Publicado em 08/04/2026 - 10:12 / Clipado em 09/04/2026 - 10:12
Mais que IA: por que saúde e comunicação correm risco sem a Inteligência Aumentada
Após a euforia com a inteligência artificial, SXSW 2026 aponta um novo desafio: usar a tecnologia para ampliar o pensamento — não para substituí-lo
Por Gustavo Meirelles
Depois de alguns anos de encantamento com a inteligência artificial, 2026 começa a impor um ajuste de expectativas. No SXSW, em Austin, o discurso mudou: menos deslumbramento, mais questionamento.
Uma das provocações mais relevantes veio do antropólogo e futurista Brian Solis, na sessão “Augmented IQ: Scaling Human + AI Potential”. Solis foi direto ao ponto, e trouxe um incômodo necessário para a plateia: estamos usando IA para automatizar o passado, não para construir o futuro. E a consequência é mais profunda do que parece. Em vez de ampliar capacidades e otimizar processos, muitas organizações estão apenas acelerando modelos antigos, agora em escala, muitas vezes gerando conteúdos superficiais e sem criatividade.
É nesse contexto que ganha força o conceito de QIA (Quociente de Inteligência Aumentada). Depois do QI (Quociente de Inteligência), do QE (Quociente Emocinal) e do QS (Quociente Social), o diferencial passa a ser a capacidade de usar IA para potencializar o pensamento humano — sem terceirizá-lo.
O alerta central de Solis é o risco do chamado “Darwinismo Cognitivo”. À medida que profissionais delegam o raciocínio à IA, perdem exatamente aquilo que os diferencia: pensamento crítico, repertório e capacidade de interpretação.
Os sinais já estão por toda parte. O crescimento do chamado AI Slop — conteúdo raso, homogêneo e sem curadoria — e uma sensação difusa de fadiga cognitiva, o AI Brain Fry. Todo mundo produz mais. Nem todos produzem melhor.
O impacto não é apenas criativo, mas também relacional. À medida que o conteúdo se padroniza, a confiança se fragiliza. Fica mais difícil saber o que foi pensado, o que foi apenas gerado — e, principalmente, em quem confiar.
A promessa de produtividade também começa a mostrar fissuras. Uma pesquisa do Wall Street Journal, apresentada por Solis, demonstrou que 19% dos executivos C-level percebem ganhos superiores a 12 horas semanais com IA. Contudo, entre os demais profissionais, esse número cai para 2%. A eficiência, ao menos por enquanto, não é igualmente distribuída.
Há ainda um custo invisível: o chamado “AI Tax”. Estimativas sugerem que até 40% dos ganhos de produtividade são consumidos na revisão, correção e validação do que a própria IA produz. Em vez de exponencialidade, muitas equipes operam em modo retrabalho.
No marketing e na comunicação, o risco é claro: a homogeneização das marcas. Se todos usam as mesmas ferramentas, com os mesmos prompts, o resultado tende a convergir, gerando o que outra palestrante, Gulay Ozkan, chamou de “The Age of Sameness” (A Era da Mesmice)
Na saúde, o alerta é ainda mais sensível. O risco não é apenas de padronização, mas de erosão do raciocínio clínico — substituído por respostas automatizadas que nem sempre capturam a complexidade do cuidado.
A saída não está em frear a IA, mas em reposicioná-la. Automatizar o que é repetitivo, como processos, fluxos e organização. E, mais do que preservar, ampliar o que é humano: criatividade, empatia, curiosidade e visão.
Como resume Solis: “O futuro da IA não pertence a quem pede respostas, mas a quem faz perguntas melhores.”. No fim, a discussão deixa de ser tecnológica e passa a ser estratégica. Não basta adotar IA. É preciso desenvolver inteligência aumentada. Quem usar a tecnologia apenas para repetir o passado pode até ganhar eficiência — mas dificilmente construirá relevância no futuro.
*Os artigos publicados pelo Futuro da Saúde expressam a visão de seus autores e não representam, necessariamente, a posição do veículo. O objetivo é ampliar a reflexão e promover um debate qualificado sobre temas relevantes para a saúde.
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