Publicado em 03/02/2025 - 07:55 / Clipado em 03/02/2025 - 07:55
Escolas do ABC buscam se adaptar frente à proibição do uso de celulares
POR REDAÇÃO
A recente proibição do uso de celulares nas escolas de todo o País impôs um desafio para gestores e educadores, que ainda buscam estratégias para lidar com a questão. A medida, prevista na lei 4932/24, restringe o uso dos aparelhos nas dependências das instituições de ensino, mas sua aplicação exige planejamento pedagógico, principalmente nos momentos de lazer, como o intervalo, quando o uso do celular, até então, era mais intenso.
Consultadas pelo RD, as prefeituras da região informaram que a abordagem da proibição será feita de forma pedagógica e interdisciplinar, mas ainda está em fase de adaptação. Em Ribeirão Pires, alunos do 6º ao 9º ano participarão de debates e estudos sobre a legislação, como auxílio à Secretaria de Educação na estruturação de estratégias para tornar a norma efetiva sem prejudicar a socialização dos estudantes.
Em Diadema e Rio Grande da Serra, atividades lúdicas já fazem parte da rotina dos intervalos, mas ainda devem sofrer adaptações. Segundo a Prefeitura de Diadema, alunos do 1º ao 5º ano fazem suas refeições e depois participam de jogos e brincadeiras dirigidas pelos professores. Também têm à disposição livros e revistas adequados à faixa etária. Já em Rio Grande da Serra, a proibição do celular já existe, e as escolas oferecem cantinho da leitura, jogos de tabuleiro e pebolim nos intervalos.
Nas escolas estaduais, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) divulgou documento com diretrizes para garantir o cumprimento da norma. Entre as orientações estão campanhas educativas, armazenamento adequado dos aparelhos e medidas disciplinares em caso de descumprimento. O secretário Renato Feder reforça que a tecnologia deve ser aliada da educação, mas o uso excessivo pode comprometer o aprendizado e a socialização dos alunos.
No ensino particular, escolas do ABC também se adaptam à nova realidade. No Liceu Monteiro Lobato, em Santo André, a diretora Giselle Cruz explica que a escola já desenvolvia estratégias para reduzir o uso dos celulares. “Nos momentos de intervalo, liberamos mesas com atividades, como tênis de mesa, tacobol e pebolim. Também disponibilizamos jogos de tabuleiro e estantes literárias, para incentivar a leitura”, explica.
Ainda para lidar com a nova exigência da lei, a escola realizará, todas as últimas quartas-feiras do mês, a partir de fevereiro, um grupo de estudos com um bate-papo com pais e equipe pedagógica para abordar a influência da tecnologia e a ansiedade na nova geração. “Vamos utilizar como base de estudos o livro ‘Geração Ansiosa’, que traz essa reflexão para este momento que enfrentamos”, diz. Segundo Giselle, as medidas valem para os pequenos e os alunos maiores do Liceu, mas serão ainda mais incentivadas para os alunos dos anos finais, porque possuem maior conexão com o celular.
Proibição não é suficiente
Beatriz Cortes, diretora executiva da Cenpec, ONG que desenvolve projetos sobre equidade e qualidade na educação pública, alerta que simplesmente impor a proibição não é suficiente. “É preciso um planejamento pedagógico que leve em conta a relação dos jovens com a tecnologia”, afirma educadora em entrevista exclusiva ao RDtv.
A docente lembra que, durante o isolamento social, o celular se tornou meio essencial de comunicação, que resultou em letramento digital obrigatório para todas as idades. “Quando os alunos voltaram para a escola, já chegaram com o aparelho na mão, muito sabidos no uso do celular. As escolas vão ter de repensar maneiras de reduzir esse uso de uma forma que não transforme isso em um problema exclusivo da escola”, avalia ao frisar que a escola, para além do aprendizado, é um ambiente de convivência.
Entre as soluções sugeridas por Beatriz, três se destacam:
Planejar atividades supervisionadas durante o recreio, incentivando a interação social sem o uso dos dispositivos;
Criar momentos estruturados de convívio entre os alunos, substituindo o tempo ocioso com atividades lúdicas e coletivas;
Discutir pedagogicamente a proibição, abordando temas como saúde mental, relações virtuais e reais, além do papel das leis.
Outro ponto central da discussão é a saúde mental dos alunos. O uso excessivo das redes sociais pode intensificar problemas emocionais, principalmente devido à comparação com padrões irreais exibidos online. Nesse sentido, na visão de Beatriz, a escola tem papel fundamental na proteção dos jovens contra essa pressão constante, e o ciberbullying também entra na pauta. “A restrição ao uso de celulares no ambiente escolar não elimina o problema, mas permite abordá-lo de forma educativa, reforça a importância do respeito e da conscientização sobre limites digitais”, diz.
Envolvimento da família
A questão extrapola os muros da escola e envolve a família. Beatriz ressalta que os pais devem monitorar o uso de eletrônicos em casa, estabelecer limites e incentivar outras atividades, como leitura e esportes. “As crianças seguem exemplos. Se os adultos estiverem sempre no celular, os filhos terão dificuldade em compreender a necessidade da restrição”, completa.
Fabiana Alves Pretel, mãe de Laura Pretel, de 12 anos, conta ao RD que, antes mesmo da medida se tornar lei, já havia proibido que a filha levasse o celular para a Escola Estadual Visconde de Mauá. “Ela tem horário certo e limitado para usar o celular, sempre depois de fazer as lições, as tarefas de casa e contar como foi o dia”, diz Fabiana. Segundo a mãe, Laura utiliza o celular durante 45 minutos diários, principalmente para jogar e conversar com amigas, sempre sob monitoramento dos pais.
Diante da nova legislação, Fabiana comemora as mudanças e diz sentir alívio quanto aos problemas que o uso excessivo dos eletrônicos poderia trazer. “A criança precisa viver sua infância, brincar, jogar bola, correr, ser criança. A partir do momento em que autorizam o uso do celular, seja para uma atividade específica ou não, o controle se perde. Fiquei feliz que limitaram o uso, mas espero que essa lei não seja flexibilizada”, diz.
Veículo: Online -> Site -> Site Repórter Diário - Santo André/SP
Seção: Cidades