ficar em locais que não têm condições ideais de trabalho e nem previsibilidade. Muitas vezes aceitam trabalhar em cidades menores e aí muda a gestão e eles são sumariamente demitidos, então não têm estabilidade. Para acabar com esse problema teria que ser criado o plano de carreira do oftalmologista, como tem no Direito e aí sim os oftalmologistas iriam para essas cidades sabendo que existe um plano de carreira e estabilidade no trabalho, portanto se falta profissional não é culpa do médico, se você der condições eles vão”, completa.

 

https://www.reporterdiario.com.br/noticia/3650322/espera-de-meses-por-cirurgia-ocular-nao-se-resolve-com-mutiroes-diz-especialista/

Veículo: Online -> Site -> Site Repórter Diário

Seção: Cidades