Publicado em 04/03/2026 - 09:52 / Clipado em 04/03/2026 - 09:52
Câncer de próstata: como revolução silenciosa elevou tratamento em 15 anos
Ampliação do espectro terapêutico significa mudanças na vida do paciente, com retorno mais rápido à rotina e preservação da sexualidade e da autonomia
Por Marcelo Bendhack*
Tumores na próstata: conhecimento genético delineia melhor estratégia terapêutica (Ilustração: VEJA/VEJA)
Câncer de próstata: como revolução silenciosa elevou tratamento em 15 anos Câncer de próstata: como revolução silenciosa elevou tratamento em 15 anos Câncer de próstata: como revolução silenciosa elevou tratamento em 15 anos
Ao longo dos últimos 15 anos, o tratamento do câncer de próstata passou por uma transformação silenciosa, porém profunda. O que antes era marcado por decisões difíceis, medo dos efeitos colaterais e impactos duradouros na vida íntima e social dos pacientes, hoje caminha para um modelo mais humano, preciso e individualizado.
Um dos símbolos dessa mudança é o HIFU (High-Intensity Focused Ultrasound), técnica minimamente invasiva que completa 15 anos de aplicação no Brasil em 2026 – a primeira aplicação da técnica foi no dia 19 de janeiro de 2011, no Hospital Nossa Senhora das Graças, em Curitiba (PR).
Mais do que uma inovação tecnológica, o HIFU ajudou a redefinir a forma como médicos e pacientes encaram o tratamento do câncer de próstata. Tradicionalmente, o diagnóstico da doença colocava muitos homens diante de um dilema angustiante. Uma das opções, a vigilância ativa, que favorece o surgimento de ansiedade pelo fato de “não tratar” a doença. Outra, as terapias radicais, como cirurgia ou radioterapia, que frequentemente são associadas a efeitos colaterais relevantes, como incontinência urinária e disfunção erétil.
O HIFU surge justamente como uma alternativa intermediária, capaz de oferecer controle oncológico eficaz com menor impacto sobre a qualidade de vida.
Estudos científicos internacionais demonstram que, em casos selecionados, o HIFU apresenta resultados oncológicos comparáveis aos tratamentos tradicionais, com taxas de sobrevivência semelhantes ao longo dos anos. A diferença está nos efeitos colaterais.
As terapias radicais podem causar alterações urinárias, especialmente a incontinência, em até 16 a 17 % dos casos, e impotência em, aproximadamente, 60 % dos pacientes. O HIFU mostra índices significativamente menores desses problemas, preservando autonomia, sexualidade e rotina diária.
Essa preservação não é um detalhe, mas representa qualidade de vida. Para muitos homens, especialmente a partir dos 60 anos, manter a independência funcional e a vida sexual ativa faz parte do próprio conceito de saúde. Reduzir o medo do tratamento, permitir um retorno mais rápido às atividades cotidianas e minimizar sequelas são fatores que impactam diretamente o bem-estar físico e emocional do paciente e de sua família.
Outro avanço decisivo dos últimos anos vem da epigenética, área da ciência que estuda como determinados “interruptores bioquímicos” nos genes influenciam o comportamento das células.
Pesquisas recentes mostram que marcadores epigenéticos ajudam a diferenciar tumores indolentes daqueles com maior potencial de agressividade. Na prática, isso significa diagnósticos mais precisos e decisões terapêuticas mais seguras, evitando tanto o excesso quanto a falta de tratamento.
A integração entre terapias focais, como o HIFU, e biomarcadores epigenéticos representa um novo patamar da chamada oncologia de precisão. Em vez de tratar todos os pacientes da mesma forma, passa-se a considerar as características biológicas do tumor e o perfil individual de cada homem. Esse modelo já é adotado em centros de referência nos Estados Unidos, Europa, Ásia e América Latina, e vem ganhando espaço também no Brasil.
Após 15 anos, hoje é possível afirmar que o HIFU deixa de ser apenas uma inovação tecnológica para se firmar como parte de um novo paradigma no tratamento do câncer de próstata.
Um paradigma em que ciência, tecnologia e sensibilidade caminham juntas. Onde o tratamento do câncer de próstata concilia controle oncológico com preservação da qualidade de vida ao apresentar novas perspectivas. E todas muito mais humanizadas.
**Marcelo Bendhack é uro-oncologista, presidente da Associação Latino-Americana de Uro-Oncologia e professor da Universidade Positivo, em Curitiba
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