Publicado em 28/04/2026 - 10:16 / Clipado em 29/04/2026 - 10:16
Radiologia e programação: as profissões que a IA deveria substituir estão em alta
A história mostra que novas tecnologias criam demanda, mercados e ocupações
Por Alexandre Chiavegatto Filho
Quase tudo que você ouviu nos últimos anos sobre o impacto da IA no mercado de trabalho não se confirmou. Isso inclui manchetes alarmistas, relatórios de consultorias projetando dezenas de milhões de empregos eliminados e prognósticos sombrios feitos por alguns dos maiores nomes da computação.
O caso da radiologia é o exemplo mais didático que a discussão sobre IA no mercado de trabalho já produziu. Em 2016, o pioneiro de deep learning Geoffrey Hinton, hoje laureado com o Nobel, declarou em uma palestra famosa que deveríamos parar imediatamente de formar radiologistas.
Dez anos depois, a realidade não poderia ser mais diferente. Na semana passada, a Medscape divulgou novos dados mostrando que radiologistas ocupam o primeiro lugar na renda entre os médicos especialistas, com um patrimônio líquido de US$ 5 milhões. Os resultados se basearam em uma pesquisa com cerca de 7 mil médicos de aproximadamente 30 especialidades.
O mesmo tem acontecido com programadores, a outra profissão que a IA iria substituir. Nos últimos 15 anos, salários em engenharia de software mais que dobraram, e, nos últimos anos, em particular, o crescimento tem sido expressivo. A mediana salarial da profissão nos Estados Unidos saltou de aproximadamente US$ 115 mil em 2024 para próximo de US$ 130 mil em 2025.
Esse discurso alarmista sobre o impacto da tecnologia parte de uma premissa que a teoria econômica tenta refutar há mais de um século: a falácia da quantidade fixa de empregos (em inglês, lump of labor fallacy).
Essa ideia equivocada considera que existe uma quantidade fixa de trabalho a ser feito numa economia, como se fosse um bolo. Se uma máquina passa a fazer parte desse trabalho, sobram menos pedaços para os humanos. Logo, a automação significaria desemprego.
O raciocínio é bastante intuitivo, mas empiricamente falso. A realidade é que a quantidade de trabalho não é fixa: novas tecnologias criam novas necessidades, expandem mercados antes inviáveis e geram demandas completamente novas.
A ascensão recente dos radiologistas e dos programadores está perfeitamente alinhada com a teoria econômica. Quando uma profissão se torna mais eficiente naquilo que faz, e quando a demanda pelo serviço final é elástica, ocorre um aumento da demanda pelo seu trabalho. Radiologistas equipados com IA laudam mais exames e com mais precisão, e por isso os outros médicos solicitam mais exames de imagem, porque o custo marginal de obter uma resposta diagnóstica caiu.
Isso não significa que a IA seja inócua para o trabalho. Em algumas profissões, como ascensoristas, o ganho de eficiência tecnológica se traduziu em menos postos de trabalho. Mas o debate público não pode continuar refém de previsões que enxergam apenas parte do processo. A tecnologia que elimina algumas tarefas é a mesma que abre mercados, reduz custos, expande demandas e cria profissões que ninguém antecipou.
Veículo: Online -> Portal -> Portal Estadão