Publicado em 26/01/2026 - 09:52 / Clipado em 27/01/2026 - 09:52
Câncer pode proteger contra Alzheimer, e cientistas descobrem possível motivo
Estudo com camundongos descobriu que uma proteína produzida pelas células cancerígenas para se infiltrar no cérebro acaba ajudando a eliminar substâncias ligadas ao Alzheimer
Por O Globo — Rio de Janeiro
Cientistas têm observado há décadas que dificilmente uma mesma pessoa desenvolve câncer e Alzheimer, sugerindo que pode haver algum grau de proteção envolvido de uma doença contra a outra. Agora, um novo estudo, que levou 15 anos para ser concluído, publicado na revista científica Cell, ajuda a desvendar esse mistério.
Embora seja inicial, o trabalho, feito por pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong, em Wuhan, na China, com camundongos descobriu que uma proteína produzida pelas células cancerígenas para se infiltrar no cérebro acaba ajudando a eliminar placas de uma outra proteína chamada beta-amiloide características do desenvolvimento do Alzheimer.
Embora seja difícil confirmar uma relação, já que muitos pacientes com câncer morrem antes da idade em que desenvolveriam Alzheimer, a falta de um histórico oncológico entre os diagnosticados com a principal forma de demência do mundo chama a atenção há anos. Uma metanálise de 2020, com dados de mais de 9,6 milhões de pessoas, constatou uma redução de 11% na incidência de Alzheimer entre pessoas que tiveram câncer.
Por isso, no novo estudo, os cientistas desenvolveram camundongos feitos para terem a doença neurológica e transplantaram três tipos de tumores nos animais, de pulmão, colorretal e de próstata.
Um dos processos fisiológicos ligados ao Alzheimer é o acúmulo de uma proteína no cérebro chamada beta-amiloide. Ao não ser devidamente descartada, ela se aglomera e forma placas ao redor dos neurônios. Dessa forma, interrompem a comunicação entre as células nervosas.
Por isso, os medicamentos mais inovadores para a doença, como o Kisunla (donanemabe), da Eli Lilly, e o Leqembi (lecanemabe), da Eisai e da Biogen, são anticorpos projetados para entrar no cérebro, se ligar a essas placas de beta-amiloide e eliminá-las.
Agora, com os camundongos, os cientistas chineses descobriram que as células cancerígenas produzem uma proteína chamada cistatina C (Cyst-C) que circula pela corrente sanguínea, atravessa a barreira hematoencefálica e entra no cérebro.
Ao chegar lá, essa proteína também se liga às placas de amiloide. Além disso, a Cyst-C se conecta ao receptor TREM2 presente na microglia, uma célula imune cerebral, ativando a sua ação. Com isso, a microglia passa a degradar os aglomerados de beta-amiloide.
Na pesquisa, os cientistas foram além e testaram a memória dos animais em um labirinto após receberem um tratamento feito com a proteína Cyst-C extraída dos tumores. Os camundongos melhoraram seu desempenho no experimento, sugerindo uma melhora cognitiva.
“Nossas descobertas proporcionam avanços conceituais significativos na neurociência do câncer e estabelecem caminhos terapêuticos distintos das atuais estratégias de redução de amiloide, com o objetivo de degradar as placas amiloides existentes para uma terapia de Alzheimer direcionada com precisão”, escreveu Youming Lu, autor sênior do artigo.
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