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Publicado em 03/06/2025 - 08:05 / Clipado em 03/06/2025 - 08:05

ABC opta por mutirões e especialista vê ineficácia da gestão das filas no SUS


George Garcia 

 

Regularmente as prefeituras lançam mão de mutirões de exames, de pequenas cirurgias e de consultas com determinada especialidade para dar vazão às filas de espera para alguns procedimentos médicos que levariam meses e até mais de um ano para serem realizados pelo SUS (Sistema Único de Saúde), seguindo a agenda médica normal. Para especialista na área de gestão em saúde a estratégia, que traz um efeito imediato, com o esvaziamento quase instantâneo das agendas médicas, revela falta de planejamento e de recursos humanos e materiais na área da saúde gerida pelos municípios.

Para Luciane Morelis de Abreu, coordenadora do curso de Tecnologia em Gestão Hospitalar do Centro Universitário da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC) grande parte dos mutirões são realizados para dar vazão à uma longa fila, o que revela ineficiência da gestão. “Isso ocorre quando não se tem um planejamento estratégico como com controle das filas, dos fluxos de atendimento e pode existir também a falta de especialistas em algumas regiões. Os mutirões são uma estratégia muito importante para ajudar a dar uma resposta rápida para a população, especialmente em casos onde essa fila é muito longa. No entanto, quando pensamos nos mutirões frequentes, eles acabam sendo a principal forma de atendimento, revelando um problema estrutural, muito mais profundo dentro da gestão. O mutirão serve para aliviar uma demanda acumulada, mas não resolve a causa do acúmulo. Se as filas só aumentam e esses mutirões acabam se tornando uma rotina, o sistema está irregular, que o agendamento não está acontecendo de forma efetiva e que a oferta de serviços não está acontecendo da forma como deveria”, aponta a especialista em gestão hospitalar.

Para Luciane o ideal seria que os exames fossem agendados de forma contínua e que haja uma equipe qualificada evitando filas e a necessidade de mutirões. “Os mutirões ajudam, mas não podem substituir o planejamento e a organização permanente da rede de saúde. A gestão precisa funcionar bem todos os dias e não somente em ações pontuais”, diz.

Pandemia

A pandemia da covid-19, iniciada há mais de cinco anos ainda traz efeitos que perduram na saúde pública. Exames e procedimentos que ficaram suspensos por longos períodos ainda trazem reflexo e um passivo que os gestores municipais ainda tentam contornar. “O impacto da pandemia ainda é sentido na saúde pública, a crise sanitária agravou não só o sistema de saúde em si, mas a economia das famílias que perderam emprego e consequentemente o plano de saúde, passando a depender do SUS. Fora isso, durante a pandemia muitos exames e procedimentos foram suspensos ou adiados, o que gerou um represamento de demandas, que alguns municípios podem tentar dar conta até hoje. Mesmo cinco anos depois as consequências continuam afetando o acesso à saúde pública o que sobrecarrega o sistema. O aumento da população aliada ao represamento e limitação de recursos contribui para o aumento das filas e isso exige ainda mais planejamento, ampliação de oferta e políticas públicas integradas”, sustenta Luciane.

Há ferramentas de gestão que podem resolver gargalos dos atendimentos, reduzir as filas e proporcionar um atendimento melhor de uma forma geral no SUS. Segundo a especialista em gestão hospitalar os sistemas devem priorizar a integração de sistemas informatizados, que, no geral, não se comunicam. “Os sistemas não se conversam, principalmente a atenção primária com a alta complexidade. Se forem integrados isso permitirá aos profissionais acompanharem exames e procedimentos, isso evita remanejamento de vaga, despedício, melhora o direcionamento dos pacientes e dá um indicador de saúde muito mais fidedigno. Painéis de monitoramento são fundamentais, ajudam os administradores a gestores a identificarem as áreas sobrecarregadas mas eles precisam ser preenchidos de forma correta, mas muitas vezes isso não acontece. Outra coisa é o uso de protocolos bem definidos, o que muitas vezes não encontramos nas unidades de saúde. Com pessoal treinados essas filas acabam sendo desnecessárias, todas essas ferramentas bem utilizadas permitem uma gestão assertiva e melhoram o acesso da população aos serviços”, completa Luciane Morelis de Abreu.

Mutirões

As prefeituras seguem fazendo mutirões para atendimentos e exames em diversas especialidades. A prefeitura de Diadema anunciou na última semana um mutirão de fisioterapia em parceria com a Santa Casa. Entre fevereiro e abril a prefeitura realizou um mutirão de atendimentos, denominado Força Tarefa na Saúde, que realizou que atendeu 55 mil pessoas e reduzindo pela metade a fila de espera que contava com 120 mil exames e consultas em aberto. Além disso a Carreta da Mamografia, parceria com o Governo do Estado, realizou 900 procedimentos. Até o fim do ano a prefeitura pretende realizar outro mutirão, este para consultas com especialistas e cirurgias. A administração municipal diz que a cirurgia com maior fila de espera é a de laqueadura que, no momento está atendendo pacientes que aguardam o procedimento deste agosto de 2024, portanto há dez meses. O eco doppler é o exame mais demandado e a especialidade médica mais solicitada é a de ortopedia.

A ortopedia também é a especialidade médica mais demandada em Ribeirão Pires e o ecocardiograma o exame mais solicitado. A cidade ainda não teve mutirão neste ano, pois realizou uma grande ação entre outubro e janeiro, mas prevê novas ações do tipo ainda neste ano. “Esse mutirão teve um importante impacto na redução de filas de exames e consultas especializadas, atendendo centenas de munícipes e permitindo maior fluidez no sistema de regulação. Estamos em fase de análise para a realização de novos mutirões ainda este ano”, diz informe da prefeitura.

A Prefeitura de São Bernardo informou que a atual gestão assumiu uma demanda represada de mais de 94 mil procedimentos a serem realizados, entre consultas e exames. “Visando enfrentar e resolver essa fila foi lançado o Programa Caravana da Saúde, que já solucionou ao menos 94% dessa demanda, por meio de mutirões aos finais de semana e da otimização do atendimento de rotina nas unidades de saúde. Atualmente, a fila de exames que tem maior demanda é a de ressonância magnética, que está sendo atendida com o reforço da Carreta de Ressonância Magnética, equipamento moderno e pioneiro, que desde o início de maio já realizou mais de 1.000 exames. A cidade tinha uma demanda reprimida de cerca de 6.000 exames”, diz a administração que reforça que os mutirões aos finais de semana seguirão sendo realizados até o atendimento total da fila de espera e/ou se houver necessidade, dentro das estratégias da Secretaria de Saúde.

Só a prefeitura de São Caetano informa não adotar a estratégia dos mutirões de saúde e apostar na gestão da saúde para evitar as filas. “Ao invés de centrar esforços apenas na realização de atendimentos pontuais, como uma primeira consulta isolada, o município tem como prioridade assegurar o acompanhamento completo dos usuários, oferecendo, sempre que necessário, a continuidade do cuidado com exames, retornos e encaminhamentos dentro das linhas de cuidado adequadas. Para isso, estão sendo implementadas medidas de ampliação da oferta assistencial, buscando equilibrar a demanda reprimida com a oferta de consultas e exames. Essa ampliação envolve também a qualificação da fila de espera, com revisão criteriosa dos encaminhamentos, definição de protocolos de acesso por critérios clínicos e priorização por gravidade, além do monitoramento sistemático dos tempos de espera”, diz nota do Palácio da Cerâmica.

Mauá, Rio Grande da Serra e Santo André não responderam.

 

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Seção: Saúde