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Publicado em 02/03/2026 - 09:50 / Clipado em 03/03/2026 - 09:50

Medicamento experimental mostra resultados promissores ao ‘religar’ defesa natural contra o câncer


Substância busca restaurar a função da proteína p53, conhecida como uma das principais guardiãs contra o crescimento descontrolado das células tumorais

 

Por Victória Ribeiro 

 

Buscar formas de combater o câncer é, sem dúvidas, um dos grandes desafios da medicina. Agora, um medicamento experimental que busca restaurar a função de um dos principais genes de defesa contra tumores parece ter apresentado resultados iniciais positivos.

Em um estudo publicado no New England Journal of Medicine, pesquisadores testaram a molécula rezatapopt. Como o nome sugere, ela busca “resetar” (ou seja, religar) versões defeituosas da proteína p53, conhecida como uma das principais guardiãs contra o crescimento descontrolado das células tumorais.

A pesquisa incluiu 77 pacientes com câncer avançado ou metastático que já haviam passado por diversos tratamentos sem sucesso. Entre eles estavam tumores de ovário, pâncreas, mama e intestino.

 

O gene mais mutado do câncer

O alvo do medicamento é o gene TP53, o mais frequentemente alterado quando o assunto é câncer. Estima-se que mutações nesse gene estejam presentes em mais da metade dos cânceres sólidos.

Esse gene produz a proteína p53, responsável por funções importantes dentro da célula, como interromper a divisão celular quando há danos no DNA ou induzir a morte de células defeituosas. Quando ele perde sua função, as células tumorais conseguem crescer e se multiplicar com mais facilidade.

“O P53 é um gene supressor tumoral. Em termos simples, ele funciona como um freio natural contra o crescimento desordenado das células. Quando essa via falha, algo comum em praticamente todos os tipos de tumor, o câncer consegue se desenvolver e se espalhar”, explica o oncologista Daniel Musse, membro das sociedades brasileira, americana e europeia de oncologia clínica. 

O rezatapopt foi projetado para agir em uma mutação específica do gene, chamada TP53 Y220C. Essa alteração provoca uma instabilidade estrutural na proteína p53, impedindo que ela desempenhe seu papel de supressora de tumores. O novo medicamento se encaixa em uma espécie de “bolso molecular” criado por essa mutação e ajuda a estabilizar novamente a proteína, restaurando sua função.

Em termos simples, a estratégia tenta “ligar novamente” um sistema natural de defesa contra o câncer que foi desativado pela mutação genética.

 

Resultados iniciais

No estudo, os pacientes receberam o medicamento por via oral em ciclos contínuos de 21 dias. A dose considerada mais adequada para as próximas fases da pesquisa foi 2000 mg por dia, administrada com alimentos.

Os resultados mostraram:

 

  • 20% de resposta tumoral entre todos os participantes (em termos práticos, significa que, a cada 10 pacientes que receberam o medicamento experimental, 2 apresentaram uma redução significativa ou o desaparecimento total de tumores)
  • respostas observadas em diferentes tipos de câncer, incluindo ovário, mama e cabeça e pescoço

De acordo com Musse, apesar de ser estudada há décadas, nenhuma medicação havia conseguido, até agora, restaurar a função da proteína de forma tão eficaz.

“A gente sempre soube que o p53 era uma peça-chave na proteção contra o câncer. Mas nunca conseguimos atuar ali com sucesso. Essa droga parece mudar esse cenário”, explica o oncologista.

Segundo ele, o ponto mais marcante do estudo é o fato de a estratégia principal não ser destruir diretamente a célula tumoral, mas reativar um mecanismo natural do próprio corpo.

” Nosso organismo tem mecanismos muito sofisticados de equilíbrio. O que essa droga faz é tentar restaurar uma função que já existe, que naturalmente protege contra o câncer. É como religar um sistema de defesa que estava desligado.”

 

Efeitos colaterais

Como esperado em terapias contra o câncer, efeitos adversos aconteceram. Os mais frequentes foram:

  • Náusea (58% dos participantes)
  • Vômito (44%)
  • Aumento da creatinina no sangue (39%)
  • Fadiga (39%)
  • Anemia (36%)

Na maioria dos casos, os sintomas foram leves ou moderados e puderam ser controlados com ajuste de dose ou tratamento de suporte. Apenas 3% dos pacientes interromperam o medicamento devido a efeitos colaterais relacionados ao tratamento.

 

Próximos passos

Como se trata de um estudo de fase 1, o principal objetivo foi avaliar segurança e determinar a dose adequada para as próximas etapas. Ou seja, ainda é uma pesquisa inicial, embora os resultados tenham se mostrado promissores.

Agora, o medicamento deve avançar para estudos de fase 2 e 3, que avaliarão com mais precisão sua eficácia em grupos maiores de pacientes. 

Se os resultados se confirmarem, a estratégia pode representar um novo tipo de tratamento personalizado para tumores que carregam essa mutação específica.

“É cedo para falar em mudança de prática, mas é um sinal muito forte. Mexeu com a classe médica porque mostra que o caminho pode estar justamente em recuperar mecanismos que o próprio corpo já tem”, opina Musse.

 

https://veja.abril.com.br/saude/medicamento-experimental-mostra-resultados-promissores-ao-religar-defesa-natural-contra-o-cancer/

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