Publicado em 16/04/2026 - 09:54 / Clipado em 16/04/2026 - 09:54
Câncer nos olhos: doença rara exige atenção e diagnóstico precoce
Saiba quais são os tipos mais comuns, sintomas e fatores de risco, e entenda como os avanços no tratamento podem preservar a visão do paciente
Por Clara Beatriz Saraiva Ferreira
O câncer nos olhos é uma doença rara, mas pode comprometer seriamente a visão e a saúde. Ele ocorre quando há proliferação de células malignas na região dos olhos, podendo levar à formação de tumores e, em alguns casos, à perda da visão.
Segundo Rubens Belfort Neto, médico oftalmologista e doutor em oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), o número de casos vem crescendo com o aumento da população, o que mostra a necessidade de informação e diagnóstico precoce.
Tipos mais comuns e grupos mais atingidos
Existem alguns tipos mais comuns de câncer nos olhos, que variam de acordo com a idade e as características do paciente.
O retinoblastoma, por exemplo, é um tumor maligno que se origina nas células da retina, estrutura responsável pela visão. É o câncer intraocular mais frequente na infância , geralmente diagnosticado antes dos 5 anos de idade, podendo afetar um ou ambos os olhos.
De acordo com o Ministério da Saúde, a doença pode surgir de forma esporádica, na maioria dos casos, ou ter origem hereditária. Entre os principais sinais estão a leucocoria, um reflexo branco na pupila e o estrabismo.
Outro tipo é o linfoma intraocular primário, uma forma rara de linfoma não-Hodgkin que atinge o olho e ocorre com maior frequência em pessoas com o sistema imunológico comprometido.
Já o melanoma uveal é o câncer intraocular mais comum em adultos. Ele afeta a úvea, que inclui a íris, o corpo ciliar e a coróide, e costuma ter crescimento lento, podendo não apresentar muitos sintomas nas fases iniciais.
Segundo o oftalmologista Rubens Neto, entre adultos, especialmente a partir dos 40 anos, existem dois tipos da doença que se destacam.
O primeiro é o carcinoma de conjuntiva, que se desenvolve na superfície do olho, atingindo a parte branca visível e apresentando comportamento semelhante ao câncer de pele.
Os principais fatores de risco incluem envelhecimento, exposição prolongada ao sol e a imunossupressão, comum em pacientes transplantados, em tratamento oncológico ou com doenças imunológicas.
O segundo é o melanoma de coróide, considerado o tumor mais comum dentro do olho. Nesse caso, o risco está mais relacionado à idade e a fatores genéticos. Os casos costumam ser mais frequentes em pessoas de pele, olhos e cabelos claros.
Como a doença se desenvolve?
Assim como outros tipos de câncer, os tumores oculares surgem a partir de mutações celulares que levam ao crescimento descontrolado das células .
Segundo o oftalmologista, nos tumores de superfície, como o carcinoma de conjuntiva, há maior relação com a radiação ultravioleta . Essa exposição ocorre ao longo da vida, principalmente pelo contato frequente com o sol.
Outro fator que contribui para o desenvolvimento desse tipo de câncer é a imunossupressão, ou seja, a redução da atividade do sistema imunológico e das defesas naturais do corpo .
Já nos casos que se desenvolvem dentro do olho, como o melanoma ocular, o cenário é diferente. De acordo com Rubens Neto, esse tipo de câncer ainda é, em muitos casos, considerado imprevisível.
Ele (melanoma ocular) está mais relacionado à idade e a fatores genéticos. Não existe uma associação clara com hábitos de vida, como acontece em outros tipos de câncer. Por isso, muitas vezes, ele é considerado um evento imprevisível, algo que pode acontecer mesmo em pessoas sem fatores de risco modificáveis.
Um dos maiores desafios do câncer que acomete os olhos é que seus sinais iniciais costumam ser sutis e facilmente confundidos com outras condições do dia a dia.
Rubens Neto explica que sintomas como irritação, vermelhidão e sensação de areia nos olhos podem indicar tumores na superfície, mas também são sintomas comuns de olho seco.
Já alterações como as chamadas “moscas volantes”, que são pequenas manchas que parecem flutuar no campo da visão, e flashes de luz podem estar associadas tanto a condições benignas quanto a problemas mais sérios, incluindo alterações internas como o descolamento do vítreo.
Sendo assim, a orientação é que ao perceber qualquer mudança visual, o paciente procure um oftalmologista.
Na grande maioria das vezes, felizmente, não é câncer. Mas esses podem ser os primeiros sinais de doenças mais graves. E quanto antes o diagnóstico é feito, melhores são as chances de tratamento.
Rubens Belfort Neto
Fatores de risco e prevenção
Entre os principais fatores associados ao desenvolvimento de tumores oculares estão:
- Idade: quanto mais idade, maior o risco
- Exposição ao sol ao longo da vida (radiação ultravioleta)
- Imunossupressão: pacientes transplantados, em tratamento de câncer ou com doenças imunológicas
- Fatores genéticos e características pessoais: em alguns tumores, como o melanoma ocular, pessoas de pele clara, olhos claros e cabelos claros têm maior risco
Embora nem todos esses fatores possam ser evitados, o uso de proteção contra radiação solar e consultas oftalmológicas regulares são medidas importantes para reduzir riscos e detectar possíveis alterações precocemente.
Diagnóstico e exames
O diagnóstico começa com um exame clínico detalhado. Segundo Rubens Neto, em muitos casos, o oftalmologista já consegue identificar sinais suspeitos durante a avaliação inicial.
Para confirmar e avaliar a extensão do tumor, exames complementares são utilizados, com destaque para o ultrassom ocular. Dependendo da situação, também podem ser indicadas tomografia computadorizada ou ressonância magnética.
Com essa combinação de exames, conseguimos estabelecer o diagnóstico com alto grau de precisão e indicar o melhor tratamento.
Rubens Belfort Neto
Tratamento e avanços da medicina
O tratamento varia conforme o estágio da doença . Quando identificado precocemente, é possível tratar o tumor com cirurgia ou radioterapia, muitas vezes preservando o olho e parte da visão.
Em casos mais avançados, pode ser necessária a remoção do olho, em um procedimento chamado enucleação, como forma de impedir a progressão da doença e preservar a vida do paciente.
Apesar da gravidade em estágios avançados, Rubens ressalta que existem avanços importantes na área, o que representa uma boa notícia para futuros tratamentos .
Como exemplo, ele cita o uso de terapias mais recentes para casos metastáticos, como o medicamento tebentafusp, desenvolvido especificamente para melanoma ocular.
Para o especialista, essas inovações trazem novas perspectivas. Ele destaca que a expectativa é de que, nos próximos anos, surjam alternativas capazes de ampliar a sobrevida e melhorar a qualidade de vida dos pacientes .
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