Clipclap

Aguarde ...

Site Valor Econômico - São Paulo/SP

Publicado em 30/04/2026 - 10:12 / Clipado em 30/04/2026 - 10:12

Brasil e China unem forças para realizar projetos nas áreas de saúde e agronegócio


Os dois países firmaram parcerias estratégicas envolvendo produção de medicamentos, uso de inteligência artificial (IA) em hospitais e mecanização da agricultura familiar, entre outros projetos

 

Por Andrea Vialli, Para o Valor

 

Após uma missão de cinco dias do Ministério da Saúde na China, entre os dias 15 e 19 de março, o ministro Alexandre Padilha retornou ao Brasil com parcerias estratégicas na bagagem, envolvendo produção de vacinas e medicamentos, uso de inteligência artificial (IA) em hospitais e aquisição de equipamentos hospitalares de alta tecnologia. Alguns dos acordos já estavam em andamento — é o caso da parceria com a WuXi Biologics, gigante chinesa do setor de biotecnologia, que vai possibilitar ampliar em 30 vezes a produção da vacina Butantan-DV, de dose única, contra a dengue, hoje a cargo do Instituto Butantan. “Trata-se de uma transferência de tecnologia invertida, pois a WuXi montou uma unidade produtiva na China para fabricar a vacina a partir da tecnologia brasileira desenvolvida pelo Butantan”, explica Padilha.

Hoje, o Butantan tem capacidade para produzir em torno de 1,3 milhão de doses da vacina, e o acordo com a WuXi vai elevar esse patamar para uma entrega entre 25 milhões e 30 milhões de doses até o fim de 2026, volume que deve chegar a 50 milhões em 2027. Além da vacina da dengue, foi assinado um memorando de entendimento entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a WuXi para ampliar a capacidade produtiva da vacina da febre amarela pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Biomanguinhos).

Outra frente de parcerias é no campo dos medicamentos e de equipamentos hospitalares de alta tecnologia. A missão do Ministério da Saúde incluiu visitas a dez empresas, entre elas a Gan & Lee Pharmaceuticals, que já produz insulina glargina para o Sistema Único de Saúde (SUS). A parceria de desenvolvimento produtivo (PDP) promoveu a transferência de tecnologia da empresa chinesa, incluindo o ingrediente farmacêutico ativo (IFA) para Fiocruz e Biomm. No campo dos hemoderivados, foi assinado um memorando de entendimento entre a Hemobrás e a Tiantan, do grupo Sinopharm, maior produtora de medicamentos hemoderivados da China. Segundo Padilha, o acordo visa fomentar a produção local de hemoderivados, medicamentos utilizados por pessoas com hemofilia, doenças autoimunes e casos graves atendidos em UTIs.

A terceira frente de cooperação tecnológica é no âmbito da Rede Nacional de Hospitais e Serviços Inteligentes do SUS, programa que terá R$ 1,7 bilhão do banco dos Brics e prevê a modernização de hospitais já existentes com tecnologias de ponta e IA, além da construção de novos hospitais baseados no conceito. Nesse campo, o Ministério da Saúde firmou acordos com as empresas United Imaging Healthcare e Mindray, do segmento de equipamentos hospitalares de alta tecnologia, e com a CGN, de tecnologias nucleares.

O Ministério da Saúde pretende instalar UTIs de alta tecnologia em 15 regiões e, entre os hospitais a serem construídos, está o novo hospital do SUS de urgência e emergência ligado ao complexo do Hospital das Clínicas de São Paulo, que deverá funcionar no atual prédio da Secretaria de Estado de Saúde. Com previsão de inauguração para 2029, terá mais de 700 leitos, sendo cem de UTI, e será o primeiro hospital do SUS concebido dentro do modelo de hospitais inteligentes. Estão previstos ainda três novos hospitais federais e o novo campus do Instituto Nacional do Câncer (Inca) no Rio de Janeiro, complexo que vai integrar 18 unidades, com inauguração em 2030. “São parcerias estratégicas para trazer equipamentos e serviços inteligentes para o SUS, além de fazer uma ponte para a incorporação dessas tecnologias também para a rede privada”, diz Padilha.

Cientistas em laboratório do Sinopharm Group, maior produtor de hemoderivados da China — Foto: Rolly Reyna /Divulgação
Cientistas em laboratório do Sinopharm Group, maior produtor de hemoderivados da China — Foto: Rolly Reyna /Divulgação
O interesse chinês por parcerias na saúde pública e privada brasileira vem do salto tecnológico que o gigante asiático deu a partir da década de 2010, quando se consolidou como uma potência global em inovação médica, especialmente a partir do 13º Plano Quinquenal (2016-2020), que impulsionou a digitalização da saúde no país, processo ainda mais acelerado pela pandemia de covid-19. “Com a disparada da China nessas tecnologias, o Brasil passou a ser um mercado muito atraente pelo tamanho da população. Além disso, é estratégico, por questões geopolíticas, aumentar a presença na América Latina”, diz Fernanda Chang, líder de negócios com a China da EY Brasil.

Além do campo da saúde, o agronegócio é um dos que têm realizado mais acordos de cooperação, em razão das robustas relações comerciais entre os dois países. Em 2025, as vendas de produtos agro para a China geraram US$ 50 bilhões. “A relação entre Brasil e China no setor agropecuário está evoluindo de um comércio focado puramente em commodities para um codesenvolvimento de ciência e tecnologia voltado à segurança alimentar global”, diz Silvia Massruhá, presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Essa parceria se desdobra em diversas frentes tecnológicas estratégicas: mecanização da agricultura familiar; digitalização e IA; bioinsumos e biotecnologia; e sustentabilidade e protocolos de baixo carbono.

Na primeira frente, exemplo é a tropicalização de maquinário agrícola chinês, com foco na introdução de tratores de 7 a 20 cavalos adequados para sistemas produtivos da agricultura familiar. Por meio de um acordo entre a Embrapa, a Sinomach Digital Technology e a União Nacional das Cooperativas da Reforma Agrária Popular do Brasil (Unicrab), serão criados centros de serviços em assentamentos rurais, com um piloto em Londrina (PR) para o uso cooperativo de equipamentos. O objetivo de longo prazo é que esses equipamentos passem a ser produzidos em solo brasileiro.

 

https://valor.globo.com/publicacoes/especiais/revista-brasil-china/noticia/2026/04/30/brasil-e-china-unem-forcas-para-realizar-projetos-nas-areas-de-saude-e-agronegocio.ghtml

Veículo: Online -> Site -> Site Valor Econômico - São Paulo/SP