Publicado em 28/01/2026 - 10:30 / Clipado em 29/01/2026 - 10:30
Lista com os 100 melhores hospitais públicos do Brasil revela caminhos para fortalecer o SUS
Segundo Giovanni Cerri, hospitais públicos bem avaliados compartilham elementos como autonomia, foco em indicadores e metas, referência regional e pesquisa
Por Giovanni Cerri
Não é nenhum segredo que o sistema público de saúde brasileiro, o SUS tem uma série de problemas e, no conjunto, oferece um serviço aquém do que a população deseja e merece. Apesar disso (ou talvez por isso mesmo), é importante conhecer e destacar aquilo que funciona bem no SUS, para que possamos aprender com os bons exemplos e espalhar pelo sistema inteiro as boas práticas que definem seus polos de excelência.
Acabamos de ganhar uma base importante de dados para balizar esse aprendizado: a recém-publicada lista dos 100 melhores hospitais públicos do Brasil. O ranking levou em consideração critérios como taxa de mortalidade, disponibilidade de leitos, tempo médio de permanência e taxa de ocupação, além de indicadores de qualidade assistencial e eficiência na gestão dos recursos.
Elaborada pelo Ibross (Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde), em parceria com a OPAS/OMS (Organização Pan-Americana de Saúde), o Instituto Ética Saúde (IES), o Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass) e o Conselho Nacional das Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), a lista é formada apenas por hospitais operados 100% pelo SUS, sejam eles federais, estaduais ou municipais.
Quem se debruçar sobre os dados perceberá de imediato certa concentração regional desses centros de excelência. O estado de São Paulo sozinho abriga 30% deles, e a região Sudeste tem 41 das 100 instituições mais bem avaliadas. Apesar disso, hospitais de todas as regiões do país figuram na lista. O destaque fica com Goiás, no Centro-Oeste, com 10% dos melhores hospitais públicos, o que coloca o estado em segundo lugar no ranking. Há deficiências e há, sim, concentração, mas o SUS foi capaz de distribuir centros médicos de referência por toda a extensão do território; nosso desafio principal parece ser democratizar essas boas experiências.
O ranking permite vislumbrar alguns caminhos para isso, e um deles certamente passa pela gestão. Hospitais públicos que conseguem entregar melhores resultados costumam ter algo em comum: maior autonomia, permitindo separar com clareza a gestão técnica da lógica (e do timming) da política, sem o que não há continuidade de projetos.
Modelos baseados em metas, indicadores e contratos de desempenho, adotados em muitos dos hospitais públicos bem avaliados, ajudam a criar uma cultura orientada à qualidade assistencial, e não apenas à sobrevivência administrativa. Tudo isso pressupõe transparência: é preciso monitorar e divulgar indicadores como mortalidade, taxa de ocupação, tempo médio de internação, reinternações e eventos adversos, usando esses dados como ferramentas de melhoria contínua.
Um segundo caminho está no fortalecimento de hospitais estratégicos e de referência regional. A lista dos 100 melhores está repleta dessas instituições, o que não é fruto do acaso: elas concentram estrutura de alta complexidade, equipes mais qualificadas, leitos de UTI e capacidade diagnóstica superior à média, funcionando como retaguarda para redes locais inteiras. Priorizar essas unidades não significa abandonar as outras, mas criar polos capazes de irradiar qualidade por todo o sistema.
Os hospitais de ensino e pesquisa merecem um destaque especial. A integração entre assistência, formação profissional e produção de conhecimento aparece de forma recorrente entre os hospitais mais bem avaliados. Hospitais vinculados a universidades e centros de pesquisa funcionam como centros de disseminação de boas práticas, apoiando tecnicamente outras unidades da rede. Fortalecer essa tríade dentro do SUS, com incentivos à formação continuada, à residência médica e à pesquisa aplicada, é uma maneira testada e aprovada de elevar o padrão médio do sistema como um todo.
Por fim, não podemos esquecer o papel da tecnologia digital e da inovação nesse esforço de democratizar o atendimento de excelência no SUS. A telemedicina e a telessaúde permitem conectar hospitais de ponta a unidades menores e mais distantes, oferecendo teleconsultas, interconsultas entre especialistas e telediagnóstico. Isso reduz filas, evita deslocamentos desnecessários e aproxima regiões remotas do conhecimento acumulado nos grandes centros.
No plano da gestão, a automação de processos administrativos e logísticos – penso aqui em compras, controle de estoque, gestão de medicamentos, rastreabilidade de insumos e muito mais – reduz desperdícios e combate perdas e fraudes. Soma-se a isso a possibilidade de termos prontuários eletrônicos integrados, interoperáveis em nível nacional. Um sistema que “conversa” evita exames repetidos, diminui erros de medicação e permite acompanhar o paciente ao longo do tempo, especialmente nos casos de doenças crônicas.
Os dados deixam claro que as ilhas de excelência no SUS são o resultado de escolhas bem-feitas em gestão, organização, uso da tecnologia, acreditação hospitalar e cuidado com pessoas. O país precisa proteger e multiplicar essas boas práticas, para que nosso sistema público de saúde, em si mesmo uma conquista civilizatória importantíssima das últimas quatro décadas, possa avançar muito além da lógica da escassez.
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