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Site Valor Econômico - São Paulo/SP

Publicado em 24/03/2026 - 09:52 / Clipado em 24/03/2026 - 09:52

Fleury faz oferta conjunta com Porto para ficar com a Oncoclínicas


Rede de tratamento para câncer com 144 unidades tem passivo de cerca de R$ 3,5 bi

 

Por Beth Koike — De São Paulo

 

Em meio às discussões sobre o futuro da Oncoclínicas, o Fleury entrou na negociação em conjunto com a Porto. A rede de medicina diagnóstica apresentou ontem uma oferta não vinculante para compartilhar o aporte de R$ 500 milhões, anunciado na semana passada. Os recursos seriam aplicados em uma nova empresa a ser criada somente com as 144 unidades ambulatoriais da Oncoclínicas que, por sua vez, seria controlada pelas duas investidoras.

A transação ainda depende de aprovação dos acionistas e fechamento de acordo com os credores. A Oncoclínicas é uma empresa sem controlador definido.

A Oncoclínicas atual, por sua vez, ficaria apenas com os hospitais de Belo Horizonte e Rio de Janeiro, que estão em processo de venda (leia mais em Empresa continua listada, mas sem receita).

 

 

Segundo o Valor apurou, o Fleury deve indicar os nomes do CEO e diretor financeiro até dia 13 de abril e tocar a operação médica, uma vez que a companhia tem esse expertise. Com isso, a Porto que é sócia nessa operação, com a mesma fatia, passaria a ser um acionista de referência, evitando conflitos de interesse diretos com outras operadoras de planos de saúde.

Porto e Fleury têm acordo de exclusividade de 30 dias, contados a partir de 13 de março. Outras propostas podem surgir antes ou após esse prazo.

O mercado reagiu bem ao anúncio e as ações das três companhias fecharam com alta, sendo que Oncoclínicas saltou 57% no pregão de ontem (veja gráfico).

 

 

Pelo acordo divulgado, o aporte de Fleury e Porto seria feito por meio de uma holding, do qual as duas companhias seriam as únicos acionistas e controladoras de todas as clínicas - que é efetivamente o negócio operacional. Além disso, essa rede absorveria até R$ 2,5 bilhões de dívidas da Oncoclínicas. O passivo total da rede de tratamento para câncer é da ordem de R$ 3,5 bilhões, já considerando o aumento de capital fechado em novembro.

A transação prevê ainda uma emissão de debêntures conversíveis em ações ordinárias (ON) no valor de R$ 500 milhões a serem subscritas pela holding, Porto e ou Fleury. A Oncoclínicas também poderia subscrever até 30% do volume desses papéis.

Dona da maior rede de tratamento para câncer com 144 unidades distribuídas em 47 cidades do país, a Oncoclínicas gera interesse de diferentes empresas do setor de saúde e investidores há tempos. Mas sua associação com o Master em 2024 afastou potenciais interessados. O banco de Daniel Vorcaro injetou R$ 1,5 bilhão num aumento de capital em troca de 20% da Oncoclínicas, mas os recursos foram aplicados em CDBs do próprio Master.

Com a deterioração da empresa e possibilidade de recuperação extra ou judicial, os credores, em especial os bancos, começaram a se mexer procurando alternativas já no ano passado.

O Santander, que está na Oncoclínicas via a gestora Geribá, procurou a Porto que, inicialmente, declinou de uma oferta para adquirir o ativo todo diante dos riscos envolvendo Master e Unimed-Rio, que deve cerca de R$ 800 milhões (já provisionados). A Starboard, que fez proposta de reestruturação, em setembro, também chegou a procurar a seguradora, ainda segundo fontes.

Após muitas discussões, chegou-se a um desenho com a criação de uma empresa apartada, com as clínicas e novos acionistas controladores - Fleury e Porto. Ainda assim, o acordo só será fechado se Oncolínicas renegociar a fatia remanescente da dívida, cerca de R$ 1 bilhão, sem riscos de impactos futuros. As negociações com credores preveem alongamento de prazos e perdão da alavancagem que deve superar os 3,5 vezes determinados.

O tratamento oncológico representa a maior despesa para as operadoras de planos de saúde. E a tendência é que esse custo só aumente diante do envelhecimento da população.

Mesmo nesse cenário, os atuais competidores ainda não têm o mesmo porte da Oncoclínicas, que trabalha com custos menores em relação à concorrência - o que gera uma dependência das operadoras e explica o interesse da Porto em entrar nessa operação. O negócio causou surpresa no mercado diante do histórico de rígido compliance da Porto.

A segunda maior empresa de oncologia é a Rede D’Or, que tem cerca de 60 unidades em 12 Estados. Para efeitos de comparação, a receita bruta da D’Or em oncologia foi de R$ 3,9 bilhões no acumulado de 2025. Na Oncoclínicas, a receita somou R$ 4,8 bilhões, considerando os nove primeiros meses, uma vez que o grupo ainda não divulgou o balanço completo do ano passado.

A Rede Américas, de Dasa e Amil, tem 38 unidades para tratamento de câncer.

Em ambos os casos, há uma relação entre operadora de convênio médico e prestador de serviços, o que teria sido um impeditivo para a Porto Saúde que concorre diretamente com SulAmérica (que pertence à D’Or) e Amil.

A Porto Saúde já tem uma joint venture com a Oncoclínicas em que a seguradora encaminha, preferencialmente, seus pacientes para as unidades da rede. Caso a operação saia, a tendência é que essa união se desfaça.

O Fleury tem também uma joint venture com a Bradesco Seguros e a BP-Beneficência Portuguesa, numa empresa de oncologia chamada Croma. Cada acionista tem um terço da operação, com investimento conjunto de quase R$ 700 milhões. A Croma tem hoje quatro unidades, sendo três em São Paulo e uma no Rio.

O acordo com Porto e Fleury só irá adiante se a Oncoclínicas negociar o restante do passivo, de R$ 1 bilhão, com credores. Uma possibilidade seria os credores concederem abatimento e migrarem para a nova empresa, segundo fontes. Desde o ano passado, as debêntures e CRIs são negociados no mercado com desconto de até 50%.

“O Fleury sempre observou oncologia com bons olhos. A oncologia exige muita expertise em diagnóstico e o modelo de atendimento é muito parecido: são serviços ambulatoriais com unidades porta para rua, fora do ambiente hospitalar. Então tem muita sinergia operacional, de usar o know-how de atendimento a clientes do Fleury, de relacionamento com a comunidade médica, de usar poder de barganha para comprar insumos e medicamentos com melhor custo de efetividade”, disse Harold Takahashi, sócio da gestora Fortezza, que por oito anos foi executivo do Fleury.

“Até então, havia uma incógnita de como a Porto entraria num ‘deal’ desse de peito aberto, comprometendo até R$ 1 bilhão sem nunca ter operado como prestador de serviço anteriormente? A resposta está aí”, disse.

 

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